Entre doces e cuidados: a rotina de uma empreendedora que transformou a confeitaria em sustento

Nas mãos da empreendedora, um bolo de chocolate meio amargo com doce de leite, tudo preparado por ela. Antes de chegar à mesa, uma pausa para dar atenção ao pequeno, que tem nas mãos a nova figurinha da Copa. O que antes era uma loja física de confeitaria tornou-se a cozinha industrial onde são produzidas as encomendas de Maria Emanoela de Sousa Almeida, de 43 anos. Ela equilibra as tarefas domésticas, o cuidado com o neto e os pedidos dos clientes. Nesse espaço, entre panelas e encomendas, ela transformou a confeitaria em parte da renda da família e encontrou no empreendedorismo uma forma de oferecer aquilo que mais ama fazer.

O começo entre improvisos e afeto

O que hoje é profissão, teve início com o desejo de não deixar o aniversário dos filhos passar em branco. Mãe de três, “Manu” como é conhecida, teve um início difícil, os primeiros bolos eram feitos com materiais doados por familiares.

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Emanoela começou a fazer bolos e mesa de buffet para o aniversário dos filhos.

“Comecei fazendo bolo de aniversário para os meus filhos e, nesse processo, me apaixonei pela cozinha e pela confeitaria. Minha primeira filha nasceu quando eu tinha 15 anos, e eu fazia questão de preparar as festas dela. Como não tinha condições, pedia os ingredientes para a família: açúcar para um, trigo para outro, ovos para outro, margarina para mais um. O primeiro bolo que fiz foi quando eu tinha 16 anos, para o aniversário de 1 ano dela. Eu fazia bolo sem recheio, colocava um bolo sobre o outro apenas com goiabada e assim montava a festa deles. Na época, o glacê era feito com gordura vegetal, açúcar e leite condensado, era desse jeito que eu fazia. Foi assim que peguei amor pela cozinha e me apaixonei pela confeitaria”.

Foi assim que Emanoela entendeu que, a paixão pela cozinha poderia virar renda.
“Desde os bolos que eu fazia para os meus filhos quando eram crianças, pedindo ingredientes aos parentes, eu já começava a receber encomendas. Sempre fazia para os vizinhos também e fui me aprimorando, fazendo cursos. Ela me pediu para fazer e isso me fez entender que poderia ser meu negócio. Só não imaginava que poderia ter uma loja só de doces, a confeitaria. Fiz um coffee break na igreja da minha filha, uma surpresa para os pastores. Eles amaram, elogiaram, e eu pensei: “é isso!”

Da informalidade ao reconhecimento do empreendedorismo feminino

Manu está entre as mulheres que ajudam a impulsionar o empreendedorismo feminino no Espírito Santo. Atualmente, 33,3% dos empreendimentos no estado são liderados por mulheres, o equivalente a uma em cada três pessoas à frente de um negócio. O dado é do Sebrae.

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Mulheres são maioria na população capixaba, mas ainda são minoria entre empreendedores, aponta Sebrae.

De acordo com a Gestora Estadual do Programa Plural do Sebrae do Espírito Santo,  Juliana Castro, as mulheres representam 52% da população capixaba, ou seja, mais da metade dos moradores do estado. Quando o recorte é o empreendedorismo, elas lideram 33,3% dos negócios.

“Ao aprofundar o perfil predominante dessas empreendedoras, os dados apontam que 52,8% têm entre 30 e 49 anos, 53,3% são chefes de domicílio e 54% são mulheres negras”, frisou.

De bolo em bolo, a cada docinho e pedido, Emanoela conquistou, em 2025, uma confeitaria física. Já em 2026, Manu decidiu fechar a loja, que hoje se tornou a cozinha industrial de sua produção. “Tive minha loja, foi uma experiência linda e maravilhosa. Conheci pessoas novas, clientes novos e ouvi muitas histórias durante os cinco meses em que estive com a loja aberta. O fechamento aconteceu porque todo início é muito difícil e eu não consegui encontrar esse equilíbrio.”

O cuidado com o neto, o pequeno Levi Almeida, de 5 anos, que está na pré escola foi um dos motivos do fechamento da loja física. “Sou eu quem cria meu neto e quem me ajudava eram minhas filhas, mas elas também têm os filhos delas para dar conta, escola, comida, e ainda tínhamos um recém-nascido precisando de atenção. Ficava muito difícil a gente unir tudo e dar conta dessa rotina. Então, pensando para as crianças não sofrerem, terem a alimentação certinha e serem cuidadas direitinho, em consenso decidimos fechar.”

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Manu começou o trabalho na cozinha para não deixar passar a comemoração do aniversario dos filhos. Hoje, ela compõe a mesa de outras pessoas.

A Gestora Estadual do Programa Plural do Sebrae- ES, aponta uma realidade comum entre as mulheres empreendedoras.

“As mulheres acabam assumindo sozinhas os cuidados com os filhos, com a casa, com os netos e até com os mais velhos, seja mãe, avó ou uma pessoa idosa da família. Pesquisas do Sebrae também mostram que as empreendedoras se dedicam seis horas a menos por semana aos seus negócios. São as chamadas tarefas invisíveis, que, na maioria das vezes, os homens não têm. Quando olhamos para o outro lado, a competitividade não é igual, porque o homem, em muitos casos, não enfrenta essa tripla jornada. Os homens do século XXI têm compartilhado e dividido cada vez mais essas tarefas com as mulheres, mas a responsabilidade pelos cuidados da casa, da família e dos filhos ainda foi socialmente construída, na nossa sociedade, como uma responsabilidade feminina. Essa sobrecarga pode, sim, impactar o crescimento e a sustentabilidade do negócio, considerando esse tempo menor para se dedicar”, destacou.

Juliana Castro cita ainda que outro dado que merece destaque é que, mesmo sendo empreendedoras e tendo menos tempo disponível, as mulheres são as que mais estudam. “Elas são mais escolarizadas do que os homens. Independente dessa sobrecarga, elas continuam empreendendo, buscando conhecimento no Sebrae, nos balcões de atendimento, nas redes sociais e no site. Recebemos mais mulheres do que homens.”

Confirmando a fala da gestora, Emanoela menciona que já procurou cursos para aperfeiçoar aquilo que começou a fazer de forma intuitiva.

“Já busquei também capacitação em cursos de hotelaria e em formações com confeitarias que são referências  no estado.” 

A rotina invisível entre produção, cuidado e sobrecarga

Cheio de energia e curiosidades naturais da idade, Levi está sempre ao lado da avó, perguntando, comentando, contando histórias. Atualmente, as conversas de Levi com a avó são sobre as figurinhas da Copa. A atenção que a criança demanda, influência na rotina da cozinha e entrega de encomendas. “Estar com ele presente na rotina e até na cozinha influencia, sim, na vida profissional e na produção. Antes de começar qualquer encomenda, preciso fazer toda uma logística em relação a ele: organizar para a mãe ficar, contar com a ajuda do meu filho, que é o tio dele que me ajuda muito, ou aproveitar o horário em que ele está na escola. Tem também a vizinha, que o leva para brincar com a filhinha dela, eles têm apenas uma semana de diferença e são muito juntinhos”, lembrou.

Em dias de grande encomenda, a rotina é mais complicada.”Muitas vezes, preciso chegar tarde por causa das entregas. Dependendo do evento e da quantidade de pessoas, a produção pode levar cerca de uma semana, e o dia da entrega é sempre mais tenso, porque há itens que precisam ser feitos na hora. Preciso conciliar horários, conto com a ajuda do meu esposo e, mesmo com a correria, a gente consegue dar conta — até hoje, só recebemos elogios dos clientes”, lembrou com um sorriso. 

Entre doces e cuidados: a rotina de uma empreendedora que transformou a confeitaria em sustento
Em um momento de pausa, a confeiteira evidencia que já é microempreendedor individual e que ainda tem o desejo de reabrir a loja física ainda está nos planos. Foto: Esthefany Mesquita.

