Livro de Emmanuel 7Linhas reúne 31 poemas de arte e denúncia

Com 31 poesias que mesclam denúncia social, afeto e esperança, Egodistônico, livro do multiartista Emmanuel 7Linhas, está disponível para pré-venda no site da Editora Cousa até 28 de agosto. A obra pode ser adquirida pelo valor de R$ 54,00 por pessoas de qualquer parte do país, que receberão o exemplar pelos Correios a partir de 20 de setembro. Egodistônico é o primeiro livro do autor, falecido há exatos três meses, no dia oito de maio.

Emmanuel 7Linhas era poeta, compositor, performer, cantor, produtor cultural, rapper e educador social. Foi assassinado enquanto fazia um trabalho social junto a pessoas em situação de rua no bairro Ibes, em Vila Velha. Na ocasião, uma moto com duas pessoas passou no local e efetuou diversos disparos, atingindo fatalmente o multiartista e uma mulher chamada Kézia Kelly, que vivia em situação de rua, além de ferir um homem que também estava na mesma situação.

O livro, cujo lançamento era um dos sonhos de Emmanuel 7Linhas, já estava pronto, prestes a ser lançado, quando ele morreu. Tem como uma de suas marcas a denúncia social contra a violência que atinge principalmente pessoas negras periféricas, portanto, a mesma truculência da qual foi vítima. Por isso, para a universitária Mayrianne Mattos, filha de Emmanuel 7Linhas, o lançamento do livro não é somente a realização do sonho de seu pai, mas de toda e qualquer pessoa que luta por um mundo mais justo.

“É também a realização de um sonho coletivo de outros caminhos possíveis para pessoas como nós. Em meio a estatísticas violentas sobre nossos corpos e um Brasil que insiste em nos matar, esse livro é a manifestação da resistência em forma de arte, é manter um legado vivo de um multiartista, um filho, pai, educador social e um ser humano único que nunca será apagado ou esquecido. Um poeta permanece vivo enquanto continua sendo lido, ouvido, sentido e, por nós, amado. Emmanuel 7Linhas presente hoje e sempre”, diz.

Denúncia sobre a indiferença

A denúncia social está presente na obra em poesias como ‘Um corpo estendido no chão da Raposo’, na qual narra a indiferença das pessoas no ir e vir da cidade diante de um corpo negro tombado no chão. Contudo, o autor também fala de esperança, como em ‘A próxima geração de poetas’, no qual diz que essa nova geração “não terá receio de entregar sua vida à esperança realista de que só o fim poderá retirar o lixo das ruas para um novo recomeço, menos perverso e desigual”.

O livro emana afeto em poemas como Verossimilhança, uma homenagem à filha Mayrianne, e nas próprias poesias de denúncia social, já que não se omitir diante das violências e desigualdades é um ato de amor e humanidade. Para Saulo Ribeiro, coordenador da editora Cousa, o lançamento do livro “é um compromisso com a memória visceral de Emmanuel 7Linhas”.

“É um livro escrito para ruir as estruturas de uma hipocrisia social e resgatar a esperança mesmo no meio do caos. Adquirir na pré-venda é, inclusive, apoiar a circulação de uma obra fundamental da poesia marginal e urbana capixaba. A poesia de Emmanuel é como o espelho jogado na cara de uma humanidade que vendeu promessas sobre a vida comum. Publicar Egodistônico é mais do que lançar um livro, é cumprir um compromisso político e de afeto com a memória de Emmanuel 7Linhas. Vítima da brutalidade e violência do mundo que tão corajosamente denunciou em seus versos, Emmanuel nos deixa um testamento poético urgente, lírico e sem concessões”, diz.

Saulo acrescenta que, em Egodistônico, a escrita do autor “adentra as ruas, as marquises de Vitória e as encruzilhadas da cidade para expor as fraturas sociais, a miséria e a falsa ideia de progresso. É uma poesia de combate, rasgada pela vivência do Hip-Hop e das periferias, mas que guarda, no fundo dos escombros, uma busca honesta por humanidade e afeto”.

Trajetória entre Vitória e Vila Velha

Emmanuel 7Linhas nasceu em Vitória, em 1980, e cresceu em Vila Velha, no bairro Santos Dumont. Fez parte dos grupos de Hip-Hop Diretoria du XV e Intifada RAM. Também integrou o trio A Priori – Música Brasileira do Brasil, que apresentava releituras da música popular brasileira em bares da Grande Vitória. Além disso, foi compositor e intérprete da banda Pó de ser emoriô, que abriu o show do cantor Moraes Moreira, em comemoração aos 40 anos do disco Acabou Chorare, na Estação Porto, em Vitória, no ano de 2012.

Ainda com Pó de ser emoriô, Emmanuel 7Linhas subiu ao palco do Teatro Carlos Gomes, em Vitória, com lotação esgotada, para o lançamento do CD da banda. Também se apresentou no Festival Multipliquei, em Muqui, no sul do Espírito Santo; no Festival de Inverno de Domingos Martins; no Festival Acorde Capixaba, no Sesc Glória, Centro de Vitória; e no Festival Patrimônio da Música, em Patrimônio da Penha, no Caparaó Capixaba.

Também contribuiu para a cultura capixaba como compositor e intérprete do grupo Céu do Congo, com apresentações no Carnaval de Congo de Roda d’Água, em Cariacica. Fez parcerias com outros artistas do Espírito Santo, como Idalina Dornellas, em seu primeiro CD solo, intitulado Idalina; e Fepaschoal, com quem foi um dos compositores da música Moderna Idade, da banda Mukeka de Rato.

Participou do CD do grupo de rap de Vila Velha In-versão Brasileira e também do videoclipe da música Soul da Vila, do mesmo grupo. Uma de suas atuações como performer foi na apresentação de dança contemporânea Yemonjá de Minério, durante a exposição Quanto Vale ou é em pó, da fotógrafa Zélia Siqueira, na Biblioteca Central da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), que trazia reflexões acerca da relação entre o meio ambiente e a emissão de poluentes de minério de ferro e seus impactos na vida humana.

O multiartista também realizava oficinas de Hip-Hop e escrita criativa. Em 2022, junto com a jornalista e escritora Elaine Dal Gobbo, ministrou oficinas de micropoesias na Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) São Jorge, em Cariacica, para estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA), que tiveram os textos produzidos nas oficinas publicados no livro Sobre Jovens e Adultos. Além disso, fez trabalho voluntário no pré-vestibular comunitário Educal, que preparava estudantes de origem popular para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como forma de possibilitar a democratização do acesso ao ensino público superior.

Atuou como realizador do Sarau do Fim do Mundo, experiência que trouxe de São Paulo, onde se destacou em grupos como Slam Antirracista. Em parceria com o escritor e cineasta Márcio Miranda Moraes, atuou como educador popular no Cineclube Nova Orla, realizado na Orla de Cariacica.

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