Ajudar também faz bem: voluntariado fortalece vínculos e saúde mental

Dedicar algumas horas da semana a uma causa, participar de uma ação comunitária ou simplesmente colocar habilidades pessoais à disposição de quem precisa. O voluntariado tem como princípio beneficiar o outro, mas os efeitos dessa relação podem alcançar também quem oferece ajuda.

Celebrado nesta sexta-feira (28), o Dia Nacional do Voluntariado chama atenção para uma prática que, além do impacto social, pode contribuir para a saúde mental. Sensação de propósito, fortalecimento da autoestima, criação de vínculos e redução do isolamento estão entre os possíveis benefícios apontados pela psicóloga Marília Zanette, da Bluzz Saúde.

Segundo ela, quando uma pessoa se envolve em uma atividade voluntária, há uma mudança momentânea do foco das próprias preocupações para a relação com outras pessoas e com uma causa.

“Ajudar o outro pode gerar uma sensação de utilidade, pertencimento e propósito. Quando realizamos uma atividade voluntária, saímos um pouco do foco das nossas próprias preocupações e estabelecemos uma conexão com outras pessoas e com uma causa”, explica.

Perceber que uma atitude teve impacto positivo na vida de alguém também pode favorecer sentimentos de satisfação e gratidão e fortalecer a autoestima.

Propósito em uma rotina cada vez mais individual

Um dos efeitos do voluntariado está relacionado à percepção de que as próprias ações têm significado. Na prática, quem dedica tempo e energia a algo que considera importante consegue enxergar mais claramente o resultado de sua participação.

Ao mesmo tempo, o trabalho voluntário costuma aproximar pessoas que compartilham objetivos e experiências, criando um ambiente de pertencimento.

“O sentimento de propósito está muito relacionado à percepção de que nossas ações têm significado. No voluntariado, a pessoa dedica tempo e energia a algo que considera importante e percebe concretamente que sua participação faz diferença”, afirma Marília.

Essa interação ganha ainda mais relevância em uma rotina marcada pelo excesso de telas e por relações que, muitas vezes, permanecem restritas ao ambiente virtual. Diferentemente de uma interação rápida nas redes sociais, o voluntariado exige presença, escuta, colaboração e convivência.

Para pessoas que enfrentam isolamento, participar de uma atividade coletiva pode ser uma forma de reconstruir vínculos e ampliar a rede de apoio.

A boa ação também pode gerar bem-estar

A relação entre ajudar alguém e experimentar emoções positivas existe, mas não significa que o voluntariado seja uma fórmula para a felicidade.

De acordo com a psicóloga, a sensação de contribuição e de conexão pode despertar satisfação, gratidão e realização pessoal. O contato com diferentes histórias e realidades também pode alterar a maneira como uma pessoa percebe a própria vida.

“Isso não significa que o voluntariado vá produzir felicidade o tempo todo, mas ele pode ampliar experiências de satisfação, gratidão e realização pessoal”, ressalta.

Para quem atravessa períodos de desânimo, falta de motivação ou sensação de inutilidade, a atividade também pode contribuir, principalmente quando esses sentimentos estão relacionados ao isolamento, à perda de vínculos ou à falta de rotina.

Ter um compromisso, estabelecer novas relações e perceber que uma ação pessoal tem valor são fatores que podem favorecer o bem-estar emocional.

Voluntariado não substitui tratamento

Apesar dos benefícios, Marília alerta para um cuidado importante: trabalho voluntário não deve ser tratado como terapia nem substituir acompanhamento profissional.

“O voluntariado pode ser um fator de proteção para a saúde mental porque favorece vínculos sociais, propósito, autoestima e participação comunitária. Mas ele não substitui acompanhamento psicológico ou psiquiátrico quando existe uma demanda de saúde mental que precisa de tratamento”, explica.

Quando o desânimo, a tristeza ou a falta de motivação persistem e passam a interferir significativamente na rotina, nas relações ou no trabalho, a recomendação é procurar ajuda profissional.

O voluntariado, portanto, pode integrar uma rotina de cuidados e favorecer o bem-estar, mas não deve carregar a responsabilidade de resolver sozinho um sofrimento emocional.

Ajudar sem se sobrecarregar

Até uma atividade baseada em solidariedade pode ter efeito contrário quando não existem limites. Assumir responsabilidades além da capacidade, ter dificuldade para dizer “não” ou colocar constantemente as necessidades dos outros acima das próprias pode transformar a experiência em fonte de cansaço e sobrecarga emocional.

“O voluntariado deve ser uma escolha e não uma obrigação. É importante respeitar o próprio tempo, reconhecer os limites e entender que cuidar de si também faz parte de cuidar do outro”, destaca Marília.

Para quem já enfrenta uma rotina corrida, a orientação é começar de forma compatível com o tempo disponível. Não é necessário dedicar muitas horas para contribuir.

“É possível começar com poucas horas, escolher uma atividade compatível com a rotina e avaliar como a experiência está repercutindo emocionalmente”, orienta.

O equilíbrio está justamente em fazer com que a solidariedade encontre espaço na vida sem eliminar descanso, convivência familiar, trabalho ou autocuidado. Dessa forma, ajudar o próximo pode se tornar uma experiência positiva não apenas para quem recebe, mas também para quem decide oferecer tempo, atenção e presença.

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