Guerra pressiona inflação de alimentos e combustíveis no Brasil

A alta dos preços de alimentos e combustíveis no Brasil foi menor em abril, mas a guerra no Irã seguiu pressionando a inflação desses componentes e representa um desafio para o governo Lula (PT) em ano eleitoral.

É o que dizem analistas a partir dos dados do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) divulgados nesta terça-feira (12) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O IPCA desacelerou a 0,67% em abril, após marcar 0,88% em março, quando houve o choque inicial da guerra.

Apesar da trégua frente ao mês anterior, a taxa de 0,67% é a maior para abril em quatro anos, desde 2022 (1,06%). À época, o Brasil era governado por Jair Bolsonaro (PL), que até tentou conter a inflação antes das eleições daquele ano, mas acabou derrotado por Lula.

“A inflação segue sendo pressionada pelos efeitos da guerra. Estamos em um cenário de guerra há dois meses, sem um sinal muito claro de definição”, afirma o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sergio Vale.

Segundo ele, o aumento das cotações do petróleo após o início do conflito no Irã ainda não foi totalmente repassado para os combustíveis no Brasil.

“Ao longo dos próximos meses, ainda vamos ter repercussão desses impactos nos transportes, e tem os efeitos indiretos na cadeia de alimentação e no resto da cadeia industrial”, diz.

Conforme o IBGE, além da redução sazonal na oferta de alimentos, o aumento dos custos de fretes pode explicar o novo avanço dos preços dos alimentos.

O grupo alimentação e bebidas registrou alta de 1,34% no IPCA de abril, após subir 1,56% em março.

Mesmo com a desaceleração, o segmento mostrou a maior variação dos nove pesquisados pelo IBGE. Também gerou a principal pressão entre os grupos no índice (0,29 ponto percentual).

Houve reflexo da carestia de alimentos como cenoura (26,63%), leite longa vida (13,66%), cebola (11,76%), tomate (6,13%) e carnes (1,59%).

“Vários desses componentes, como cenoura, cebola e tomate, têm questões de oferta por conta da restrição do produto para o consumidor, mas também pode haver uma pressão por conta do frete”, disse o gerente da pesquisa do IPCA, Fernando Gonçalves.

“Boa parte do escoamento da nossa produção é via rodovia. Vai por caminhões abastecidos com diesel”, completou o técnico no IBGE.

Conforme o IPCA, os preços do diesel aumentaram 4,46% em abril, após disparada de 13,9% em março. A alta do terceiro mês de 2026 foi a maior em mais de duas décadas, desde novembro de 2002 (14,63%).

A exemplo do diesel, a gasolina também desacelerou em abril. Avançou 1,86%, após aumento de 4,59% em março.

Apesar da trégua no ritmo de alta, a gasolina gerou a principal pressão em termos individuais no IPCA de abril (0,10 p.p.). Isso se deve ao fato de o combustível ter o maior peso na cesta de bens e serviços pesquisados pelo IBGE.

No acumulado de 12 meses, o IPCA alcançou 4,39% até abril, acima dos 4,14% da leitura anterior.

Sergio Vale, da MB Associados, diz que o índice caminha para fechar o ano perto de 5%, superando o teto de 4,5% da meta de inflação perseguida pelo BC (Banco Central).

Essa não é, segundo ele, uma variação “absurdamente elevada”, mas gera “tensão” para o governo, já que tende a refletir avanços em itens sensíveis para o bolso do consumidor, como alimentos e transportes.

“Se você pegar 2008 ou 2009, o auge da crise financeira, Lula estava muito bem politicamente naquele momento. A popularidade dele estava alta, a despeito de a gente estar passando naquela época por um choque na inflação de alimentos muito maior do que agora”, afirma Vale.

“O que a gente está vivendo hoje, com uma população muito mais endividada e pressionada na comparação com 20 anos atrás, coloca um cenário de um consumidor menos paciente”, acrescenta.

Guerra pressiona inflação de alimentos e combustíveis no Brasil
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Após a divulgação do IPCA de abril, a instituição financeira Asa revisou sua previsão para o índice em 2026. A inflação esperada no acumulado de 12 meses agora é de 5,3%, frente a uma estimativa anterior de 5%.

“A revisão das projeções de inflação reflete a leitura de que o processo desinflacionário observado no começo do ano perdeu tração”, disse Leonardo Costa, economista da instituição.

De acordo com ele, o principal fator por trás da mudança no número é a resistência dos preços de serviços. A isso se soma o impacto do conflito no Oriente Médio, que adicionou incerteza sobre as cotações do petróleo e as cadeias globais de insumos, acrescenta o economista.

“Esse canal contribui para manter a pressão sobre combustíveis e alimentos, com potencial de contaminação para o núcleo via custos de produção.”

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – LEONARDO VIECELI

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