Como identificar que uma criança cruel pode virar um adulto psicopata

Recentemente, um caso chocou não só o Espírito Santo, mas também todo o Brasil. Uma menina, de apenas 11 anos, juntamente com o namorado, de 14 anos, arquitetou o assassinato a facadas da própria mãe. A tragédia, ocorrida no último dia 27 de outubro, fez ascender diversos questionamentos. Afinal, o que leva uma criança a tramar a morte da própria mãe? Crianças podem ser psicopatas?

De acordo com a psiquiatra infantil, Licia Colodete, é importante ressaltar que a psicopatia não é uma nomenclatura adotada pelos manuais diagnósticos psiquiátricos atuais e, originalmente, o termo era usado de maneira genérica para definir doenças mentais. No entanto, com o passar do tempo, a palavra passou a ser utilizada para descrever atitudes moralmente inaceitáveis.

“Por isto, inclusive, a associação equivocada entre loucura e violência”, destacou.

Segundo ela, crianças não podem ser consideradas psicopatas, mas podem apresentar um padrão de comportamento em que se observa a falta de empatia com o próximo, por vezes, com violação dos direitos básicos do outro. “Quando isto ocorre, é necessário investigar um possível transtorno de conduta. Há uma miríade de critérios a serem observados para se fechar este diagnóstico”, explicou.

É o que também acredita a médica psiquiatra, Janine Moscon. Ela contou, que apesar do diagnóstico de Transtorno de Personalidade Antissocial, popularmente conhecido como psicopatia ou sociopatia, só poder ser dado para indivíduos acima dos 18 anos, crianças podem dar sinais de que sua personalidade caminham para essa direção.

Segundo Moscon, é preciso estar atento a criança ou adolescente que comete atos antissociais e agressivos graves de forma recorrente por ao menos seis meses. “Quanto mais cedo essas distorções do comportamento acontecem (antes dos 10 anos de idade), maior a chance delas evoluírem, sendo mais comum em meninos”, ressaltou.

É importante destacar que as crianças podem ser acometidas por inúmeros transtornos psiquiátricos. Os mais comuns são os transtornos depressivos, ansiosos, transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), transtornos por uso de substâncias (TUS) e transtornos de conduta (TC).

Segundo as especialistas, maus  tratos, bullying, condições sócio-econômicas precárias e abusos, podem ser fatores de risco para o desenvolvimento dos transtornos de conduta. “Porém, destaca-se de forma importante a predisposição para tal conduta relacionadas a personalidade e caráter”, completou Moscon.

Fatores secundários x genética 

Quando uma criança é identificada como portadora do Transtorno de Conduta, uma abordagem multidisciplinar deve ser instituída, levando em consideração que a personalidade da criança ainda não está formada.

Segundo Moscon, os resultados do tratamento são variáveis e, se o transtorno for secundário a algum fator externo como abuso, os resultados podem ser melhores, finalizando o gatilho e tratando suas consequências. “O fato de ter uma forte característica genética, muitas vezes torna imprevisível o resultado”, pontuou.

Ou seja, o transtorno de conduta pode ser secundário a um trauma como abuso, no entanto, ele também pode ser decorrente de características herdadas de personalidade agressiva, sem empatia, sem preocupação com os sentimentos e bem estar do outro e até falta de caráter.

Principais sintomas que indicam o TC

Como identificar que uma criança cruel pode virar um adulto psicopata

Os principais sintomas indicativos desse transtorno psicológico são:

  • Falta de empatia e preocupação com os outros;
  • Rebeldia e comportamento desafiador;
  • Manipulação e mentiras frequentes;
  • Frequente culpabilização das outras pessoas;
  • Pouca tolerância à frustração, apresentando frequentemente crises de irritabilidade;
  • Agressividade;
  • Comportamento ameaçador, podendo iniciar brigas, por exemplo;
  • Fuga de casa frequente;
  • Furtos e/ ou roubos;
  • Destruição de bens e vandalismo;
  • Atitudes de cruéis com animais ou pessoas.

Como é feito o tratamento?

Como identificar que uma criança cruel pode virar um adulto psicopata
Foto: Reprodução/Canva.

O tratamento é totalmente baseado no comportamento da criança ou adolescente e, por meio da terapia, o psicólogo ou psiquiatra avalia os comportamentos, tenta identificar a causa e entender a motivação. Em alguns casos, o uso de alguns medicamentos como  antidepressivos, antipsicóticos e estabilizadores do humor podem ser usados.

Em casos mais graves, quando o indivíduo apresenta risco para outras pessoas, é indicado que ele seja encaminhado para um centro de tratamento.

Existem crianças perversas?

De acordo com a psiquiatra infantil, Colodete, a perversão também não é uma nomenclatura utilizada nos atuais manuais diagnósticos psiquiátricos. O conceito foi proposto pela psicanálise, que ainda o adota como uma estrutura clínica, passível de compreensão, mas de difícil tratamento.

“Atitudes perversas são comuns em crianças e mesmo em adultos, sem que signifiquem necessariamente uma violação grave contra o direito alheio. As crianças e adolescentes nos desafiam o tempo inteiro, seus métodos nem sempre são éticos, morais. Lidamos com isto e tentamos conduzi-los a um caminho do bem comum”, explicou.

Entretanto, há quem desenvolva um padrão de comportamento desprovido de empatia, de remorso, de preocupação com o outro, com desenvolvimento para uma personalidade disfuncional. “O diagnóstico de um transtorno de personalidade só pode ser fechado a partir dos 18 anos de idade”, relembrou.

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