Ícone e serialidade em “Coração é território”, de Milena Almeida

O que observamos, em “Coração é território”, de Milena Almeida, é o modo de apresentar da Pop Art, já consolidado, criticado, revirado e re-estetizado, simbolizado e revertido sobre sua própria lógica. Uma das muitas sutilezas que foram perdidas com o passar das décadas é a de que, quando referenciamos estilos, escolas, movimentos e artistas consagrados, não através da apropriação direta, mas da transfiguração de suas pesquisas estéticas em ferramentas de composição visual e discursiva, repetimos a Pop Art. Não há demérito ou problema nisso.

A Transvanguarda deu continuidade a esse processo sem se constranger ou se preocupar com a invenção discursiva. Em outra direção, Jeff Koons e seus herdeiros foram mais descarados, ao transformar o pastiche e o kitsch em objeto de luxo. Essa tendência, exacerbada na passagem para os anos 1990, nos relegou a aceitação do ultracolorido, do recortado, do bibelô, do molde e da réplica como sinais de elegância. Não há motivos para se envergonhar disso.

Junto de uma elogiável valorização da banalidade, ainda que cooptada e higienizada para servir de diferencial estilístico no universo monotônico da alta-sociedade, os últimos quarenta anos de arte contemporânea parecem ter nos acorrentado à obrigatoriedade discursiva. Cada trabalho ou mostra, por mais que seu visual seja instigante e suas técnicas bem desenvolvidas, parecem estar proibidos de se afirmarem como simples e superficiais. Nem tudo precisa justificar-se sobre uma metáfora ou almejar a profundidade intelectual, filosófica e histórica. Para cumprir essa exigência, por vezes, juntamos clichês e analogias simplórias e nos negamos a usufruir de imagens, sons e texturas que se justificam pela sua própria feitura.

Ícone e serialidade em “Coração é território”, de Milena Almeida

Assim é com a exposição de Milena Almeida, aberta no espaço cultural do Sesi de Jardim da Penha. Seus pontos positivos encontram-se no trabalho visual do coração como motivo, tanto no sentido de ânimo quanto de assunto. Nelson Leirner nos ensinou que, muitas vezes, basta ser capaz de escolher um motivo que reverbere em nossa imaginária e dedicar-se à observação dos objetos e imagens industriais que sobrecarregam nosso mundo para fazer surgir um trabalho potente. Por que ter medo da superficialidade, quando nós a encaramos todos os dias?

Ícone e serialidade em “Coração é território”, de Milena AlmeidaA mostra de Milena Almeida ganharia ao se afastar da justificativa discursiva e aceitar que a força de uma imagem pode residir na sua recusa em esconder o que é. Isso tampouco significa que não seja possível construir um discurso. O coração anatômico, esse ícone que oscila entre o científico e o devocional ou o sagrado e o sentimental, está multiplicado em suportes e gestos pictóricos. A série de pinturas, conjunto em médio formato disposto na parede principal, apresenta corações sobre fundos que oscilam entre o azul frio e o bege rosado. Isso ressalta as cores vivas do motivo e sua condição de ícone. Além disso, tal contraste produz uma sensação de que cada coração pertence a um estado distinto de temperatura, como se o órgão registrasse algo do ambiente em que se encontra, sem que o título precise dizer isso. O espectador que passa pelas telas e percebe a escala da composição experimenta algo parecido com o acompanhamento de um pulso que vai se tornando mais audível, sem que isso tenha sido prometido, tampouco anunciado ou previsto.

A série de esculturas na parede, onde corações tridimensionais em vermelho vivo são fixados em sequência, retoma a questão da repetição como método. Não se trata da ironia da serialidade Pop, nem da melancolia da cópia. A escolha da perda do vermelho como símbolo do sangue que se esvai sugere que a multiplicação não elimina a singularidade de cada peça, que ocupa seu próprio espaço no ar, projeta sua própria sombra, respira por conta própria. Outras metáforas e analogias apenas nos desviariam do que já está explícito.

