Proposta de tarifaço de 25% dos EUA preocupa indústria do Brasil e do Espírito Santo

A indústria brasileira e capixaba avaliam com forte preocupação os desdobramentos da investigação da Seção 301 conduzida pelo governo de Donald Trump. O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) propôs a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre bens importados do Brasil, como resposta ao que Washington classifica como práticas comerciais injustas.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Federação das Indústrias do Espírito Santo (FINDES) alertam que a medida ameaça a competitividade do setor produtivo e pode desorganizar cadeias globais de valor. A decisão final sobre a aplicação ou não das sobretaxas cabe diretamente ao presidente americano.

De acordo com dados analisados pela CNI, a pressão sobre o comércio bilateral ocorre em um momento de retração: em 2025, as exportações brasileiras da indústria de transformação para os EUA recuaram 4,2% em relação ao ano anterior, somando US$ 30,2 bilhões. Nove dos 15 principais setores registraram queda, com destaque para produtos de metal (-31,6%), madeira (-20%), celulose e papel (-19,9%) e veículos automotores (-17,6%).

“A relação econômica entre Brasil e Estados Unidos é estratégica, sólida e construída ao longo de décadas. A eventual adoção de tarifas adicionais vai prejudicar a indústria brasileira e o mercado norte-americano. O momento exige diálogo e análise técnica”, afirmou o presidente da CNI, Ricardo Alban, destacando a prontidão da entidade para contribuir com as negociações.

No cenário capixaba, os riscos são ainda mais profundos, dado que os EUA são historicamente o principal parceiro comercial do estado. No primeiro quadrimestre de 2026, o Espírito Santo exportou US$ 752,82 milhões para o mercado americano — o equivalente a 24,32% de todas as vendas externas capixabas, segundo dados da Comex Stat.

O presidente da FINDES, Paulo Baraona, ressaltou que a federação acompanha os desdobramentos desde os primeiros anúncios de medidas tarifárias feitos por Washington no ano passado. “Seguiremos mobilizando nossa estrutura técnica e institucional para apoiar as empresas na avaliação desse cenário e na construção de alternativas que preservem a competitividade, os investimentos e os empregos gerados pelo setor produtivo capixaba”, declarou Baraona, apontando para a necessidade de diversificação de mercados e atração de investimentos.

O “tarifaço” e a geopolítica de Washington

Segundo informações da Folha de S.Paulo, a conclusão preliminar da investigação da Seção 301 ocorre em meio a um ambiente de forte pressão política do governo republicano sobre a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, intensificada recentemente após os EUA designarem as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas.

A investigação foi aberta originalmente em julho de 2025 pelo governo Trump, motivada pelo que o presidente americano classificou como “caça às bruxas” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. O escopo da apuração do USTR é amplo e atinge desde queixas sobre a morosidade do Brasil na análise de patentes farmacêuticas e falhas na proteção de propriedade intelectual, até o Pix — sob a alegação de empresas americanas de cartão de crédito de que o Banco Central concede tratamento preferencial ao sistema instantâneo brasileiro. O governo federal nega as acusações.

O USTR, comandado pelo embaixador Jamieson Greer, também aponta restrições a Big Techs americanas por decisões do Judiciário brasileiro (como remoção de conteúdos e suspensão de perfis) e concessões de tarifas mais baixas para produtos do México e da Índia sem a devida reciprocidade a Washington.

Blindagem a setores estratégicos e à Embraer

Apesar do tom rígido, a proposta do USTR desenhou uma ampla lista de exceções para proteger a própria economia americana de choques inflacionários e problemas de desabastecimento. Conforme apurado pela Folhapress, ficaram de fora do imposto de 25% diversos produtos agropecuários e alimentícios, como carne bovina, café e frutas tropicais (manga, melão, castanhas e laranja).

A indústria aeronáutica brasileira também foi poupada. A lista de isenções preserva aeronaves civis, motores, peças, componentes e simuladores de voo, blindando o fluxo comercial altamente integrado de empresas como a Embraer com o mercado americano.

Paralelamente a esse processo, o Brasil enfrenta outra apuração acelerada do USTR iniciada este ano, que investiga se produtos fabricados com trabalho forçado entram nos EUA, uma ação que analistas apontam ter como alvo indireto o comércio de parceiros comerciais com a China.

Calendário de negociações

Embora o anúncio do USTR tenha antecipado o fim das discussões de um grupo de trabalho bilateral que venceria na próxima segunda-feira (7), o canal de diálogo permanece aberto. Em nota oficial, Greer afirmou manter “negociações intensas com o Brasil em busca de uma solução”.

O cronograma para que o setor privado e o governo brasileiro tentem reverter ou mitigar as sanções antes do relatório final — previsto para 15 de julho de 2026 — prevê prazos rígidos:

  • 22 de junho de 2026: Prazo limite para inscrição e envio de resumos de depoimentos para a audiência pública.
  • 1º de julho de 2026: Data final para o envio de comentários formais por escrito ao USTR.
  • 6 de julho de 2026: Realização da audiência pública em Washington para debater as medidas propostas.

Tanto a CNI quanto a FINDES informaram que atuarão junto às autoridades governamentais e aos canais técnicos abertos pelo USTR para apresentar defesas institucionais que preservem a corrente de comércio entre os dois países.

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