O labirinto corporativo: entenda onde está a Apex Partners na economia capixaba

Será que a crise da plataforma de investimentos, Apex Partners só atinge parte da sociedade capixaba? Se falarmos nas contas bancárias, provavelmente. Mas no dia a dia, de alguma forma, quase a totalidade dos capixabas estiveram em contato com o conglomerado.

Para o cidadão comum, ver uma lista com quase duas centenas de empresas pode parecer confuso. No entanto, o mercado financeiro utiliza essa fragmentação de CNPJs (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica) de forma estratégica. No caso do Grupo Apex, a estrutura foi desenhada para separar riscos, captar recursos com investidores locais e injetar dinheiro em frentes que vão desde prédios de luxo a serviços bancários.

Para que o capixaba compreenda o impacto do Caso Apex na economia do Espírito Santo, vamos organizar esse “império” de 178 empresas em 7 grandes setores de atuação comercial. Em vez de focar nos cadastros burocráticos, entenda onde o dinheiro realmente operava. Veja como a teia se divide de forma didática:

1. 🏗️ Setor Imobiliário, Incorporação e Urbanismo

Este era o maior motor de “tijolo” do grupo. A Apex não apenas administrava fundos, ela mudava a paisagem urbana da Grande Vitória e exportava esse modelo para o Sul do Brasil. Os CNPJs isolavam os riscos de cada obra.
    • Bairros Nobres de Vitória: Veículos específicos para prédios de altíssimo padrão na Praia do Canto, Enseada do Suá e Jardim Camburi (como os residenciais Moma I e II, Vizzo, The Only e Grafik).
    • Cidades-Polo e Loteamentos: Braços focados no desenvolvimento urbano de massa, como o Parque Flora, loteamentos em Guarapari, e operações nas cidades de Linhares e São Mateus.
    • Galpões Logísticos: Estruturas criadas para erguer condomínios de galpões de carga em áreas altamente estratégicas para o comércio capixaba, como em Pitanga (Serra) e às margens do Contorno do Mestre Álvaro.
    • Expansão para o Sul: Empresas focadas em desenvolvimento urbano e centros comerciais (strip malls) fora do ES, localizadas em Londrina, Cascavel (Paraná) e Blumenau (Santa Catarina).

2. 🍔 Setor de Alimentação e Indústria Consolidada

Aqui o grupo tocava o cotidiano do capixaba, desde a alimentação popular até o fornecimento industrial de refeições para grandes corporações.
    • Redes Populares (Zé Coxinha): O veículo BRM Apex VCPE Zé Coxinha foi criado para deter uma fatia e financiar a expansão de uma das marcas de fast-food mais famosas do estado.
    • Alimentação Corporativa (AFS Alimentação): Empresas focadas no fornecimento de refeições coletivas, buffets e restaurantes corporativos (incluindo operações históricas de franquias como o Giraffas no ES).
    • Indústria de Alimentos (Trem Alimentos S.A.): Planta industrial localizada no Civit II, na Serra, atuando diretamente na fabricação e distribuição de produtos alimentícios.

3. 🏫 Setor de Educação, Pesquisa e Mídia

A Apex detinha participações no polo intelectual, na formação de mão de obra de elite e no mapeamento da opinião pública do estado.
    • Escola de Negócios (FUCAPE S/A): A prestigiada Fucape Business School faz parte dessa malha, conectando a gestora ao principal centro de formação e pesquisa em economia e contabilidade do estado.
    • Pesquisas Eleitorais e de Mercado (Instituto Futura): A tradicional Futura Pesquisa Ltda foi incorporada ao ecossistema para rodar estudos de mercado e as conhecidas pesquisas de intenção de voto no ES.
    • Mídia e Conteúdo (Media Business): Braço estruturado para investir em portais, eventos e produção de conteúdo corporativo.
    • Educação de Elite (Great Schools): Veículos focados no aporte a redes de ensino privado bilíngue.

4. 🚀 Setor de Inovação e Startups (Venture Capital)

Através da sigla “VC”, a Apex funcionava como a maior aceleradora de ideias de tecnologia do Espírito Santo, apostando em setores que vão da saúde ao agronegócio.
    • Logística e Delivery (Shipp e Zaitt): Veículos históricos que impulsionaram o aplicativo de entregas Shipp (comprado pela Americanas) e a Zaitt (primeiro mercado autônomo da América Latina).
    • Agronegócio Digital (ContaCafé): Startup capixaba que digitalizou a troca de sacas de café por insumos agrícolas, conectando o grupo aos produtores do interior.
    • Saúde Digital (Maya TecSaúde): Plataforma de cuidados e intermediação para idosos, vencedora de reality de inovação local.
    • Mercado Nacional (Singu, MyDoor e Spark): Parcerias de peso nacional, incluindo a Singu (delivery de beleza de Tallis Gomes), a MyDoor (casas de luxo compartilhadas) e a Spark (marketing de influência, que tem Marcus Buaiz como cofundador).

5. 🏥 Setor de Saúde e Serviços Médicos

Investimentos focados no bem-estar e no atendimento ambulatorial da população da Grande Vitória.
    • Clínicas Populares (Policlínica da Gente / CMSM S/A): Rede de atendimento médico acessível e exames com forte operação física em Jardim Limoeiro, na Serra.
    • Atendimento de Emergência (EMEG): Veículos financeiros voltados a aportes em serviços de ambulância, pronto-atendimento ou gestão hospitalar.

6. 🌾 Setor de Agronegócio e Aviação (Infraestrutura)

Aportes em cadeias de suprimentos pesadas e logística executiva de alto padrão.
    • Fertilizantes de Alta Tecnologia (Natufert S.A.): O grupo possuía fatias societárias na Natufert, uma gigante capixaba produtora de insumos e fertilizantes biológicos para o campo.
    • Aviação Executiva (A2 Aviation): Braço focado no mercado de táxi aéreo, compartilhamento de aeronaves ou logística aeroportuária executiva.

7. 🏦 O Setor Financeiro (As Engrenagens: Holdings, Gestoras e Family Offices)

Este não é o destino final do dinheiro, mas sim as “bombas hidráulicas” que puxavam o capital dos investidores para distribuir nos 6 setores acima.
    • As Holdings do Topo (ABM e ABMPAR): O coração societário original, onde os sócios majoritários organizavam o controle do grupo.
    • As Gestoras Regionais (Apex SP, RS, SC e Sul): Escritórios espalhados por capitais e polos do agronegócio para captar recursos de famílias ricas fora do Espírito Santo.
    • As Gavetas de Fundos (Ações, Crédito Privado, Multimercado): CNPJs que funcionavam como espelhos das carteiras oferecidas aos clientes no mercado de capitais.
    • Os Family Offices (Redoma, Potenza, Propósito): Escritórios de gestão de fortunas adquiridos pela Apex para cuidar do patrimônio global de clientes multimilionários.
Essa divisão setorial prova que a Apex Partners não era apenas uma “empresa de papel” ou uma corretora comum. Ela funcionava como um dos maiores fundos privados do Espírito Santo.
O colapso financeiro foi anunciado no início do mês de agosto de 2026, quando o fundador da Apex Partners, Fernando Cinelli, foi destituído, e as empresas reconheceram um endividamento de R$ 985,6 milhões – cujo valor foi previamente apurado. Chegou-se a esse valor, conforme documento apresentado á Justiça, somando R$ 452,1 milhões de debêntures emitidas por intermédio da Rhino Securitizadora; R$ 309,8 milhões de obrigações de cashback a 1,6 mil clientes; R$ 201,7 milhões de endividamento bancário e R$ 35,2 milhões de tributos.
Em nota, a defesa de Fernando Cinelli reforça que há a necessidade de uma apuração documental independente sobre os dados das empresas e sobre a cadeia de informações e decisão dentro da Apex. “Foi justamente com esse objetivo que ajuizou ação para que sejam preservados e exibidos os documentos capazes de esclarecer o funcionamento das operações e os respectivos centros de decisão e responsabilidade”, diz a nota. Cinelli afirmou, também, que sempre exerceu sua posição executiva no grupo com seriedade e transparência e reitera seu total comprometimento com a elucidação dos fatos.

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