Quem chega a um festival de rock costuma prestar atenção no palco. Enquanto o público acompanha o show, porém, uma estrutura que começou a ser montada dias antes mantém tudo funcionando. Equipes de produção, montagem, sonorização, iluminação, segurança, comunicação, alimentação e dezenas de outros profissionais trabalham para que a música aconteça.
No Espírito Santo, essa engrenagem também movimenta bandas, bares, cervejarias, fornecedores e pequenos empreendedores, formando uma cadeia que funciona durante todo o ano e vai muito além das apresentações.
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Para quem vive da música, permanecer nesse mercado exige bem mais do que talento. A banda capixaba No Class, que completa sete anos de trajetória, realiza cerca de 100 apresentações por ano. Hoje, aproximadamente metade dos shows acontece fora da Grande Vitória, uma estratégia adotada depois que os integrantes perceberam que o mercado na região metropolitana, sozinho, não seria suficiente para manter uma agenda constante.

Segundo o guitarrista César Reis, o número de espaços para apresentações ainda é limitado e conquistar um lugar nesse mercado exige tempo, planejamento e consistência. Foi justamente esse cenário que levou a No Class a ampliar a atuação para o interior do Estado. Cidades onde a banda nunca havia se apresentado passaram a integrar a agenda de shows, ampliando o mercado de atuação do grupo.
“Hoje realizamos cerca de 10 shows por mês e podemos dizer que aproximadamente metade deles acontece fora de Vitória. Muitas bandas não possuem os contatos necessários para acessar esse mercado ou, simplesmente, optam por não seguir esse caminho. Na nossa visão, para quem deseja viver de música nas condições do mercado atual, diversificar os locais de atuação e buscar oportunidades além da capital é praticamente o único caminho viável”, resume.
Essa rotina mostra que um show envolve muito mais gente do que os músicos. Em eventos particulares, entram em cena cerimonialistas, equipes de buffet, fotógrafos, cinegrafistas, empresas de sonorização, iluminação e diversos fornecedores. Nos bares e casas de shows, a dinâmica muda, mas continua baseada em uma relação em que banda e estabelecimento dependem um do outro para atrair público e manter o evento financeiramente viável.
Rock: movimento e trabalho para cadeia de fornecedores
Essa também é a avaliação de Leonardo Castilho, organizador do Festival Ilha do Rock. Criado para reunir música, cerveja artesanal, gastronomia e lazer para toda a família, o evento cresceu ao longo das edições e passou a integrar o calendário de eventos do Espírito Santo.
Segundo ele, a realização de cada edição mobiliza centenas de profissionais antes, durante e depois dos shows, envolvendo desde equipes técnicas até operações de alimentação, cervejarias, pequenos empreendedores e os próprios músicos.
“Muita gente participa dos bastidores. São centenas de profissionais trabalhando antes, durante e depois do evento. Temos equipes de produção, montagem, som, iluminação, segurança, elétrica, limpeza, brigadistas, cervejarias, operação de alimentação, comunicação e, claro, os músicos. É um evento que movimenta uma grande cadeia de profissionais e gera muitas oportunidades de trabalho”, conta.
O festival também atrai visitantes de diferentes regiões, contribuindo para movimentar outros segmentos ligados ao turismo e aos serviços. “Recebemos desde famílias com crianças até apaixonados por rock de todas as idades. Também vemos muita gente vindo do interior do Espírito Santo e até de estados vizinhos, principalmente porque o festival acontece nas férias de julho. Isso acaba movimentando hotéis, restaurantes, bares, transporte por aplicativo e o comércio em geral”, explica.
Além de receber atrações já conhecidas do público, o Ilha do Rock também abre espaço para bandas capixabas, ampliando a visibilidade de novos projetos e fortalecendo a produção musical do Estado. “O Ilha do Rock fortalece bandas locais, impulsiona cervejarias artesanais, gastronomia, pequenos empreendedores e gera empregos temporários. Além disso, ajuda a manter viva a cena do rock no Espírito Santo e mostra que eventos culturais também são importantes motores da economia e do turismo”, conclui.
Identidade para fortalecer a cena do rock

