Inflação importada chega à cadeia produtiva capixaba

A instabilidade geopolítica deixou de ser pano de fundo e passou a influenciar diretamente os custos de produção do Espírito Santo. A avaliação é do economista-chefe do Sicredi, André Nunes de Nunes, que projeta manutenção da pressão inflacionária ao longo de 2026. O aumento de custos em energia, petróleo, fertilizantes e insumos industriais já alcança a produção, o consumo das famílias e a atividade econômica do Estado — e o movimento ainda não completou seu ciclo.

Inflação importada chega à cadeia produtiva capixaba
André Nunes de Nunes, economista-chefe do Sicredi (Divulgação)

O IGP-M registrou alta de 2,73% em abril de 2025, a maior variação mensal em cinco anos. O IPA-M — índice que mede os preços no atacado e antecipa movimentos de custo — avançou 3,49% no mesmo período. Mais revelador do que os números em si é o comportamento da difusão do IPA-Industrial, que saltou de 44,9% em março para 58,6% em abril. Isso significa que mais da metade dos produtos industriais acompanhados pelo indicador já registrava alta de preços — e o repasse ao consumidor final ainda está em andamento.

“O choque geopolítico deixou de ser apenas um pano de fundo e passou a influenciar diretamente a cadeia produtiva”

Construção civil e indústria: setores capixabas na linha de frente

Para o Espírito Santo, a pressão tem endereço específico. O Estado concentra setores estruturalmente sensíveis ao custo de produção, à logística e à construção civil — segmentos que reagem com rapidez a qualquer alta nos preços de insumos básicos. A combinação de petróleo mais caro, gás natural em elevação e resinas e materiais plásticos sob pressão compõe um cenário de encarecimento em cascata: da planta industrial à obra, do frete ao produto final na prateleira.

O INCC-M — índice que mede os custos da construção civil — já acumula alta superior a 1,0%, e a tendência é de continuidade nos próximos meses. Adubos e fertilizantes também figuram entre os itens sob maior pressão, o que expõe o agronegócio capixaba a um ambiente de margens mais apertadas. “No caso capixaba, a leitura é de atenção redobrada”, afirma Nunes.

Crédito mais caro por mais tempo: o risco para famílias e empresas

O canal do crédito é outro vetor de atenção. O Comitê de Política Monetária (Copom) deve dar continuidade aos cortes graduais na taxa Selic — de 0,25 ponto percentual por reunião —, mas a persistência da pressão inflacionária pode interromper o ciclo antes do previsto. Para consumidores e empresas capixabas, isso implica manutenção de condições de crédito mais restritivas por um período mais longo do que o esperado.

O cenário se agrava porque os orçamentos das famílias ainda carregam os efeitos de um endividamento elevado. O alívio nos juros, quando vier, encontrará um ambiente doméstico que já não tem muita margem para absorver novos choques. A combinação de crédito caro e inflação resistente tende a comprimir o consumo e postergar decisões de investimento no setor privado.

“A inflação deve se aproximar de 5% ao longo de 2026”

Resiliência com ressalva: o que esperar da economia capixaba

A projeção de inflação próxima de 5% para 2026, segundo Nunes, reforça o desafio colocado à política monetária no curto prazo. Ao mesmo tempo, o crescimento moderado observado no país reflete um equilíbrio tenso: mercado de trabalho ainda aquecido de um lado, restrições financeiras elevadas do outro. No Espírito Santo, essa combinação aponta para um ambiente de maior cautela tanto no consumo quanto no investimento.

A economia capixaba segue operando com algum fôlego — sustentada pelo baixo desemprego e pela demanda reprimida em setores como serviços e comércio —, mas as condições estruturais apontam para mais pressão do que alívio nos próximos meses. “Isso pode significar uma economia ainda resiliente por conta do desemprego ainda baixo, mas mais cara, mais seletiva e mais suscetível aos movimentos dos preços e demanda internacionais”, conclui o economista.

O recado para quem planeja consumo, expansão ou investimento no Espírito Santo é de prudência: o ambiente externo ainda dita muito do que acontecerá internamente, e o ano de 2026 exigirá mais leitura de cenário e menos piloto automático.

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas