A inflação oficial do Brasil, medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), desacelerou a 0,58% em maio, após marcar 0,67% em abril, disse nesta sexta-feira (12) o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Apesar da trégua em relação ao mês anterior, a taxa de 0,58% é a maior para maio em cinco anos, desde 2021 (0,83%). Houve pressão da carestia de parte dos alimentos e da energia elétrica.
A variação de 0,58% também ficou acima da mediana das previsões do mercado financeiro, que era de 0,53%, conforme a agência Bloomberg.
Com os novos dados, o IPCA acelerou a 4,72% no acumulado de 12 meses até maio, depois de marcar 4,39% até abril, apontou o IBGE.
Assim, o índice ultrapassou o teto de 4,5% da meta de inflação perseguida pelo BC (Banco Central). Isso não ocorria desde outubro do ano passado.
A meta é base para a condução da política de juros do BC. A instituição passou a cortar a taxa Selic em março, mas as recentes pressões sobre a inflação e a piora das expectativas acenderam alerta.
O Copom (Comitê de Política Monetária), ligado ao BC, volta a se reunir na próxima semana para definir o patamar da Selic, que está em 14,5% ao ano. A decisão sai na quarta (17).
Analistas esperam um novo corte de 0,25 ponto percentual na Selic, mas não descartam a hipótese de o BC interromper o ciclo de redução já na próxima semana.
“Nossa avaliação é de que o Banco Central deve seguir com mais um corte de 0,25 ponto, mas consideramos plausível que a autoridade monetária avalie uma pausa imediata, dado o quadro bastante complicado da inflação”, disse o economista Carlos Lopes, do banco BV, após a divulgação do IPCA.
A instituição financeira Asa também espera redução de 0,25 p.p. na reunião da semana que vem e manutenção da Selic em 14,25% até o fim do ano. Para Leonardo Costa, economista da casa, o cenário inflacionário segue preocupante para o BC.
ALIMENTOS PRESSIONAM IPCA
Entre os nove grupos de bens e serviços do IPCA, o destaque do lado das altas mais uma vez veio de alimentação e bebidas. O segmento teve a maior variação em maio: 1,33%.
O resultado gerou um impacto de 0,29 ponto percentual no índice. Isso significa que os alimentos responderam por metade do IPCA mensal.
Dentro do grupo, a alimentação no domicílio registrou alta de 1,65%. É a maior taxa para meses de maio em 18 anos, desde 2008 (2,27%).
Houve efeito dos aumentos de produtos como batata-inglesa (44,69%), tomate (20,62%), cebola (16,8%) e carnes (1,39%).
“O aumento nestes itens se deve a questões de menor oferta e também há influência do valor do frete por conta da alta dos combustíveis”, disse o gerente do IPCA, Fernando Gonçalves.
Parte da fala do pesquisador é uma referência aos impactos da guerra no Irã. O conflito pressionou as cotações do petróleo e os preços dos fertilizantes.
Um dos reflexos iniciais no Brasil foi a alta dos combustíveis, incluindo o óleo diesel, que afeta o transporte nas rodovias.
O diesel até caiu de preço em maio (-2,34%), mas a redução não compensou totalmente os avanços após o início da guerra. O combustível subiu 13,9% em março e 4,46% em abril.
Um movimento semelhante aconteceu com a gasolina, que caiu em maio (-1,46%). O produto, contudo, vem de altas de 4,59% em março e de 1,86% em abril.
A gasolina é o principal subitem pesquisado no IPCA. Assim, gerou a maior contribuição (-0,08 p.p.) para impedir um avanço mais intenso do índice em maio.
O governo Lula (PT) adotou medidas de subvenção a combustíveis como o diesel em uma tentativa de mitigar os efeitos da guerra. A carestia preocupa o presidente no ano eleitoral.
Segundo Gonçalves, as ações do governo podem ter contribuído para a redução dos preços em maio. O técnico do IBGE também avaliou que a queda do etanol (-6,2%) pode ter ajudado a baixar o custo da gasolina.
Além dos alimentos, outra pressão sobre o IPCA de maio veio da energia elétrica, que registrou inflação de 3,67%.
Com isso, a conta de luz gerou um impacto de +0,15 p.p. no índice geral. Foi a principal contribuição individual do lado das altas.
Conforme o IBGE, a energia ficou mais cara com os reajustes em algumas áreas pesquisadas e a vigência em maio da bandeira tarifária amarela, que gera acréscimo na conta.
EL NIÑO É AMEAÇA
O horizonte do segundo semestre tem o desafio adicional do fenômeno climático El Niño, que altera a distribuição de chuvas.
Previsões indicam risco de um evento com forte intensidade. A situação pode atrapalhar a produção agropecuária, com eventuais repasses para os preços dos alimentos até o final do ano.
Como mostrou a Folha de S.Paulo, economistas revisaram para cima as suas estimativas para a inflação da alimentação no domicílio em 2026. Eles passaram a projetar alta de 7% ou mais para o acumulado desse componente.
Na mediana, as expectativas do mercado financeiro apontam IPCA de 5,11% nos 12 meses até dezembro, conforme a edição mais recente do boletim Focus, publicada pelo BC na segunda (8). A estimativa está em alta há 13 semanas consecutivas.
A meta de inflação perseguida pelo BC tem centro de 3% e intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Isso significa teto de 4,5% e piso de 3% para o acumulado de 12 meses.
A meta é considerada descumprida quando o IPCA permanece por seis meses seguidos de divulgação fora do intervalo de tolerância no acumulado.
IPCA DE MAIO NOS ÚLTIMOS 5 ANOS
Em %
2021 – 0,83
2022 – 0,47
2023 – 0,23
2024 – 0,46
2025 – 0,26
2026 – 0,58
Fonte: IBGE.
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – LEONARDO VIECELI









