No dia 2 de fevereiro é comemorado o Dia de Iemanjá, orixá cultuada nas religiões de matriz africana. Em meio as diversas celebrações ao redor do país, candomblecistas (praticantes do candomblé) explicam a raiz e as origens da data.
De acordo com o Pai Marcello de Omulú, a escolha da data nacional tem a ver com o sincretismo religioso e a necessidade de disseminar a cultura. “No sincretismo, hoje é dia de Nossa Senhora dos Navegantes, uma data que remete a proteção dos mares, rios, etc. No Brasil, a deusa representa os mares, sempre atrelada a figura de uma sereia, rainha dos mares”.
Dentre as diversas oferendas para Iemanjá, estão flores, bijuterias, vidros de perfumes, sabonetes, espelhos e comidas. Por isso, Pai Marcello recomenda que, em casos de oferendas embaladas (perfumes e espumantes), o conteúdo seja despejado sem a embalagem.
“O recipiente da oferenda pode ser entendido uma poluição ao reino de Iemanjá. Logo, recomendo que se jogue apenas o conteúdo do frasco”.
O Pai Ègbón Ricardo Paiva ty Jàgún explica que, no Brasil, há diversos períodos de festas e rituais para Iemanjá. “Em Salvador, capital do Estado da Bahia, acontece a maior festa popular dedicada a Iemanjá, onde milhares de pessoas, trajadas de branco, fazem uma procissão até ao templo de Iemanjá, localizado na praia do Rio Vermelho, onde deixam os presentes que vão encher os barcos que os leva para o mar”.
No Rio de Janeiro, as festas em honra a Iemanjá estão relacionadas com a passagem de ano, explica Pai Ègbón. As celebrações também acontecem em 15 de agosto, 8 de dezembro e 31 de dezembro.
Os cultos podem acontecer em locais fechados ou ao ar livre em mares, rios e lagoas. “Por Iemanjá ser, muitas vezes, representada como sereia, os devotos levam para o mar vários presentes que são tidos recusados quando não afundam ou quando são devolvidos à praia”, acrescenta o Pai Ègbón.
De acordo com o fotógrafo Moacyr Zanotti, com a pandemia, as festividades estão reunindo uma menor quantidade de pessoas. “Todos os anos vou ao Píer de Camburi para registrar as celebrações. Lá é onde a maioria se concentra. Porém, no ano passado, tinha menos gente, por causa da pandemia”.
No Espírito Santo, as celebrações desta quarta-feira (2) acontecerão em diferentes pontos do Estado, entre eles, no Píer de Iemanjá, praia de Camburi, onde fica uma monumento da orixá, e na Prainha de Muquiçaba, em Guarapari. Outras celebrações ocorrem nos centros de candomblé, rios, marés e colônias de pescadores.
Quem é Iemanjá
Iemanjá é uma orixá feminina (divindade africana) das religiões Candomblé e Umbanda. O nome tem origem nos termos do idioma Iorubá (língua nigero-congolesa) “Yèyé omo ejá”, que significam “mãe cujos filhos são como peixes”. É considerada a mãe de todos os adultos e a mãe dos orixás.
De acordo com Pai Ègbón, Iemanjá é, na verdade, uma divindade do rio que deságua no mar. “Ela é filha de Olokun, o orixá rei dos oceanos. O rio que representa Iemanjá e sua história é o Rio Ogun, localizado no estado de Oxum, na Nigéria”.
Iemanjá é a padroeira dos pescadores. Para as religiões de matriz africana, é ela quem decide o destino de todos aqueles que entram no mar. Também é considerada a “Afrodite brasileira”, a deusa do amor a quem recorrem os apaixonados em casos de desafetos amorosos.
Segundo ao Pai Marcello de Omulú, as Iemanjás que vimos em estátuas e imagens são uma versão europeia, misturada com as lendas da Iara Mãe d’Água e de sereias. A cultuada pelo candomblé possui seios fartos, devido à raiz da própria história.
No Brasil, a divindade Iemanjá recebe diferentes nomes, dentre eles: Dandalunda, Inaé, Ísis, Janaína, Marabô, Maria, Mucunã, Princesa de Aiocá, Princesa do Mar, Rainha do Mar, Sereia do Mar, etc.
A história de Iemanjá
Pai Ègbon conta a lenda de Iemanjá. “Ela é filha de Olokun, o soberano dos mares. Recebeu uma poção do pai, para que a ajudasse a fugir de possíveis perigos. Após um tempo, Iemanjá se casa com Olofin-Oduduá, com quem teve dez filhos, que, posteriormente, se tornaram orixás”.
O Pai conta que, por amamentar todos os filhos, Iemanjá ficou com seios enormes e se sentia envergonhada, principalmente após o marido caçoar dela por este motivo.
Segundo a lenda, o rei tentou persegui-la para se desculpar, mas a rainha do mar usou a poção que o pai lhe deu, para escapar do marido. A poção a transformou em um rio, que desaguava no mar. Com medo de perder a esposa, Okerê se transformou numa montanha para impedir que o rio alcançasse o mar e Iemanjá pudesse voltar para ele.
Porém, Iemanjá pediu ajuda ao filho, Xangô, que, com um raio, partiu a montanha ao meio, permitindo que o rio seguisse o caminho. Assim, Iemanjá encontrou-se com o oceano e se tornou a rainha do mar.
No sincretismo religioso, Iemanjá corresponde a Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora das Candeias, Nossa Senhora da Piedade e Virgem Maria, exemplifica Pai Ègbón.














