Cooabriel distribui R$ 6,38 milhões em dinheiro a cooperados idosos — modelo que ainda é raridade no cooperativismo brasileiro

No último dia 28 de abril, a Cooabriel transferiu R$ 6,38 milhões diretamente para as contas de mais de 700 cooperados com 70 anos ou mais e, pelo menos dez anos de vínculo com a cooperativa. O pagamento foi feito em parcela única, proporcional ao histórico de movimentação de cada cooperado. Não foi uma distribuição de sobras, não foi uma homenagem simbólica. Foi a devolução em dinheiro de capital social acumulado — e isso, no cooperativismo brasileiro, ainda é exceção.

O que torna esse modelo raro no Brasil

A devolução de capital social a cooperados é prevista pela Lei 5.764/71 e pode ser definida em estatuto por qualquer cooperativa. Na prática, porém, o resgate efetivo é pouco frequente — sobretudo no cooperativismo agropecuário. Quando ocorre, costuma ser parcial, parcelado ao longo de anos, e condicionado a critérios restritivos.

Cooperativas de crédito como o Sicoob Crediauc, em Santa Catarina, adotam regras que permitem o resgate de 80% da cota capital a partir dos 65 anos e 15 anos de associação — mas o pagamento é dividido em quatro anos, com 50% de imediato e o restante em parcelas anuais. Já cooperativas agropecuárias que realizaram devoluções recentes, como a Cooperativa Agropecuária Vale do Rio Doce, em Minas Gerais, beneficiaram um número muito menor de cooperados — 34, contra os mais de 700 da Cooabriel — e com critérios ainda mais restritivos, como 80 anos de idade mínima.

A Coamo, gigante paranaense com R$ 13,3 bilhões de patrimônio líquido, é uma das poucas cooperativas agrícolas do país que pratica devolução de capital social com regularidade. O formato capixaba, porém, diferencia-se em escala, critério de elegibilidade mais acessível (70 anos) e pagamento integral em parcela única.

“No modelo cooperativista, o capital social pertence aos cooperados e deve cumprir seu papel de gerar valor ao longo do tempo. A devolução de parte desse capital, com responsabilidade e equilíbrio, é uma forma concreta de reconhecer a fidelidade operacional dos cooperados.”  — Samuel Lopes Fontes, Gerente Corporativo Contábil Financeiro da Cooabriel

Disciplina financeira num cenário de juros altos

Devolver R$ 6,38 milhões em dinheiro, à vista, num ambiente de taxa Selic elevada, não é decisão trivial. Significa abrir mão de liquidez que poderia estar aplicada ou reinvestida na operação. A Cooabriel tomou essa decisão deliberadamente — e o enquadramento econômico é relevante: em tempos de juros altos, o dinheiro na mão de um cooperado de 70 anos vale mais do que uma promessa futura de resgate.

Fontes aponta que a medida reflete disciplina financeira e planejamento de longo prazo. Traduzindo: a cooperativa não precisou se endividar para honrar esse compromisso — o que, por si só, é um indicador de solidez patrimonial.

Quem se beneficia e como o valor foi calculado

Os critérios de elegibilidade foram definidos com data-base em 31 de dezembro de 2025: cooperados com 70 anos ou mais e pelo menos dez anos de vínculo contínuo com a Cooabriel. O valor recebido por cada um é proporcional ao histórico de movimentação — quanto mais o cooperado entregou produtos e operou com a cooperativa ao longo dos anos, maior a sua cota devolvida. Um valor mínimo de capital é mantido na conta de cada beneficiado, preservando o vínculo estatutário com a instituição.

“É um momento histórico. Queremos parabenizar todos os cooperados contemplados com essa devolução que, em sua maioria, fazem parte do nosso quadro há muito tempo. Estamos devolvendo o capital social ao cooperado para que ele possa usufruir de parte dos resultados que ajudou a gerar.”  — Luiz Carlos Bastianello, presidente da Cooabriel

O sinal que a Cooabriel manda ao mercado

Além do impacto direto para os 700 cooperados beneficiados, a decisão da Cooabriel carrega um recado estratégico: quanto maior a movimentação do cooperado ao longo da vida, maior o retorno que ele pode esperar. É um mecanismo de incentivo à fidelização com horizonte de décadas — e uma demonstração de que o modelo cooperativista, quando bem gerido, é capaz de entregar valor concreto e mensurável aos seus membros, indo além das sobras anuais.

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