Tramas do Ser: quando a formação encontra a urgência

Há algo de paradoxal no trabalho de curadoria em contextos de formação universitária. A pessoa curadora que acompanha processos criativos de estudantes não lida apenas com obras já constituídas, prontas para se defender diante dos mais diversos olhares. Lida, antes, com obras em estado de devir: com intuições que ainda não encontraram seu peso formal, com ideias que se adiantam às mãos, com repertórios que transbordaram às vezes antes de se consolidarem. Esse acompanhamento exige uma dupla disposição: a de reconhecer o que já está ali, sustentado por histórias de vida, por vivências de antes da universidade, por saberes acumulados em outros circuitos e territórios; e a de perceber o que ainda está para acontecer, o que se anuncia nos gestos mais tímidos de uma obra e que promete, ao receber atenção, converter-se em caminho de força.

A DAVisuais, mostra institucional da Galeria de Arte e Pesquisa da Universidade Federal do Espírito Santo que integra o calendário anual da GAP, chegou à sua edição de 2026 com um conjunto de trabalhos que, sob o título “Tramas do Ser”, apresenta algo mais do que um panorama da produção discente. Ela apresenta um recorte de preocupações que circulam, de modos distintos, pela geração de jovens artistas em formação no Brasil contemporâneo. Preocupações com pertencimento, com os modos pelos quais o corpo carrega histórias, com as formas que a memória assume quando se recusa a permanecer abstrata. Essas são questões que remetem ao que se costuma chamar de identidade, ainda que essa palavra apareça pouco ou nada nos textos, nos títulos, nas declarações dos próprios artistas, nesta e em outras mostras recentes de jovens artistas. Essa ausência é um tanto desagradável, mas muitas vezes trata-se de uma escolha tática. A identidade, como tema explícito, carrega o risco de reduzir o trabalho a uma ilustração de posicionamento. As propostas mais maduras desta mostra evitam essa armadilha e chegam à questão por vias oblíquas: pelo material, pela escala, pela disposição no espaço, pelo silêncio deixado deliberadamente em aberto.

Tramas do Ser: quando a formação encontra a urgência

A seleção, conduzida pelos docentes Daniel Hora, Isabela Frade e Marcos Martins, privilegiou critérios que incluíram coerência conceitual, domínio técnico e adequação ao espaço da galeria. Esses critérios, aparentemente formais, escondem uma dificuldade que qualquer pessoa envolvida com educação no campo das artes reconhece: a de distinguir a proposta que funciona bem, naquele momento, daquela que funciona bem como promessa. A comissão, ao que indica o resultado, esforçou-se para lidar com essa distinção. Há na mostra trabalhos que chegam com uma solução plástica já maturada, e há aqueles cuja importância reside menos na forma alcançada do que na direção que apontam. