Se a cena cultural do Espírito Santo dá sinais de grandes avanços, é graças à dedicação de pessoas como Nicolas Soares. Artista visual com trajetória consolidada no cenário nacional e diretor do Museu de Arte do Espírito Santo – MAES -, ele vem articulando diferentes frentes de atuação que reposicionam a produção capixaba no circuito brasileiro.
Sua gestão no museu se destaca pela perspectiva de uma atualização discursiva, provocando debates no campo da identidade em intercessão com outras linguagens artísticas. Nicolas Soares promove aquisições inéditas para o acervo, exposições experimentais e parcerias institucionais de alcance nacional, ao mesmo tempo que trabalha sua pesquisa artística, marcada por questões ligadas à imagem e suas relações de poder na cultura, ao corpo, à racialidade e ao desejo.
Entre a produção autoral e a gestão cultural, o diretor do MAES tem se afirmado como um dos protagonistas na renovação do debate sobre arte contemporânea no Espírito Santo, ampliando o diálogo do estado com o restante do Brasil. Nesta entrevista, Nicolas fala sobre carreira, desafios da gestão pública em cultura e o significado de estar com seu trabalho em circulação fora do território capixaba.
ES Hoje: Como enxerga a influência da sua geração e do seu percurso como artista nessa posição de direção institucional?
Nicolas Soares: Fui convidado em 2019 para assumir a coordenação da Galeria Homero Massena, um espaço histórico de artes visuais no Espírito Santo, e desde 2022 estou na Direção do (MAES. Esse lugar de gestão surge diretamente da minha trajetória como artista e do modo como compreendo a arte em múltiplos arranjos. Em quase vinte anos de carreira, meu trabalho artístico tem sido o eixo que me leva a esses espaços, permitindo que a coordenação se elabore também como um gesto criativo. O “artista-tudo”, tem sido uma expressão recorrente para desenhar o meu fazer no sistema da arte, justamente entre entender a direção institucional como parte de um fazer artístico expandido, no qual as gerações mais recentes têm buscado abrir caminhos em diálogo com o tempo presente, experimentando novas formas de estar na arte e de conectar instituições à sociedade em seus discursos.
De que forma sua vivência e formação moldaram sua pesquisa com imagens, e forma de pensar o corpo na arte?
Ingressei na Escola de Belas Artes da UFBA em 2006, onde comecei a percorrer meu percurso como artista, precisamente pelo sistema da arte. A experiência em Salvador definiu muitos aspectos da minha produção em relação à linguagem, à imagem e às relações identitárias. Depois, em Vitória, em 2012, cursando o mestrado na UFES, desenvolvi uma pesquisa entre corpo, imagem e discurso, que já era o escopo da minha produção artística até então. Com foco na fotografia. Nesse mesmo contexto, entre 2016 e 2018, atuei como professor substituto no Departamento de Artes Visuais e orientador de TCC no Ensino a Distância em Artes, ambos na UFES, compreendendo que dar aula era também um trabalho de arte: uma possibilidade de organizar conceitos, imagens e artistas em um arranjo curatorial, por exemplo. Transitar estes tempos, entre diferentes cidades, instituições e práticas, contribuiu para a percepção do meu próprio trabalho no contexto da arte contemporânea, a um pensamento sobre o corpo, imagem e poder, que cada vez mais tem se amadurecido e tentando corresponder aos debates de agora.
Qual foi o impacto pessoal e profissional de retornar à Homero Massena, como coordenador, após já ter vivenciado ali experiências como visitante e artista?
A Galeria Homero Massena tem um caráter fundamental na produção artística daqui, e poder retornar como coordenador foi também uma forma de reescrever minha relação com esse espaço que já havia me acolhido como público e como artista. A GHM foi aonde apresentei minha primeira exposição individual “Esta Aporia: uma liturgia do desejo”, que agora em 2025 completa 10 anos. Retorno a Homero em 2019, comprometido com uma gestão, na qual busquei reforçar sua missão como espaço público destinado a nova produção artística. Essa perspectiva se traduziu em propostas curatoriais como as três edições da Mostra Videografias, o Ciclo de Pesquisa e Formação e as duas edições do Fórum da Imagem (com publicações), programas de abrangência nacional que ampliaram os diálogos da Galeria, e de alguma forma da produção artística daqui com fora do estado. Retornar como coordenador me pôs a reconhecer a história da Homero, mas também ativar nela novas camadas de experimentação e circulação artística.