Uma das clientes, Andrea Mariano, conta que ter Emanoela como responsável pelo cardápio do evento é motivo de alegria e gratidão. “A Manu é uma pessoa maravilhosa. Ela nos orienta em relação a quantidade, a horários, ao que fica bom no evento. Eu sei da rotina dela com o neto, e mesmo assim ela entrega um buffet maravilhoso”, cita.

A confeiteira ressalta que a maior dificuldade de empreender dentro de casa é a questão do espaço e da logística do dia a dia. Conciliar a rotina de empreendedora com os papéis de mãe, avó e esposa é, sem dúvida, o maior desafio.

No meio dessa rotina, da produção de bolos e doces, Manu tem um ponto de paz. “Preciso parar quando ele está comigo. Paro inúmeras vezes para dar banho, atenção, alimentar, levar à escola, deixar com a mãe ou o tio, organizar mochila, são muitas interrupções ao longo do dia para poder dar atenção a ele. Mas por outro lado, ver o sorriso dele em um dia corrido, de tensão, nervosismo e preocupação para que chegue o momento da entrega, é um momento de paz, um ponto de paz. Ao mesmo tempo, a gente pensa que queria cuidar mais, dar mais atenção, mas entende que o crescimento de um negócio na família é o futuro dele. Quem me faz batalhar é ele. Já tenho minha vida tranquila; se fosse por mim, hoje estaria viajando com meu marido, por ele, abri mão disso.”

Em meio a rotina corrida de quem empreende em casa, marcada por diversos desafios constantes, Emanoela desabafou. “Eu já pensei em desistir, para falar a verdade, a gente pensa nisso quase todo dia. É muito difícil. Estamos mexendo com sonhos de pessoas, e cada encomenda que chega traz medo e uma emoção diferente, fazendo a gente se perguntar se vai dar conta. As dificuldades de mão de obra e o aumento dos preços todos os dias dão a sensação de que talvez não vamos conseguir sobreviver. Mas quando pensamos nos nossos sonhos e olhamos para os filhos e os netos, isso é o que faz a gente querer continuar”, disparou.

Entre doces e cuidados: a rotina de uma empreendedora que transformou a confeitaria em sustento
Na bancada, utensílios de confeitaria dividem espaço com a rotina familiar. Entre uma encomenda e outra, Emanoela Almeida faz uma pausa para dar atenção ao neto Levi. Entre doces, cuidados e tarefas domésticas, ela transformou o amor pela confeitaria em renda — numa rotina invisível onde afeto e trabalho se misturam sem pausa. Foto: Esthefany Mesquita.

Empreender em casa gera um desgaste físico e mental. Entre a rotina com a casa, o neto e a igreja, há ainda o desafio de organizar e cumprir as entregas do empreendimento. Para isso, é necessário montar o cardápio e compreender cada ingrediente.

Pensando nisso, Juliana Castro explica que existem maneiras do da empreendedora conseguir se planejar e receber o lucro correto. “Os itens são desafios quando se monta um negócio, essa é a realidade do empreendedor brasileiro. Como dividir despesas pessoais com as despesas da empresa? O Sebrae orienta a fazer a composição do cardápio, ficha técnica, definir o que é insumo e o que é material, para depois precificar venda e lucro.”

Juliana menciona ainda que, quando a empreendedora não faz esse levantamento, ela acaba trabalhando e, no final, fica “elas por elas”.

“O tempo que ela dedica à produção, a hora técnica dela, não é levado em consideração nessa conta, e essa conta precisa fechar. Então, o desafio é conciliar as atividades domésticas com as atividades de trabalho no mesmo ambiente e, de fato, separar as despesas e incluir a precificação do próprio trabalho”, alega. 

Em uma produção que pode levar até 16 horas, Manu conta que atualmente consegue produzir bem. “Hoje eu produzo razoavelmente bem. Tem semanas em que a produção é bem corrida e outras em que é mais tranquila. Às vezes, passo o final de semana dentro da cozinha, que antes era loja e muitas vezes na cozinha da minha casa. Algumas vezes esse horário é de Fico de 4h às 19h.”