Tic Tac, instalação que reúne estrutura metálica em grade, malha transparente que se acumula e transborda pelas hastes e um relógio dourado posicionado próximo ao chão, é o trabalho que mais se distancia do kitsch. Os materiais sintéticos que a modernidade produziu em quantidade industrial e que o século XXI aprendeu a reconhecer como problema, envolve o interior da estrutura de modo que o coração vermelho, visível através das camadas translúcidas, aparece como algo guardado, embalado, preservado ou sufocado, a depender de onde o espectador se posiciona. O relógio instala a dimensão da espera: o coração está lá dentro, mas o tempo que passa não o libera. Há algo de sarcástico e algo de patético nessa composição. Sozinha, sem o contexto da mostra, essa instalação apresentaria alguma ambiguidade como seu ponto mais produtivo.

Operários e Linha de produção entram na exposição pela via do título antes do trabalho. A referência à tela de Tarsila do Amaral é incômoda e, talvez, politicamente inadequada. Se em Tarsila os operários são massa e indivíduos, em uma crítica direta à degradação da vida pela urbanidade industrial, ao mesmo tempo que nos permite antever a força incomparável da coletividade; na versão de Milena, o órgão anatômico assume as duas funções: é símbolo universal e é objeto específico, fabricado, replicável e estetizado.

Ícone e serialidade em “Coração é território”, de Milena AlmeidaTravessia, o grande tecido dourado suspenso no espaço com a frase “em constante travessia” escrita sobre o padrão ornamental, poderia dialogar com as tradições de estandartes religiosos, passando pelos panos de festa e pelos reposteiros domésticos. Para isso, toda a mostra precisaria se assumir como deslocamento das visualidade populares para o universo do requinte galerista. Se quiséssemos seguir o caminho da justificativa, o tecido com padrão repetido em relevo dourado, ao receber uma inscrição que fala de movimento contínuo, cria uma espécie de paradoxo material: o suporte ornamentado é associado à permanência e à cerimônia, enquanto o texto afirma o contrário. A face do tecido que recebe a frase e a face que recebe a pintura do coração em azul constituem dois lados de uma mesma afirmação: o território do coração é sempre provisório, sempre em deslocamento, mesmo quando aparenta ter raízes decorativas que o prendem a um lugar. Essas são afirmações que fazem sentido apenas quando supomos algo de condenável em ser decorativo.

A ludicidade de Reflexo fecha o ciclo da exposição ao devolver ao espectador a pergunta que os outros trabalhos supõem: o que se vê quando se olha para um coração? O reflexo implica que a imagem só existe em relação à superfície que a recebe e ao olho que a observa. Isso coloca o trabalho inteiro de Milena Almeida em perspectiva: toda a série foi, desde o início, um exercício de devolver ao espectador sua própria imagem através de um motivo que ele reconhece antes de pensar.

O que “Coração é território” entrega, ao fim, não é uma metáfora elaborada sobre afeto e pertencimento, mas um catálogo visual de gestos pictóricos aplicados a um mesmo motivo até que ele deixe de ser figura e volte a ser coisa: músculo, peso, forma, cor. Isso tem mais a ver com a tradição da natureza-morta do que com qualquer discurso sobre subjetividade. E talvez seja esse o mérito mais consistente da exposição: reconhecer que o coração, como o crânio nos vanitas flamengos, já carrega toda a carga simbólica de que precisa, e que a tarefa do artista é encontrar o gesto que não a explique, mas que a deixe aparecer.

Revisão: Alana de Oliveira

Rodrigo Hipólito
Rodrigo Hipólito
Mestre e doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Artes da Universidade Federal do Espírito Santo. Escritor, historiador da arte, crítico e podcaster. Professor do Departamento de Teoria da Arte e Música (DTAM-UFES, 2015-2020), do Departamento de Comunicação (DEPCOM-UFES, 2023-2025) e dos cursos de Pedagogia e Psicologia da Faculdade Europeia de Vitória (FAEV, 2015-2023). Editor da Revista do Colóquio e redator do site Nota Manuscrita.

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