Menos horas, mais estratégia: a logística do ES e a escala 5×2

A possível mudança da escala de trabalho 6×1 para 5×2, com redução da jornada semanal sem corte de salários, pode provocar uma transformação significativa na logística do Espírito Santo — setor estratégico para a economia capixaba e altamente dependente do tempo como fator operacional.

Em centros de distribuição da Grande Vitória, onde cada hora extra historicamente significou mais pedidos separados e caminhões carregados, a lógica tende a mudar. Com menos tempo disponível, o foco deixa de ser a quantidade de horas trabalhadas e passa a ser a eficiência dos processos.

Segundo o coordenador da Câmara Temática de Gestão de Materiais e Logística do CRA-ES, Denilton Macário de Paula, o modelo baseado em esforço físico prolongado e horas extras está com os dias contados. “A logística baseada em ‘músculo’ e horas extras está chegando ao fim. O momento exige a aplicação rigorosa do Lean Logistics, com foco na eliminação de desperdícios e na otimização do fluxo”, afirma.

Na prática, a mudança exige um olhar mais técnico sobre o desempenho das equipes. O conceito de eficiência por hora trabalhada ganha protagonismo, com a necessidade de garantir que o tempo do colaborador seja utilizado em atividades de maior valor agregado. Isso impacta diretamente operações como separação de pedidos e distribuição de cargas, que precisarão ser mais ágeis e precisas para manter o volume de entregas.

Um dos principais desafios está na manutenção dos prazos de entrega, especialmente em setores como e-commerce e medicamentos, onde o cumprimento de prazos é determinante. A redução de dias trabalhados pode criar gargalos, principalmente aos fins de semana. Para evitar prejuízos no nível de serviço, será necessário investir em planejamento mais sofisticado, com uso intensivo de dados para gestão de estoques e definição de rotas.

Esse cenário também deve acelerar investimentos em tecnologia. Com o aumento do custo da hora trabalhada, soluções como automação de processos, sistemas de previsão de demanda e uso de inteligência artificial tendem a deixar de ser diferenciais e passar a ser essenciais para a competitividade.

Para Denilton, a mudança representa uma virada de chave na forma de operar. “Antes, a solução era aumentar o tempo de trabalho. Agora, a resposta está na tecnologia e na gestão. A logística se torna o cérebro da estratégia empresarial”, pontua.

No Espírito Santo, que possui um hub logístico capaz de alcançar cerca de 60% do PIB nacional em um raio competitivo, a adaptação a esse novo modelo pode definir o ritmo de crescimento do setor. Mais do que uma redução de jornada, a transição para a escala 5×2 impõe uma mudança de mentalidade: o resultado não depende do tempo disponível, mas da qualidade da gestão.

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas