Os planos de saúde coletivos registraram reajuste anual médio de 9,9% nos dois primeiros meses de 2026, segundo dados divulgados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar. Embora represente a menor alta dos últimos cinco anos, o índice ainda supera em mais do que o dobro a inflação oficial do país no período.
De acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação acumulada até fevereiro deste ano ficou em 3,81%.
Para o advogado e especialista em Direito da Saúde Eduardo Amorim, o cenário evidencia um problema recorrente enfrentado por consumidores e empresas que dependem desse tipo de contrato.
“Mesmo com redução em relação aos anos anteriores, o reajuste ainda pesa significativamente no orçamento das famílias e das empresas. Os planos coletivos possuem dinâmica própria de negociação e acabam sofrendo forte impacto dos custos operacionais do setor de saúde suplementar”, afirmou.
Menor reajuste desde a pandemia
Segundo dados da ANS, a última vez em que os planos coletivos registraram reajuste inferior ao atual foi em 2021, quando a alta média ficou em 6,43%. Naquele período, os efeitos da pandemia de covid-19 e a redução temporária da utilização de serviços médicos influenciaram diretamente os índices do setor.
Atualmente, os planos coletivos — contratados por empresas, associações ou empresários individuais — representam a maior parcela do mercado de saúde suplementar no Brasil.
Nos contratos com até 29 beneficiários, o reajuste médio neste início de ano chegou a 13,48%. Já os planos com 30 vidas ou mais tiveram aumento médio de 8,71%.
Segundo a agência reguladora, cerca de 77% dos usuários de planos coletivos estão concentrados nos contratos de maior porte.
Lucro recorde reacende debate sobre reajustes
Apesar das reclamações sobre os aumentos, o setor de saúde suplementar segue em expansão. Dados da ANS apontam que o Brasil alcançou 53 milhões de vínculos em planos de saúde em março de 2026, crescimento de 906 mil contratos em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Em 2025, as operadoras registraram receita total de R$ 391,6 bilhões e lucro líquido acumulado de R$ 24,4 bilhões — o maior já registrado pelo setor.
Para Eduardo Amorim, o crescimento da receita e da lucratividade das operadoras amplia a discussão sobre equilíbrio contratual e transparência nos reajustes aplicados aos consumidores.
“O debate sobre os aumentos precisa considerar não apenas os custos assistenciais, mas também o impacto econômico para consumidores e empresas. A previsibilidade e a transparência são fundamentais para evitar desequilíbrios nas relações contratuais”, destacou.
Diferença entre planos coletivos e individuais
Diferentemente dos planos individuais e familiares, cujo percentual de reajuste é definido pela própria ANS, os contratos coletivos funcionam por meio de negociação entre a operadora e a pessoa jurídica contratante.
Segundo a agência reguladora, os reajustes levam em consideração fatores específicos do setor, como o aumento de custos hospitalares, procedimentos médicos e a frequência de utilização dos serviços pelos beneficiários.
Ainda assim, Eduardo Amorim avalia que o crescimento contínuo dos custos da saúde suplementar levanta preocupações sobre o acesso da população aos serviços privados.
“O setor vive um desafio importante: equilibrar a sustentabilidade financeira das operadoras com a capacidade de pagamento dos consumidores. Reajustes muito elevados podem levar à exclusão de usuários e aumentar ainda mais a pressão sobre o sistema público de saúde”, concluiu.









