Apagam-se as luzes e, com elas, desaparecem algumas das referências mais comuns de quem entra em uma sala de teatro. Não é possível acompanhar expressões, figurinos, cenários ou movimentos com os olhos. Na escuridão, é preciso ouvir, tocar, perceber distâncias e prestar atenção ao próprio corpo e à presença de quem está ao redor.
É dessa proposta que nasce a oficina Imersão no Breu, que terá uma nova edição nesta segunda-feira (14), às 19h, no Centro de Vitória. A vivência reúne práticas coletivas e jogos teatrais realizados completamente no escuro.
A iniciativa é um desdobramento do processo de criação de “O Teatro do Breu — outro jeito de ver”, espetáculo dirigido por Juliana Mentros e vencedor do Prêmio FM SUPER da Cultura Capixaba em 2025 como melhor peça estreante.
A montagem trabalha com o teatro sensorial e substitui a predominância da experiência visual por estímulos que envolvem outras formas de percepção. No escuro, até a fronteira entre palco e plateia perde parte do sentido: quem assiste também passa a ocupar e perceber o espaço da cena.
A proposta reúne artistas cegos e não cegos. Uma das integrantes do projeto é Cinthya Oliveira, atriz capixaba cega de nascença, que também participa da facilitação da oficina. Psicóloga, Cinthya atua ainda em outras produções artísticas e trabalhos no audiovisual no Espírito Santo.
Dançar sem enxergar
Durante a Imersão no Breu, os participantes são convidados a abandonar temporariamente a visão como principal referência. Uma playlist acompanha exercícios nos quais os corpos exploram o espaço, os movimentos e a relação com outras pessoas no escuro.
Na primeira edição, realizada em agosto, a experiência chegou também às ruas do Centro de Vitória. Dois participantes, vendados e acompanhados pelas facilitadoras, fizeram um pequeno percurso para encontrar Pedro Henrique, participante cego de nascença.
Alunos da turma Fernanda Torres, da Escola Técnica Municipal de Teatro, Dança e Música Fafi, também participaram da atividade.
Alexandre, um dos participantes, conta que saiu da experiência pensando justamente na dependência da visão no cotidiano.
“Acho que a principal lição foi perceber como a gente confia pouco nos nossos outros sentidos. A gente acredita muito no que vê com os olhos”, afirmou.
Criadora e diretora de “O Teatro do Breu”, Juliana Mentros é artista transdisciplinar e formada pela Escola Livre de Teatro de Santo André (ELT), em São Paulo. Sua atuação passa pelo palco, produção e formação artística.
Mais do que simplesmente apagar as luzes, a proposta da oficina é alterar as referências utilizadas para perceber o espaço e o outro. Por algumas horas, enxergar deixa de ser condição para que a cena aconteça.
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SERVIÇO – Imersão no Breu
Quando: segunda-feira (14), às 19h
Onde: Má Companhia, Centro de Vitória
Condução: Juliana Mentros
Facilitação e participação especial: Cinthya Oliveira










