O crescimento acelerado do número de barbearias no Espírito Santo tem transformado o segmento em uma das portas de entrada mais acessíveis para o empreendedorismo. Ao mesmo tempo, o avanço impõe desafios relacionados à gestão, à qualificação profissional e ao cumprimento de normas legais.
Dados do sindicato da categoria, o SINTRABEL-ES, indicam que o Estado conta com cerca de 27.802 estabelecimentos ligados ao setor da beleza, sendo a maioria enquadrada como empresário individual.
Na Grande Vitória, a concentração é mais expressiva nos municípios de Vila Velha, com 4.766 estabelecimentos; Serra, com 4.332; Vitória, com 3.287; e Cariacica, com 2.643. Apesar do volume, o número de trabalhadores sindicalizados ainda é reduzido, com cerca de 400 profissionais entre contribuintes e associados.
Segundo a entidade, o setor se destaca pela facilidade de abertura de negócios e pela baixa exigência tecnológica, fatores que atraem novos empreendedores. Por outro lado, o sindicato aponta que muitos profissionais iniciam as atividades sem acompanhamento técnico ou conhecimento sobre obrigações legais, o que pode comprometer a sustentabilidade dos empreendimentos.
“O modelo de contratação por parceria, permitido pela legislação federal, também tem sido adotado por parte dos estabelecimentos, alterando a dinâmica das relações de trabalho no setor”, afirma Leonardo Costa, responsável pelas relações de trabalho e apoio administrativo da entidade.
Gestão profissional e experiência do cliente impulsionam crescimento
Na prática, empresários do segmento relatam que o crescimento exige organização, padronização e investimento constante. À frente da Barbearia Dom Cavatti, com três unidades em Vila Velha e cerca de 18 colaboradores, Felippe Martins afirma que a estruturação de processos foi fundamental para ampliar a operação.

“Uma das principais estratégias foi padronizar processos e criar um método de atendimento. Trabalhamos com horários organizados, agendamento online, metas individuais, acompanhamento de desempenho e treinamentos constantes. Isso evita atrasos, melhora a experiência do cliente e permite atender mais pessoas sem perder qualidade”, afirma.
Segundo ele, a diversificação dos serviços também contribuiu para o aumento do faturamento. “Investimos em serviços complementares, como hidratação, selagem, barboterapia e planos de assinatura. Isso aumenta o ticket médio sem necessariamente ampliar o tempo de permanência do cliente na cadeira”, explica.
O empresário destaca ainda que o diferencial competitivo está na experiência oferecida ao cliente. “Não somos apenas uma barbearia. Trabalhamos para que o cliente entre e sinta que está em um ambiente premium, com conforto, bom atendimento, estética diferenciada e profissionais preparados”, relata.
A qualificação da equipe aparece como outro eixo estratégico. “Estamos fortalecendo o braço educacional da marca para formar profissionais dentro da nossa metodologia. Isso reduz o tempo de adaptação, aumenta a produtividade e mantém o padrão de qualidade”, afirma.
Outro aspecto apontado é a digitalização dos serviços. “Hoje utilizamos sistema de agendamento online, confirmação automática de horários, gestão financeira e acompanhamento de metas. Isso trouxe mais controle e também mais praticidade para o cliente”, diz.
A mudança no perfil do consumidor também é destacada. “O cliente de hoje quer rapidez, praticidade e experiência. Ele quer resolver tudo pelo celular e ainda encontrar um ambiente diferenciado”, acrescenta.
A realidade também é percebida por pequenos empreendedores. O barbeiro e gestor Narbany Junio Possati Sousa, que mantém uma barbearia no bairro Boa Vista, em Vila Velha, afirma que os desafios iniciais estiveram ligados à gestão do negócio.
“No começo, o maior desafio foi aprender a parte da gestão financeira. A gente abre o negócio sabendo cortar cabelo, mas nem sempre sabendo administrar uma empresa”, relata.

Ele destaca que a organização da agenda e a previsibilidade financeira avançaram com a adoção de novos modelos de atendimento. “Hoje, o que mais ajuda a manter a barbearia cheia e organizada é o plano de assinatura. O cliente paga mensalmente e pode usar os serviços durante o mês”, explica.
O atendimento também é apontado como diferencial competitivo. “Criamos um padrão em que o cliente não vem apenas cortar o cabelo, mas ter uma experiência. Esse cuidado faz com que ele volte e ainda indique para outras pessoas”, diz.
A digitalização, segundo ele, também mudou a rotina. “Hoje o cliente consegue agendar pelo celular, ver horários e serviços. Isso facilitou muito tanto para a gente quanto para quem frequenta a barbearia”, afirma.
Já o sindicato reforça que fatores como qualificação técnica, estrutura adequada, uso de tecnologias e especialização em nichos têm impacto direto na produtividade e na competitividade. “Profissionais que investem em formação e inovação tendem a aumentar o valor agregado dos serviços e a fidelizar clientes”, destaca Leonardo Costa.
Por outro lado, a entidade alerta que o crescimento desordenado, com a abertura de estabelecimentos sem o cumprimento de normas legais e sanitárias, pode gerar desequilíbrios no mercado. “O acompanhamento das condições de trabalho ocorre por meio de notificações e solicitações de fiscalização aos órgãos competentes, diante da limitação de acesso direto às empresas”, informa.
O cenário aponta para um setor em expansão, impulsionado pelo empreendedorismo e pela demanda constante por serviços, mas que ainda enfrenta desafios relacionados à profissionalização, à formalização e ao equilíbrio nas relações de trabalho.









