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13 de junho de 2024
quinta-feira, 13 de junho de 2024
Raphael Câmara
Raphael Câmara
Raphael Americano Câmara é desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo. Formou-se em direito em 1999, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado pela Universidade Federal do Espírito Santo em História Social das Relações Políticas, especializações em Direito Público e Direito Processual Civil.

A questão do Tempo

Cuidamos do desânimo, esse sentimento tentador que nos impele à inércia. É sedutor desanimar e fixar os olhos no chão, esperando um estímulo de alguém capaz de perceber nosso desalento. Mas a verdade é que ninguém percebe. Não mais. Caia e ficará por lá. Talvez alguém pare para te olhar com piedade – distante piedade – isso enquanto confere o relógio e já percebe que aqueles segundos de atenção podem atrasar a rotina da vida.

Não são eles os desatentos. Somos nós. Você e eu. Cheios de uma vida vazia, que se realiza no porvir, naquilo que virá após um dia de trabalho, uma vida de esforços, um cotidiano protegendo tudo, menos o tempo. E o porvir não chega nunca.

Pobre de quem rouba um relógio. E quem lhe rouba o tempo? Infeliz do devedor inadimplente. E de quem tira de você o seu tempo e não o devolve, porque não pode, ainda que muito quisesse? Somos gigantes na defesa do patrimônio, da honra, dos direitos. E da vida? Do tempo devotado à família e aos filhos? Do tempo dedicado a quem tropeçou, caiu e não levantou mais?

Aprendi com Sêneca esses dias que a vida é longa e é suficiente. Mas a vida realmente vivida é um sopro, exatamente porque mal aproveitada, já que a doamos para tantas atividades inúteis e improdutivas. Como um rico que joga pela janela o próprio dinheiro todos os dias, até empobrecer. Só um louco faria isso? Ora, você faz isso com seu tempo, com sua vida. E eu também.

No fim, é provável que só seus filhos e seu cônjuge lembrarão do quanto chegou tarde em casa. Seu patrimônio – o seu tempo – foi esboroando ao longo do dia nas mãos de quem mal sabe o seu nome, e essa verdade dói. E dói como toda verdade, aliás.

Tenho, cá para mim, que a caridade com os que sofrem é a excelência na doação do tempo. Parar, ouvir com cortesia, perdoar, pedir perdão, levantar o infeliz do chão. O tempo multiplica-se assim, porque soma-se à vida daquele que sofre e, se der sorte, será ele mais um multiplicador de vida, de tempo.

Jogue seus metais pela janela. Mas seu tempo, entregue para quem realmente merece.

Até breve.

Raphael Câmara
Raphael Câmara
Raphael Americano Câmara é desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo. Formou-se em direito em 1999, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado pela Universidade Federal do Espírito Santo em História Social das Relações Políticas, especializações em Direito Público e Direito Processual Civil.

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