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Morango do amor também já foi produzido na cozinha de casa.


Juliana Castro reforça ainda que é totalmente possível crescer e manter um negócio lucrativo sem uma loja física, atuando apenas com encomendas, indicações e redes sociais, dependendo do tipo de negócio e do perfil do cliente. Ela completa que não necessariamente é preciso ter um espaço físico, e muitos empreendedores trabalham dessa forma para reduzir custos e aumentar os lucros.

“Plataformas como Instagram, WhatsApp e TikTok permitem divulgação e relacionamento com o cliente. Entre as vantagens estão o menor investimento inicial, a redução de despesas com infraestrutura, o alcance de mais clientes e a possibilidade de atendimento personalizado, além de maior flexibilidade de horário. Para ser sustentável e lucrativo, no entanto, é preciso considerar alguns pontos importantes, como presença ativa nas redes sociais, investimento em fotos e divulgação, bom atendimento com entrega no prazo, incentivo às indicações de clientes e organização do controle financeiro. Muitos negócios do ramo de alimentação, por exemplo, começam justamente por meio de encomendas e divulgação digital”, salientou.

As redes sociais, ainda não são o foco principal de divulgação da Manu, os clientes chegam pela propaganda “boca a boca”. “Os clientes chegam mais por indicação e, como não sou boa com redes sociais, e por conta das crianças, minha filha também não consegue ajudar muito nessa parte”, comentou. 

Na rotina da confeitaria e dos eventos, o resultado final que chega ao cliente é apenas a parte mais visível de um processo longo e intenso. “Por trás de um buffet, de uma mesa pronta, as pessoas não veem o trabalho e a dedicação. Não enxergam o quanto é preciso renunciar para entregar essa colaboração do sonho do cliente. O cliente vê apenas o que está bonito na mesa, tudo pronto, mas não vê tudo o que é feito antes da entrega. Caso aconteça um imprevisto, dificilmente o cliente vai compreender, porque, mesmo com a mesa já montada, há muitas etapas envolvidas: supermercado, escolha de produtos, planejamento, dias de produção até chegar ao resultado final. Além disso, há o nervosismo, crises de ansiedade e a preocupação com como tudo vai acontecer e chegar ao cliente, essa parte ele não vê. O cliente só vê a parte final, já montada”, revelou. 

O sonho que permanece e o futuro do negócio

Em um momento de pausa, a confeiteira evidencia que já é microempreendedor individual e que ainda tem o desejo de reabrir a loja física ainda está nos planos. 

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Hoje Emanoela atende eventos com buffet completo.

“Tenho MEI desde que comecei a fazer doces em casa.Meu sonho é reabrir a loja, crescer e ser reconhecida. Tenho esse sonho, mas preciso esperar as crianças crescerem mais, ficarem menos dependentes e construir um novo formato de trabalho e de rotina. Também quero fazer uma faculdade de gastronomia, algo que sempre foi meu sonho. Porém, sempre coloquei meus filhos em primeiro lugar, por isso ainda não realizei esse objetivo. Mas ainda vou fazer gastronomia, reabrir minha loja e ser reconhecida.”

No processo de crescimento dos pequenos negócios, é comum que muitos empreendedores comecem na informalidade. A gestora estadual do Programa Plural do Sebrae-ES ressalta que a formalização costuma ocorrer quando o negócio se consolida e passa a ter maior rentabilidade e lucratividade. 

“O MEI é importante porque traz alguns benefícios. Ele permite a emissão de nota fiscal, o acesso a crédito e a cobertura pelo INSS, com direitos trabalhistas e previdenciários. Também há questões como aposentadoria, auxílio-doença, salário-maternidade e a possibilidade de contratar funcionário. Existem vantagens, mas também obrigações. Se a pessoa que se torna microempreendedora individual não cumpre esses deveres, o CPF fica vinculado a essas pendências e a dívida pode crescer. O Sebrae tem informações detalhadas sobre isso e pode ajudar o empreendedor”, finalizou.

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