Quando assumiu o MAES quais foram as prioridades para reconectar o museu com a cidade e o público?
O museu ainda estava fragilizado pelos efeitos da pandemia e pela distância que isso havia criado entre o público e os espaços de cultura. Minha prioridade foi movimentar o Museu e reativar suas potências, em sua nova configuração numa recente pós-reforma. Para isso, estruturamos diferentes frentes: a abertura da sala de exibição permanente do acervo, a movimentação da biblioteca, e uma agenda de parcerias que articulam o Espírito Santo a instituições nacionais. Uma ativação por inteiro de seus espaços físicos e também à circulação e à experimentação. Outro ponto nessa gestão, estamos efetivamente produzindo a partir da Linha de Fomento para ocupação da agenda do Museu pelo Edital do Funcultura. Esse movimento reconecta o Museu à produção contemporânea local, fazendo com que o MAES esteja de fato contribuindo para a cena artística capixaba, como também favorecendo os intercâmbios.
O que tem guiado as decisões curatoriais para ocupar o espaço expositivo do MAES e reativar seus acervos em diálogo com outros contextos e artistas?
As decisões curatoriais têm sido guiadas pela ideia de que o acervo não é apenas um lugar estanque ou um repositório da memória, mas também um lugar de pensamento e atualização que precisa estar em ativação, em movimento. Nesse sentido, criamos o programa Acervo em Diálogo, que articula as coleções do MAES com outros acervos e artistas, ocupando sistematicamente a sala dedicada à exibição do acervo desde 2022. Essa proposta nos permitiu criar encontros, com instituições como o Arquivo Público do Estado, a Galeria de Arte Espaço Universitário da UFES, o Grupo de Experimentação Sonora (UFES) e outros. Acredito que seja uma das oportunidades de revisar historicamente o Museu e seu posicionamento discursivo perante os tempos de agora. Estamos com foco em novas incorporações e em políticas como o Edital Diálogo com Acervo, lançado este ano (2025) e que contemplou dez artistas negros que entram para a coleção do MAES, e irão se relacionar com uma artista importante do nosso acervo na exposição coletiva Nice contemporânea, em 2026.
Como as novas aquisições e os critérios adotados para elas têm contribuído para tornar o acervo do museu mais diverso, representativo e conectado às urgências do presente?
Entre 2022 e 2025, incorporamos cerca de 40 novos trabalhos e artistas ao acervo, reforçando a ideia de que uma coleção viva precisa refletir o tempo em que se insere. Lançamos o programa Diálogo com Acervo – por meio de Edital, voltado a revisitar nossas coleções e propor conexões com a arte contemporânea. A primeira edição foi 100% direcionada a artistas negros, negras e indígenas, inserindo diretamente dez novos nomes no acervo. Essa escolha se conecta à história do Museu, mas também busca uma reparação simbólica, ampliando a diversidade, mas principalmente deslocando o discurso e o pensamento do acervo. Hoje, com mais de 600 obras e cinco coleções principais, temos trabalhado no Museu para garantir o acesso público ao acervo, e que ele seja instigante sempre em novos debates.

Você transita por diversos papéis dentro do campo da arte. Como essa multiplicidade influencia suas escolhas criativas e institucionais?
Minha trajetória atravessa diferentes papéis – artista, gestor, curador, professor – e essa multiplicidade tem sido um modo de compreender a arte como um campo expandido. Organizei, em 2023, minha mais recente exposição individual Por uma Crise da Imagem, na GAEU – UFES, que refletia sobre como a imagem constrói imaginários sociais e se articula em estruturas de poder. Esse tipo de reflexão artística reverbera também nas minhas percepções e escolhas institucionais, como em propostas curatoriais que aproximam artistas de diferentes gerações, linguagens e inserções no sistema da arte, como no caso da curadoria em Transitar o Tempo (2024) no Museu Vale. Ser artista, curador e gestor ao mesmo tempo tem sido um desafio de tempo (principalmente) porém um complexo produtivo e criativo, que não se limita ao objeto de arte, mas também como ocupamos espaços, formamos públicos e como agitamos políticas culturais.
A itinerância é um caminho para divulgar nossa Arte? Isso tem sido feito pelo MAES?
A partir do MAES temos feito desde 2022 importantes parcerias institucionais para fora do Espírito Santo, como por exemplo a exposição REVIRAVOLTA da Associação Cultural Videobrasil, em 2022, concebida exclusivamente para Vitória, e para o Museu – se estendendo até a Galeria Homero Massena. Ainda, a retrospectiva de Éder Santos em 2023, produzimos a Itinerância da 35ª Bienal de São Paulo, Coreografias do Impossível, que também se estendeu até o Palácio Anchieta. No mesmo ano, a exposição Favela é Giro, do Museu das Favelas (SP), trazendo novas camadas de diálogo com a cidade, com a produção local e com o MAES. Participamos destas produções ativamente, muitas vezes, coproduzindo e articulando a cena capixaba com instituições de grande relevância. Isso reforça o papel do Museu como interlocutor nacional e como ponte para ampliar a circulação da nossa cadeia de agentes e profissionais da cultura.

Enquanto artista, o que está em curso nesse momento?
Tenho me dedicado a um projeto permanente chamado Oretratista, iniciado em 2015, que ganhou novos desdobramentos em 2024 com o lançamento do livro fotográfico e do filme LARGO. Essa ação, realizada na Praça Costa Pereira, em Vitória, surge de um estúdio aberto em praça pública, para que qualquer pessoa pudesse se deixar retratar, ampliando as possibilidades de encontro entre arte, subjetividade e espaço público. Recentemente, participo também da exposição coletiva Afro-brasilidade (2025), no espaço FGV Arte, no Rio de Janeiro, com curadoria de Paulo Herkenhoff e João Victor Guimarães, que busca relacionar a produção histórica e contemporânea da arte afro-brasileira. Neste momento, reflito também sobre os 10 anos da pesquisa Esta Aporia, apresentada na Galeria Homero Massena. Agora, em produção direta, estou estendendo uma produção que começou em 2021, no meu processo de residência artística no Mosteiro Zen, onde produzi uma série de naturezas-mortas, chamada TUDO QUE SE PODE OFERECER (apresentada na exposição Por uma crise da Imagem, em 2023). Esse processo elaborando novas naturezas-mortas chama-se looking for love, e tem a imagem como problema central na construção de imaginários e desejos.