Quando decidiu abrir o Garage Pub, na Serra, Jean Soares apostou em um caminho que muitos consideravam arriscado. Em vez de diversificar a programação para diferentes estilos musicais, escolheu dedicar a casa ao rock e criar um espaço voltado para um público que, segundo ele, nunca deixou de existir, mas precisava de um ambiente com identidade própria.
“O Garage Pub nasceu acreditando que o rock nunca deixou de ter força. O que faltava era um espaço dedicado, com identidade e respeito ao público. Hoje vemos um cenário que ainda é positivo no Espírito Santo, com pessoas que valorizam música ao vivo, boas bandas e experiências de qualidade”, afirma.
Segundo Jean, a fidelidade desse público exige um investimento constante em estrutura, qualidade de som, atendimento e escolha das atrações. Para ele, administrar uma casa especializada é diferente de simplesmente montar uma programação musical.
“O público do rock é exigente, valoriza qualidade de som, boas bandas, atendimento e autenticidade. Em contrapartida, conquistamos um público extremamente fiel, que entende a proposta da casa e ajuda a manter viva a cultura do rock no Espírito Santo”, explica.
A proposta do Garage também passa pela experiência oferecida ao cliente. Além dos shows, a casa reúne gastronomia e uma fábrica de cerveja artesanal, buscando transformar cada evento em um espaço de convivência. “Não queremos ser mais um barzinho de rock. Queremos fazer parte das boas lembranças das pessoas”, ressalta.
Na avaliação do empresário, a cena capixaba evoluiu nos últimos anos, principalmente pela profissionalização das bandas e dos eventos. Ainda assim, ele acredita que o crescimento do setor depende de uma atuação mais integrada entre artistas, produtores e casas de shows. “Quando artistas, produtores, casas de shows e organizadores trabalham de forma colaborativa, todos crescem”, conclui.
Casamento do rock com a cerveja artesanal
Para a Cervejaria Mestra, participar de festivais de rock representa muito mais do que vender cerveja. Os eventos se tornaram uma oportunidade para apresentar novos rótulos, fortalecer a marca e criar uma relação direta com consumidores que, muitas vezes, voltam a frequentar o bar depois da experiência vivida durante os shows.
Segundo o proprietário Victor Morandi, essa aproximação aconteceu de forma natural. Para ele, o perfil de quem consome cerveja artesanal tem uma relação histórica com o universo do rock e com a cultura das pequenas cervejarias.

“Creio que esteja muito relacionado à faixa etária do público frequentador e consumidor de cerveja artesanal. O rock, dentro de toda a sua história, sempre teve um lado anarquista e transgressor. Essa ideia ainda vive para muitos e é intimamente ligada à cultura craft de cerveja, que foi criada para tentar ser um contraponto aos produtos de massa”, afirma.
Além do perfil do consumidor, a cervejaria percebe diferenças no comportamento de quem frequenta esse tipo de evento. Victor conta que o público do rock costuma procurar estilos específicos, principalmente cervejas mais lupuladas e com maior teor alcoólico, como IPAs, Double IPAs e Hazy IPAs.
Os festivais também têm papel importante na estratégia de crescimento da marca. Como as cervejarias artesanais possuem menor alcance de distribuição do que as grandes indústrias, o contato direto com o consumidor acaba sendo uma oportunidade para apresentar produtos e fortalecer a identidade da empresa.
“Os eventos em geral são importantes para nós, principalmente pelo contato direto com o público e pela exposição da marca. Como não temos o poder financeiro das cervejarias mainstream e muitas vezes não contamos com uma distribuição ampla, essa é a melhor forma de nos conectarmos com as pessoas”, explica.
Por trás de cada festival, a participação da cervejaria também depende de uma estrutura que envolve equipes de produção, montagem, logística, decoração e limpeza. Para Victor, esse trabalho conjunto ajuda a fortalecer um mercado que beneficia diferentes segmentos. “A cadeia de eventos é incrível. O que a galera de produção, decoração, montagem, logística e limpeza faz é de outro mundo. Montar e desmontar um evento no tempo que conseguem é algo impressionante”, completa.










