Alguns álbuns têm um poder de adicção gigante: uma primeira audição já consegue criar uma espécie de dependência afetiva tamanha que é difícil parar de escutar. Não sei explicar como isso acontece, mas sugiro que seja a forma simples, direta e clara que a proposta artística é apresentada e, consequentemente, assimilada.
Essa, definitivamente, não é a proposta da banda capixaba Bujiu, que trouxe ao mundo, no dia 6 de fevereiro, “Terra”, seu álbum de estreia. Composto por 9 faixas, “Terra” é o tipo de álbum cuja primeira audição soa como um convite para uma conversa mais intimista no sofá da sala de casa, para que os envolvidos possam se conhecer melhor. Longe de ser um álbum “fácil”, que entrega tudo no primeiro encontro, é uma obra que desperta o interesse para que o ouvinte a conheça com mais profundidade nas audições seguintes e possa admirá-la cada vez mais, à medida que seus mistérios são desvendados.
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Por isso, é um álbum que confronta com muita propriedade a ditadura do algoritmo, essa entidade que dita o rumo das produções musicais contemporâneas. O algoritmo vai no ritmo da sociedade atual – prefere encontros casuais e efêmeros a laços duradouros. “Terra” respeita seu processo de criação e seus criadores, e é fiel ao propósito para o qual veio ao mundo.
Assim, antes de organizar qualquer pensamento ou de entrar em qualquer diálogo em torno da obra com os integrantes do Bujiu, me vi na obrigação de fazer essa imersão no álbum e ouvi-lo mais algumas vezes.
Denso, dissonante e “sombrio”
“Terra” carrega uma sonoridade pesada, densa, saturada, dissonante, fazendo com perfeição ofício instrumental de forma a apresentar a atmosfera caótica e “sombria” que injeta vida e exalta o sentido da poesia introspectiva, por vezes sarcástica, contida na obra.
Importante salientar ao prezado leitor que, o que descrevo aqui são impressões subjetivas de um jornalista e músico que contempla uma obra de arte. Não tenho a intenção de trazer verdades universais – até porque isso é minar o poder que a arte tem de nos despertar os mais diversos sentimentos, sensações e percepções.
Na minha experiência de imersão no álbum, ao conhecê-lo melhor, tentei definir o que senti após aquela “conversa intimista no sofá da sala”. Creio que “angústia” é uma palavra próxima. Não aquela angústia teatral, mas uma angústia que traduz a volatilidade e a sobrecarga que pairam sobre a humanidade.
Do improviso individual a um conceito coletivo
Todas essas impressões que tive, compartilhei com os caras quando fomos trocar uma ideia sobre “Terra”. Questionei se aquela atmosfera densa, introspectiva, quase sufocante em alguns momentos, foi um conceito deliberadamente pensado para o álbum, ou se é fruto da química natural entre os integrantes.
Xande Barcelos, guitarrista da banda e engenheiro de áudio, respondeu que o conceito “foi se estabelecendo com o tempo”. Foi uma construção paulatina. Começou com riffs soltos gravados no celular como ideias individuais, e aos poucos virou uma história. “Nasceu do improviso individual, se desenvolveu criativamente no coletivo, daí se consolidou um conceito”.
“Maravilhosamente desgastante”

Isso diz muito sobre o álbum e a percepção que tive ao escutá-lo pela primeira vez. Porque, assim como “Terra” precisa ser apreciado sem pressa para ser melhor compreendido, a sua construção também respeitou o tempo necessário. E o processo não foi simples, assim como a obra consolidada não o é.
O próprio Xande definiu o processo como “maravilhosamente desgastante”. Achei essa definição muito interessante e não consigo deixar de fazer uma analogia com o processo de criar um filho – sou pai de duas princesas – considerando, claro, a diferença de magnitude. É “maravilhosamente desgastante” você ver os seus esforços de amor moldando aquela criaturinha e ter a certeza de que todo o desgaste vale à pena. Um álbum é um filho, fruto da transpiração – e também da fadiga – criativa.
Mas o Xande tem um motivo a mais para estar maravilhosamente desgastado. Além de um dos compositores e guitarrista do Bujiu, foi ele também quem gravou, mixou e segurou a bronca técnica no estúdio Funky Pirata, em Vitória, enquanto a vida corria paralela com suas demandas de trabalho, família e outras frentes. É um trabalho não remunerado, que diz mais sobre a insistência e a persistência de trazer à luz um novo “filho”, do que qualquer outra coisa. Diz mais respeito a ter uma alma satisfeita com o senso de propósito cumprido, do que a qualquer tipo de retorno em plays ou em dinheiro.
E isso nos reveste de força para atravessar o processo. Mas não somente isso. Uma verdadeira banda, mais do que a junção de bons músicos para fazer um bom som, é a união de amigos em um mesmo propósito. Por isso, nos momentos de fadiga física e emocional do processo de trazer o álbum à luz, Hugo Morelato (voz e guitarra), Rafael Magno (baixo) e João Paulo (bateria) injetavam o combustível necessário para que o objetivo fosse cumprido. Sim, como qualquer casamento, houve momentos de ruídos, ajustes, tensão… mas tudo isso cooperou para fortalecer a unidade da banda.
A química sonora de “Terra”

E a força dessa união é sentida quando se ouve “Terra”. O peso, a substância, a personalidade e a sintonia das guitarras de Hugo e Xande são, não somente o guia do álbum, mas também o seu sustentáculo. A bateria segue a direção das guitarras, conferindo um peso extra e acrescentando à sonoridade a genialidade rítmica e técnica de João Paulo, um dos bateristas mais criativos do rock capixaba. O baixo de Rafael Magno, além de engrossar a atmosfera, traz uma pulsão e uma cadência que sustentam a identidade do álbum.
Assim, “Terra” é uma obra coesa. Não há instrumento sobrando, e também não há virtuosismo exibido. O que existe é uma real construção que foi se estabelecendo no decorrer de um processo, no qual todos se permitiram viver seus prazeres e dores.
Não é justo que bandas que atravessam um processo criativo “maravilhosamente desgastante”, como o Bujiu, sejam comparadas tipo “o som é parecido com…”. Porque, de fato, não é mesmo “parecido”, não é uma cópia ligeiramente modificada e nem é uma banda que aplique o DNA de determinado gênero na sua sonoridade. Existem influências, óbvio. Existe um parentesco distante, claro.

Dessa forma, com o perdão das minhas limitações sensoriais, para tentar ajudar o prezado leitor a discernir, situaria o som em algum lugar entre o new metal, o metal alternativo e o post-hardcore, com umas pitadas grungeadas.
Os próprios integrantes reconhecem a busca por um som mais denso, de baixa afinação, que caracteriza os estilos citados. Mas fazem questão de dizer que não têm a intenção de ser uma banda que simplesmente reproduz referências gringas em português. “Rolou uma preocupação real de trazer uma identidade brasileira para o álbum também”, revelou Hugo. Talvez um ouvido mais atento encontre essas referências no “balanço” de alguns riffs, em algumas levadas de bateria e em algumas “cadências” que o baixo confere ao som.
Full álbum em plena era dos singles
Diante da experiência auditiva, do diálogo com a banda e da revelação do processo por trás do álbum, ficou claro a decisão do Bujiu de lançar um álbum full em plena era dos singles. Xande foi direto quando disse que depois do tempo e do esforço dedicado à obra lançar somente um EP seria uma “frustração do cacete”. Foi só após cerca de um ano e meio de ensaios – com duas pré-gravações produzidas nesse tempo – e depois mais um ano de gravações no Funky Pirata, que “Terra” veio à luz.
E toda essa entrega fez com que os quatro se tornassem um, e o Bujiu lançasse uma obra que soa com um corpo inteiro, e não um conjunto de faixas pensadas para o algoritmo.

Compartilhei com os integrantes da banda que “Terra”, na minha experiência auditiva e sensorial, traduziu o tempo de sobrecarga, verdades voláteis e cansaço coletivo em que vivemos. O disco soa como um grito que precisa ser dado para extravasar medos, angústias, incertezas e indignações diante da loucura contemporânea. Ele não tenta explicar o mundo, mas absorve o peso dele e devolve em forma de música.
“Terra” em formato físico
Por isso tudo, “Terra” é um álbum que clama por si mesmo a necessidade de chegar ao ouvinte em formato físico, de forma que o público tenha a melhor experiência de imersão possível nessa obra de arte.
Não sou um entusiasta do vinil – mas posso vir a ser (risos) – portanto, não tenho propriedade para falar sobre essa experiência. Mas vivi com muita paixão e intensidade a época do CD. E como era diferente a experiência sensorial com a obra e até mesmo com o artista. Você colocava o CD para rodar e gastava – ou melhor “investia” – uns 40 minutos folheando o encarte, acompanhando as letras, apreciando a arte do álbum, que, em grande parte das vezes estava intimamente ligada ao conceito do mesmo, propiciando uma experiência de contemplação – e, portanto, uma percepção – muito mais rica da obra. É como se o artista realmente te visitasse naquele momento e dividisse o mundo dele com você. É uma conexão muito mais intensa, verdadeira e duradoura.
Dito isso, “Terra” merece, no mínimo, um CD físico.
“Terra” ao vivo nesta sexta (6)

Se, a partir daqui, você decidir escutar o álbum em alguma plataforma digital, sugiro que vá ao BandCamp. Lá, além de toda a “atmosfera” da página estar propícia ao som, com a arte de capa do álbum, você ainda consegue acompanhar as letras. Se puder fazer a audição no desktop ou no notebook, vai ser ainda melhor do que no smartphone. Certifique-se de usar um fone ou som externo com uma qualidade aceitável.
E, se quiser uma experiência melhor ainda, o Bujiu vai tocar “Terra” na íntegra, nessa sexta-feira (6 de março), no Hells Bells, na Praia do Canto, às 19 horas. Meu ingresso já está na mão. Vai ser a primeira vez que vou assistir os caras ao vivo. E a expectativa para essa apresentação é grande.
Quanto à audição do álbum, só uma coisa que esqueci de falar: “Terra” tem 31:55 de duração. Então reserve pelo menos uns 40 minutos – 32 para imergir; e, no mínimo, os outros 8 para voltar à superfície.
Serviço:
OUÇA “TERRA”, ÁLBUM DO BUJIU
Onde: na sua plataforma de streaming favorito, mas recomendamos BandCamp
BUJIU TOCA “TERRA” AO VIVO
Quando: sexta-feira (6 de março)
Onde: Hells Bells, Praia do Canto
Ingressos: R$ 20 (Clique aqui para adquirir)









