Tributação de bebidas ameaça cachaça artesanal

O setor produtivo da cachaça lançou o Manifesto da Cachaça, documento assinado por 17 entidades que demonstram preocupação com as regras de tributação das bebidas alcoólicas previstas na Reforma Tributária. 

Segundo o Instituto Brasileiro da Cachaça (IBRAC), as mudanças aprovadas pelo Congresso Nacional podem gerar distorções ao permitir alíquotas diferenciadas por categoria de bebida e teor alcoólico, o que, na avaliação da entidade, pode resultar na tributação do álcool por mais de um critério.

Tributação de bebidas ameaça cachaça artesanal
Setor alerta para possíveis impactos sobre pequenos produtores, aumento da complexidade tributária, insegurança jurídica e crescimento da informalidade.

O setor também alerta para possíveis impactos sobre pequenos produtores, aumento da complexidade tributária, insegurança jurídica e crescimento da informalidade. Além disso, argumenta que a proposta pode manter desigualdades históricas entre as bebidas alcoólicas, mesmo com a cerveja concentrando a maior parte do consumo no país.

O manifesto destaca ainda a importância econômica da cachaça, cadeia que movimenta mais de 600 mil empregos diretos e indiretos e reúne mais de 1,2 mil estabelecimentos produtores registrados no Brasil.

Preocupação
Há 19 anos como produtor de cachaça, Angelo Afonso Locatelli conta que a produção realizada por ele é pequena e a venda é praticamente na propriedade. O produtor ressalta que considera que a cachaça recebe tratamento tributário justo em comparação com outras bebidas alcoólicas, como cerveja e vinho.

“O tratamento tributário em relação a outras bebidas está adequado”, frisa. 

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Angelo Afonso Locatelli, produtor de cachaça há 19 anos

Ele reforça ainda que a alta na tributação pode gerar impactos significativos. “Com certeza que alta na tributação gera dificuldade em todo produto e como consequências, temos: perda de competitividade com outras bebidas, tipo importadas, informalidade, redução de vendas, entre outro”. Ainda segundo Angelo Afonso, o aumento da tributação não resolve questões de saúde pública. “Acredito que para isso, podem ser usadas outras ferramentas”, citou.

Questionado sobre o modelo defendido pelo IBRAC, com parte fixa baseada no álcool puro e parte proporcional ao valor do produto, ele faz um alerta que pode estar acontecendo ainda no meio dos produtores. “Ainda não tive total conhecimento sobre o modelo proposto pelo Ibrac. Mesmo assim, o setor específico da cachaça  passa por dificuldades”, disse.

Aumento de custos e perda de competitividade

Já Afonso Takemoto, COO (Gestor Operacional) no Grupo Princesa do Mar – Cachaça Princesa Isabel, Mar Dry Gin e Amplify Vodka – defende um modelo de tributação mais equilibrado para o setor. Avalia que que o aumento da carga tributária pode impactar a sustentabilidade financeira da sua produção.

“Há que se entender que a reforma tributária não trata apenas de aumento de carga tributária. Ao que tudo indica, o aumento de carga tributária para o nosso setor será pesadíssimo. Enfrentaremos alíquotas severas devido ao Imposto Seletivo (frequentemente chamado de “imposto do pecado”), o que vai impactar muito o preço final e, na ponta, vai se desdobrar numa perda relevante do volume de negócios.”

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No ramo há 4 anos. O principal mercado é o Espírito Santo.

O produtor afirma ainda que o impacto será negativo, pois afetará diretamente a receita da empresa e representa apenas um dos diversos efeitos que a medida poderá provocar.

“Não é só o aumento da carga tributária, é a combinação da nova carga tributária com a perda de receita, a incerteza do planejamento financeiro, o Split Payment, a perda de incentivos, etc. Somos um navio contra muitos icebergs – e foi necessário apenas um para naufragar o Titanic”, ironizou.

Críticas
Afonso Takemoto salienta ainda que alguns especialistas em análise tributária apontam que a carga pode superar 70% para a cachaça. Ele acrescenta ainda que a tributação baseada no teor alcoólico pode gerar distorções competitivas entre diferentes bebidas. “Ou seja, é uma tributação que pune o produtor de destilados e premia o produtor de cerveja e vinho. É um modelo conceitualmente falho pois gera essa grave distorção e um modelo burro, por que a progressão da alíquota conforme a graduação alcóolica não faz sentido algum”.

Para exemplificar a crítica ao modelo de tributação, ele afirmou que uma caipirinha contém a mesma quantidade de álcool que uma taça de vinho ou uma lata de cerveja: 14 gramas.

“E você vê pessoas beberem 12 latas de cerveja, mas não vê ninguém consumir 12 caipirinhas num mesmo dia. Então não é um modelo tributário pensado para privilegiar a saúde do consumidor, é uma modelagem que visa apenas o aumento da arrecadação e o favorecimento de certos produtores em detrimento de outros”.

O representante alerta que o aumento da carga tributária tende a elevar os preços das bebidas, repassando o custo ao consumidor. 
Takemoto ainda reforça que o cidadão não poderá comprar o produto que deseja por causa de uma intervenção estatal na forma da carga tributária seletiva.

“Esse fenômeno vai gerar impacto muito negativo para o setor, com perda de vendas e perda de espaço para o produto que prioriza qualidade em detrimento de custo. O mercado interno vai sofrer, pois o produtor da Cachaça de Alambique (a “boa” cachaça) geralmente é um pequeno produtor, que detém pouco poder econômico. O desdobramento esperado é a perda de espaço da boa cachaça, patrimônio essencialmente brasileiro, e fortalecimento de grandes marcas internacionais (leia-se marcas de whisky, tequila, gin e etc) que pertencem a grandes conglomerados internacionais de bebidas e detém recursos para garantir campanhas de marketing e campanhas comerciais que poderão levar ao domínio completo do mercado interno pelo produtor estrangeiro”, argumentou.

“Pesar a carga tributária, além de não resolver o problema da saúde pública, limita a liberdade do consumidor e pune o produtor”

Setor aguarda definições sobre a regulamentação

O Brasil está vivendo uma fase importante na produção de destilados. A cachaça está sendo apresentada ao mercado em sua melhor forma, a produção da Cachaça de Alambique (a “boa” cachaça) tem crescido e o produtor brasileiro encontrou meios para produzir bons gins, boas vodkas, bons runs.

Tributação de bebidas ameaça cachaça artesanal
Produção capixaba realiza exportaçoes para EUA, Italia e estão homologando produtos para o mercado chinês.

Além disso, o uísque brasileiro está quebrando paradigmas, mostrando que o nacional tem condições de ser melhor que o escocês, o irlandês, o americano e o japonês. Por conta disso, os produtores, sobretudo do Espírito Santo, avaliam que a evolução do setor, em relação à competitividade com outro países, não pode esbarrar em questões econômicas impostas pelas autoridades nacionais.

“A modelagem trazida pela reforma é um duro golpe, que vai impactar na queda de investimentos e em obstáculos à inovação”, frisou Afonso Takemoto.

Representante do Sindibebidas, Sérgio Rodrigues está atento às discussões sobre a tributação do setor e, junto ao IBRAC, seguirá trabalhando em defesa dos interesses de seus filiados. A entidade destacou que, neste momento, ainda não é possível fazer uma avaliação definitiva dos impactos da reforma tributária, uma vez que as discussões ainda envolvem especulações.

Sérgio Rodrigues afirmou ainda que a expectativa de que o Imposto Seletivo (IS) passe a vigorar apenas a partir de 2027, em razão do calendário eleitoral.

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