A reforma tributária brasileira começa a sair do papel e inaugura um período de transição que deve mudar, gradualmente, a forma como os impostos são cobrados no país. Considerada uma das principais reestruturações desde a redemocratização, a nova regra prevê a substituição de cinco tributos — ICMS, ISS, IPI, PIS e Cofins — por dois impostos: o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços).
Durante a fase de adaptação, que se estende até 2033, os modelos antigo e novo vão coexistir. Apesar da promessa de simplificação, o impacto será diferente entre os setores da economia, criando um cenário de ganhos para alguns e desafios para outros.
O setor de serviços aparece como o mais pressionado. Hoje, muitas dessas atividades são tributadas com base no ISS, geralmente com alíquotas mais baixas. Com a unificação no chamado IVA Dual, a tendência é de aumento da carga tributária, o que pode gerar um “choque de custos”. Como empresas de serviços têm poucos insumos que geram créditos tributários e concentram seus gastos em mão de obra — que não entra no sistema de créditos —, há risco de repasse ao consumidor ou redução das margens de lucro.
Por outro lado, a indústria de transformação deve ser beneficiada. O novo modelo, baseado no Imposto sobre Valor Adicionado (IVA), elimina a cumulatividade de tributos, permitindo que empresas recuperem créditos ao longo da cadeia produtiva. Isso acaba com o chamado “imposto sobre imposto” e reduz distorções. Além disso, a desoneração das exportações tende a aumentar a competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional.
Mesmo com a implementação gradual, especialistas alertam que os efeitos já exigem atenção em 2026. Segundo o economista João Victor da Silva, o momento é de planejamento estratégico por parte das empresas.
“A reforma tributária altera a lógica do sistema atual. Mesmo antes da substituição completa dos tributos, as empresas precisam entender como o novo modelo vai impactar custos, fornecedores e a apuração de impostos”, explica.
O especialista também chama atenção para um novo risco: o cumprimento das obrigações fiscais por parte dos parceiros comerciais. Caso fornecedores não estejam em conformidade, a empresa compradora pode perder o direito a créditos tributários, o que eleva a importância da gestão fiscal no nível estratégico.
Diante desse cenário, algumas medidas já podem ser adotadas por empresas e contribuintes. Entre elas estão a revisão de contratos comerciais, com inclusão de cláusulas de reequilíbrio; a auditoria de fornecedores para garantir geração de créditos; a reavaliação da formação de preços; o acompanhamento de mudanças no Imposto de Renda, como a ampliação da faixa de isenção para rendimentos de até R$ 5 mil; e o investimento em gestão de dados e organização documental.
A reforma promete simplificar o sistema no longo prazo, mas, até lá, o desafio será atravessar um período de transição que exige adaptação, planejamento e atenção redobrada por parte do setor produtivo.









