O setor atacadista passou a responder por 29,1% de todo o ICMS arrecadado no Espírito Santo e colocou governo, empresários e economistas em estado de alerta diante dos impactos previstos pela reforma tributária. O dado foi apresentado nesta terça-feira (19), durante o encontro “Atacado & Distribuição: Transformando o agora e projetando o futuro do Espírito Santo”, promovido pelo Sindicato do Comércio Atacadista e Distribuidor do Espírito Santo (Sincades), no Palácio Anchieta, em Vitória.
A preocupação gira em torno da mudança gradual da cobrança do imposto da origem para o destino das mercadorias, eixo central da reforma tributária aprovada pelo Congresso Nacional. Na prática, estados que concentram grandes operações de distribuição interestadual, como o Espírito Santo, tendem a perder parte relevante da arrecadação ao longo da transição do novo modelo.
Hoje, o setor atacadista gera R$ 6,64 bilhões em ICMS para os cofres estaduais. Em 2022, eram R$ 2,61 bilhões. O crescimento nominal de 151% em apenas três anos foi impulsionado pela renovação dos incentivos fiscais até 2032, aprovada naquele mesmo ano, o que ampliou a segurança jurídica e acelerou a migração de empresas para o estado.
“O comércio atacadista é hoje o maior gerador de ICMS do Espírito Santo. Maior do que a indústria, maior do que o comércio varejista e maior do que o comércio exterior. Hoje, quase um terço de tudo que o Estado arrecada em ICMS passa pelo setor atacadista e distribuidor”, afirma o presidente do Sincades, Idalberto Moro.
O tamanho da dependência capixaba do setor aparece em outros números da pesquisa apresentada durante o evento. O Espírito Santo movimenta atualmente R$ 908,5 bilhões em comércio interestadual, apesar de possuir um PIB de R$ 209,2 bilhões. O estado concentra cerca de 8% de todo o comércio interestadual brasileiro, mesmo representando apenas 2% do PIB nacional.
Do total movimentado pelo setor atacadista em 2024, cerca de R$ 172,9 bilhões foram vendidos para fora do Espírito Santo, enquanto apenas R$ 25,8 bilhões permaneceram no mercado interno. É justamente essa característica que acende o sinal de alerta sobre os efeitos da reforma.
De acordo com o governador Ricardo Ferraço, “o ICMS deixa de compartilhar parte dele com a origem e vai todo para o destino”. Segundo ele, mesmo que as empresas permaneçam instaladas no Espírito Santo, a arrecadação ligada às vendas interestaduais deixará de ser compartilhada com o estado. “O setor público vai ser fortemente atingido com a redução desses instrumentos de arrecadação”, afirma.
Os impactos podem atingir diretamente os municípios capixabas. Em 2025, R$ 1,66 bilhão do ICMS gerado pelo setor atacadista foi destinado às prefeituras. Uma das simulações apresentadas no estudo projeta que, em um cenário de perda de 50% do ICMS ligado ao atacado, os municípios poderiam deixar de arrecadar cerca de R$ 709 milhões, comprometendo aproximadamente 16% da capacidade de investimento das prefeituras.
Segundo o economista Orlando Caliman, responsável pela análise, os primeiros impactos tendem a aparecer justamente nos investimentos públicos. “Quando há queda de arrecadação, normalmente o primeiro impacto aparece nos investimentos. É a escola que deixa de ser construída, obra que deixa de acontecer, posto de saúde que deixa de ser ampliado”, alerta.
Apesar do cenário de preocupação, o discurso predominante entre governo e setor produtivo foi de tentativa de reposicionamento econômico do Espírito Santo. A estratégia defendida passa pelo fortalecimento da infraestrutura logística, expansão portuária, industrialização e aumento da competitividade do estado como plataforma nacional de distribuição.
“Nós estamos passando por um ciclo interessante de geração de valor agregado para a nossa economia. Mas precisamos ter muita atenção às consequências da reforma tributária”, afirma Ricardo Ferraço.
O governador também confirmou que o governo já trabalha em alternativas para enfrentar os impactos da mudança tributária. Entre as possibilidades discutidas estão a criação de grupos técnicos com participação do setor privado e o uso do Fundo Soberano do Espírito Santo como ferramenta de estímulo econômico. “Nós temos caminhos, temos alternativas, temos algum tempo, mas não temos todo o tempo”, pontua.
Espírito Santo virou potência logística nacional

Os números apresentados pelo estudo do Sincades ajudam a explicar por que o Espírito Santo passou a ocupar posição estratégica no setor de distribuição nacional. O estado movimentou, em 2024, cerca de R$ 908,5 bilhões em comércio interestadual, volume mais de quatro vezes superior ao próprio PIB capixaba, estimado em R$ 209,2 bilhões no mesmo período.
A pesquisa aponta que o Espírito Santo concentra aproximadamente 8% de todo o comércio interestadual brasileiro, mesmo representando apenas 2% do PIB nacional. O desempenho é atribuído principalmente à estrutura logística construída ao longo das últimas décadas, baseada em incentivos fiscais, localização estratégica e forte integração com os grandes centros consumidores do país.
Hoje, 64% das vendas interestaduais realizadas a partir do Espírito Santo têm como destino estados do Sudeste. O setor atacadista sozinho movimentou cerca de R$ 198 bilhões em 2024, sendo R$ 172,9 bilhões destinados a outros estados.
Durante o evento, empresários e representantes do governo defenderam que o estado utilize justamente essa expertise logística para enfrentar os impactos da reforma tributária. A aposta passa pela ampliação da infraestrutura portuária, expansão de centros de distribuição, avanço da cabotagem e atração de novos investimentos industriais. “O Espírito Santo se transformou em um grande hub logístico-comercial”, afirma economista Orlando Caliman durante a apresentação do estudo.
Atacado capixaba cresce acima da média nacional
O avanço do setor atacadista no Espírito Santo vem ocorrendo em ritmo muito superior ao registrado no restante do país. Dados apresentados pelo Sincades mostram que, enquanto o ICMS gerado pelo atacado cresceu 6,5% nacionalmente em 2023, no Espírito Santo o avanço chegou a 55%.
O crescimento também aparece na geração de empregos. Em praticamente todos os segmentos analisados, o Espírito Santo registrou expansão acima da média brasileira entre 2019 e 2024. O destaque ficou para equipamentos de uso industrial, com crescimento de 114,4% no estado, além de derivados da indústria química, autopeças, cosméticos e medicamentos.
Atualmente, a Região Metropolitana da Grande Vitória concentra 61% das empresas atacadistas capixabas, somando 2.488 estabelecimentos. O estudo também aponta que o Espírito Santo ocupa o primeiro lugar no país em participação do atacado nos empregos estaduais, além de figurar entre os estados com maior número proporcional de empresas do setor.









