Nuno Ramos: “A arte é, sim, um ato radical”

Presença confirmada no seminário “Só o experimental me interessa: 46 anos da morte de Hélio Oiticica“, programado no Parque Cultural Casa do Governador no próximo sábado (21) e domingo (22), o paulista Nuno Ramos fará parte de mesa de discussão do tema “Experimentar o experimental” com Pollyana Quintella.

Artista visual, escritor, ensaísta, cineasta e compositor, Nuno atua em diferentes linguagens artísticas desde a década de 1990. Em conversa com ES Hoje, ele contou que sua obra dialoga com o legado de Hélio Oiticica.

“Eu admiro no Hélio uma polaridade organizada que é a seguinte: ele tem uma enorme curiosidade e uma abertura para o imediato; o trabalho dele reage, responde, ele é capaz de se pronunciar — o trabalho, não só o Hélio pessoa — de se pronunciar sobre tudo, desde a morte de um amigo, especificamente o Cara de Cavalo, até uma lamparina acesa que ele encontra na rua, os materiais, pedaços de asfalto, os materiais mais diversos. Essa potência de reação nele está muito costurada dentro de um método, dentro de um estilo, uma restrição estilística que é brilhante; é perceptível que isso tudo acontece um pouco dentro da grande questão poética dele, que é entrar na obra: o corpo entrar na obra pelo olho, nos contra-relevos, pelas mãos; o corpo inteiro que veste nos parangolés e depois o corpo inteiro que caminha e arrasta o espaço consigo nas praças. Acho que herdei isso”, derreta-se o artista.

Para Nunco Ramos, Oiticica ficou marcado pela potência estilística, coerência, capacidade mágica de unir os elementos mais diversos para um todo estilístico. “Penso que, no meu caso, é o oposto: meu estilo é muito contraditório e, às vezes, não parece de um mesmo autor; eu invejo isso nele. Lembrando que estou falando de um gênio e não existe nenhuma comparação, porém acho que essa dualidade feliz no trabalho do Hélio — que é trazer para dentro do seu estilo tudo o que o mundo pode propor. Quando penso no Hélio, eu penso nessa potência de se dirigir ao mundo sem se perder; no meu caso, seria me dirigir ao mundo me perdendo”, disse.

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ES Hoje: Qual a importância de apresentar esse debate no Parque Cultural Casa do Governador?
Nuno Ramos:
É um trabalho lindo e estou muito curioso para ver o que acontecerá e a conversa com a Pollyana Quintela, que é uma curadora que me acompanha de perto; legal encontrar as pessoas.

A arte ainda pode ser um gesto radical no presente?
Eu acho que a arte é, sim, um ato radical; agora, é uma radicalidade mais mediada. A obra hoje tem instâncias que a recebem de algum modo — instâncias institucionais, de mercado, de mídia —; ela precisa se articular numa certa opacidade para que aconteça minimamente, e é uma coisa que se precisa dar conta; sem isso, fica difícil imaginar que se consiga viabilizar uma obra forte. Esses elementos institucionais, que já existiam na época em que o Hélio concebeu, mudaram muito e podem ser inquietantemente conservadores e podem engolir a própria obra; essa opacidade, hoje, é preciso lidar com isso e resolver; portanto, não é fácil definir o que é radical hoje. Na medida em que romper os gêneros, agredir a própria arte — isso tudo parece já ser um gênero —, a solidão de cada artista tem que gritar de volta sua resposta a isso.

O que a mesa irá discutir?
Eu diria que essa opacidade institucional que nos circunda e que é um enigma a mais que precisamos dar conta para restaurar essa espécie de ato originário que existe um pouco na obra de arte; por mais que haja uma continuidade cultural, quando se entra num trabalho, alguma coisa se faz ali ignorando o que veio antes; há uma espécie de começar de novo, uma fresta que suspende a tonelagem de tradição e de mortos que carregamos nas costas; esse ato originário precisa vir e, para ele acontecer, é necessária a engrenagem institucional e mercadológica, e o trabalho precisa dar conta; hoje, isso é mais complicado do que antes.

 

Giuliano de Miranda
Giuliano de Miranda
Historiador Pesquisador Leena/UFES Mestre e Doutorando em Artes/UFES

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