Quem paga mais, quer mais voz. É essa lógica — legítima e transparente — que explica a presença da Suzano na diretoria executiva do Comitê das Bacias Hidrográficas do Rio Doce (CBH Doce). A maior produtora mundial de celulose, com operação em Aracruz (ES), é também a maior contribuinte pelo uso da água na bacia do Rio Doce. E agora, com a reeleição de sua representante para a diretoria do comitê, passa a ocupar formalmente um assento onde se decide como esse dinheiro será reinvestido na bacia.
A consultora de meio ambiente industrial da unidade capixaba, Mariele Fioreze, foi reempossada no cargo durante a cerimônia de posse dos membros e eleição da nova diretoria do CBH Doce — marcando o início de um novo ciclo de gestão para o colegiado que reúne poder público, usuários industriais e sociedade civil.
O Rio Doce como ativo estratégico da operação capixaba
A unidade da Suzano em Aracruz capta água diretamente do Rio Doce, no município de Linhares. O rio, de caráter federal, nasce em Minas Gerais e percorre cerca de 850 quilômetros antes de desaguar no litoral do Espírito Santo — tornando sua gestão uma questão interestadual, técnica e política ao mesmo tempo.
Para uma operação de celulose da escala da Suzano, água não é um insumo periférico: é um recurso crítico de processo. A captação contínua e a manutenção da qualidade hídrica da bacia são condições diretas de funcionamento da planta industrial. Isso transforma a participação da empresa no comitê em algo que vai além de responsabilidade socioambiental — é gestão de risco operacional.
“Como usuários diretos do Rio Doce, temos total interesse em participar das decisões sobre a gestão desses recursos. A Suzano é hoje o maior pagador pela captação de água no comitê, e uma parte significativa desse valor retorna para a bacia em forma de investimentos. Estar na diretoria nos permite acompanhar de perto como esses recursos são aplicados, contribuindo para ações concretas e estruturantes para a região.” — Mariele Fioreze, consultora de meio ambiente industrial da Suzano Aracruz
O que o CBH Doce decide — e por que importa ao ES
O Comitê das Bacias Hidrográficas do Rio Doce não é um fórum consultivo: tem poder deliberativo real. É ele que define prioridades e destino dos recursos arrecadados pela cobrança pelo uso da água — taxa paga por usuários industriais, como a própria Suzano, e que precisa ser reinvestida em ações dentro da bacia.
Entre as atribuições do colegiado estão o financiamento de projetos de educação ambiental, o monitoramento de cheias e eventos hidrometeorológicos críticos, e a aplicação dos instrumentos de gestão previstos na Lei das Águas. Para o Espírito Santo, que recebe as águas do Rio Doce em seu trecho final, as decisões do comitê têm efeito direto sobre segurança hídrica, preservação de ecossistemas e qualidade de vida das populações ribeirinhas — especialmente relevante desde o rompimento da barragem de Mariana, em 2015, que contaminou toda a extensão do rio.
Governança compartilhada como modelo de mercado
A composição do CBH Doce reflete um modelo de governança ambiental que o Brasil vem consolidando desde a Lei 9.433/97: a gestão participativa da água, com assento para usuários, poder público e organizações da sociedade civil. Dentro desse modelo, empresas que pagam pelo uso do recurso têm não apenas o direito, mas o incentivo econômico de participar das decisões — garantindo que os recursos arrecadados sejam aplicados de forma eficiente e com foco na recuperação e manutenção da bacia.
Para a Suzano, manter representação na diretoria do CBH Doce é, simultaneamente, exercício de cidadania corporativa e proteção de um ativo operacional insubstituível. Para o Espírito Santo, é a garantia de que o maior usuário industrial da bacia capixaba está sentado à mesa onde o futuro do Rio Doce é discutido.









