O cineasta, artista visual e curador brasileiro Cesar Oiticica, conhecido por dirigir documentário sobre o renomado artista Hélio Oiticica, é presença confirmada no seminário “Só o experimental me interessa: 46 anos da morte de Hélio Oiticica”, que acontece no fim de semana no Parque Cultural Casa do Governador, em Vila Velha.
Em entrevista a ES Hoje, falou da importância de discutir a obra de Hélio e a dimensão pública, a relação com o espaço e o papel do espectador como participante.
ES Hoje: Que força simbólica há em discutir Oiticica nesse território?
Cesar Oiticica: O importante de se discutir a obra do Hélio e o legado dele seja no Brasil ou no mundo é a própria arte do Brasil, para que veja as potencialidades que ainda não conhece e que essa obra possa fluir para outros eixos além de Rio e São Paulo, e também do mundo visto que a importância do Hélio não se limita à questão territorial do Brasil, ela traz uma inovação num nível global.
Importante mostrar que na parte concreta da obra, a parte física da obra que também tem um legado para além do objeto, esse foi o ápice a onde chegou a obra. Conseguir colocar essa obra hoje no Espírito Santo significa muito para o legado e muito para a cultura, porque o Brasil não conhece o Brasil, apesar de ser uma frase antiga ela precisa ser reverberada, porque é impressionante até hoje a gente não ter tido uma retrospectiva do Hélio no Espírito Santo, não ter uma representação mais forte no estado que é tão próximo do Rio de Janeiro, tão similar.
Acho que essa obra nesse lugar traz sempre novos olhares, novas proposições. A obra é uma espécie de praça onde coisas devem acontecer, performances, shows, todo tipo de força criativa deve operar nesse lugar e num lugar tão especial como ela está colocada realmente a gente espera ter desdobramentos inesperados, novos, e essa é a força dessa obra, ela é ao mesmo tempo obra e ao mesmo tempo proposição e palco, praça e cidade, uma obra que dialoga com a cidade.
E com essa cidade linda que é Vila Velha e com a natureza desse lugar maravilhosa que é o Parque Cultural Casa do Governador.
O parque é cenário ou parte da obra?
O parque é para essa obra como se fosse um espaço de museu, lembrando que o Hélio é esse cara que cunhou essa frase “museu é o mundo”, é a experiência de vida, ele queria que a obra dele estivesse realmente na cidade, ao acesso livre do povo e também muito em contato com a natureza. Lembrando que essa obra vai mudar, não só durante o dia, mas durante o ano conforme a posição do sol, no inverno, no verão e na primavera se desloca e durante o dia se desloca mais visivelmente ou seja a obra nunca é a mesma, ela conversa tanto com o parque quanto com o cosmos, se formos pensar o cosmos como um grande museu, o parque como uma grande galeria desse museu.
O seminário discute Oiticica ou continua sua proposição experimental?
O seminário vai discutir a obra do Hélio, esse legado, mas podem sempre surgir proposições, ações, invenções no bojo do seminário e das falas e de tudo que vamos colocar na mesa e também da resposta do público que vai participar dele. A obra do Hélio, um outro ponto onde ela chega é a proposição, essas obras todas, grandes, propõem performances, interações, sentir a obra, caminhar na obra, então esse é o outro lugar onde essa obra chega, esse legado, ela não coloca uma questão fechada, propõe, o espectador no centro como o ator, o agente propulsor da arte.
Oiticica precisa do corpo do público para existir plenamente?
Sim, toda obra, um quadro no museu, a Monalisa no Louvre, se fechar o Louvre é como se não houvesse, porque a obra não está só na parede e também não está só no espectador, está entre. Um artista que trabalha muito bem isso na arte contemporânea é o indiano Anish Kapoor, ele consegue colocar isso materialmente, como essa obra está entre.
No caso do Hélio que propõe a ação direta na obra, essa revolução do corpo na obra, isso fica mais evidente, e é justamente sobre essa potência, sobre gerar essa fagulha, a energia criativa do antigo espectador para que ele se torne um participador, um propulsor dessa energia, é a revolução da obra do Hélio Oiticica.
A paisagem interfere na leitura da obra?
Todo entorno ao redor de uma obra vai interferir, seja parede que alguém pinte de alguma cor já é uma interferência. Por isso que historicamente, principalmente após o construtivismo, mas não só, tem essa busca de um cubo branco, uma sala cinza para que não haja interferência, mas se pensarmos que sempre haverá interferência, se uma pessoa entra vestida com uma fantasia em uma galeria já é uma interferência, cria um estranhamento.
Então essa paisagem exuberante, o lugar onde a obra está, barulho do mar batendo nas pedras, o vento que é constante nessa cidade, tudo isso faz parte dessa obra, é absorvido pela obra e depois pelas pessoas que vão interagir com ela. As sombras que mudam durante o dia, a nuvem que passa e muda a cor, então é uma obra que está aberta a essa mudança constante, que é uma forma de exemplificar a própria vida, tudo muda o tempo todo e essa obra deixou isso muito claro.









