O Espírito Santo acompanha com atenção os desdobramentos do chamado tarifaço do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que impôs taxas de até 50% sobre produtos estratégicos como café, celulose e pescados, justamente alguns dos principais itens da pauta de exportação capixaba.
No ano passado, o estado exportou mais de US$ 800 milhões em produtos agro e florestais para os EUA. Apenas entre janeiro e maio deste ano, as exportações já somaram US$ 253 milhões, segundo dados da Secretaria de Agricultura do Espírito Santo (Seag). Atualmente, cerca de 20% do total exportado pelo estado tem como destino o mercado americano, com destaque para a celulose, que responde por quase metade do volume, e para o café solúvel, em que 40% da produção exportada vai para os Estados Unidos.
Outro dado relevante é a exportação de pescados, setor no qual mais de 90% do volume exportado pelo Espírito Santo tem os EUA como destino. O gengibre também vem ganhando espaço: se em 2023 33% da produção capixaba era enviada ao mercado norte-americano, este ano o índice já subiu para 61%.
O tema foi abordado pelo ex-governador Paulo Hartung durante o lançamento do livro “Política em tempos de grandes mudanças”, ocorrido em Vitória na noite desta terça-feira (19). Hartung dedicou parte de sua fala à análise do tarifaço, ressaltando que as medidas vão contra princípios construídos no pós-Segunda Guerra Mundial.
“As tarifas do presidente Trump estão indo na contramão de tudo o que nós humanos construímos depois da guerra. Isso não é bom para o planeta, não é bom para o Brasil e, a médio prazo, não é bom nem para os americanos”, afirmou.
Hartung explicou que, embora a arrecadação norte-americana com tarifas já ultrapasse US$ 150 bilhões, podendo chegar a mais de US$ 300 bilhões, o ganho é apenas de curto prazo. “Essas tarifas vão encarecer os produtos nas prateleiras dos supermercados americanos, gerando inflação. E inflação, dependendo da fase em que o governo Trump estiver, pode desorganizar sua relação com a opinião pública”, analisou.
Para o ex-governador, o cenário exige que o Brasil assuma papel de liderança internacional em defesa do comércio multilateral. “Em algum momento, nós vamos ter que liderar o mundo de volta ao livre comércio, a uma relação multilateral permanente, enfrentando inclusive o desafio climático, que é o grande problema do nosso tempo”, destacou.
Hartung afirmou ainda que a atual fase é marcada por pressões e incertezas, mas que o debate deve se aprofundar. “O tarifaço pode gerar ganhos políticos de curto prazo para os EUA, mas no médio prazo desorganiza o comércio internacional e ameaça o equilíbrio econômico. Esse é um tema que trato no livro e que precisa estar no centro das nossas reflexões”, concluiu.










