Solidão e telas: por que tantos jovens recorrem à IA para questões emocionais

A popularização da inteligência artificial (IA) tem levado cada vez mais pessoas a recorrer a chatbots para tirar dúvidas sobre relacionamentos, emoções e decisões do dia a dia. Estudos, como um publicado na JAMA Network Open, apontam que 13,1% dos jovens entre 12 e 21 anos já usaram IA generativa para buscar conselhos sobre saúde mental. Esse comportamento, porém, exige atenção, principalmente quando a ferramenta passa a ocupar o espaço de uma conversa humana ou de um acompanhamento profissional.

Em entrevista à Rádio ES Hoje, a psicóloga Janaína Ferreira, colaboradora da Comissão de Psicologia Clínica do Conselho Regional de Psicologia (CRP), afirmou que ainda há poucas pesquisas sobre os impactos da IA nas emoções e no comportamento, mas que já existem motivos para cautela.

“Uma relação humana precisa do contraponto, do olhar diferente do outro para nos ajudar a compreender e a construir o nosso ponto de vista sobre qualquer situação”, disse.

Ela explica que a IA pode acabar reforçando ideias que o próprio usuário já apresenta, enquanto o trabalho de um profissional envolve acolhimento, escuta e auxílio para que a pessoa compreenda melhor seus sentimentos.

Janaína relatou que algumas pessoas já recorrem à inteligência artificial para tentar interpretar situações afetivas, como descobrir se alguém está apaixonado ou entender o comportamento de um parceiro. Para ela, esse movimento também pode estar relacionado à solidão e à redução dos espaços de convivência.

“Às vezes as pessoas estão muito sozinhas, estão distanciadas, a gente tem poucos espaços de troca socialmente”, explicou. Segundo a psicóloga, o problema não está necessariamente no uso da tecnologia, mas na forma como ela é utilizada. A expectativa de encontrar respostas definitivas para questões pessoais pode levar a interpretações equivocadas.

Durante a entrevista, Janaína também chamou atenção para a relação entre o uso intenso de telas, o cansaço mental e a dificuldade de estabelecer conexões presenciais. Segundo ela, a aceleração da rotina concentra atividades no celular, reduzindo momentos espontâneos de convivência e interação.

Entre os mais jovens, a psicóloga observa um “encantamento” com a tecnologia e a expectativa de que a IA possa facilitar ou resolver diferentes situações. Outro ponto destacado foi a dificuldade de desenvolver empatia em um ambiente em que as relações são cada vez mais intermediadas por telas.

Para Janaína, a orientação não é abandonar a inteligência artificial, mas compreender seus limites e utilizá-la de maneira consciente, sem substituir relações humanas ou acompanhamento profissional quando necessário. “São importantes, mas é preciso entender como elas funcionam, para depois construir o uso”, concluiu.

Ouça a entrevista completa:

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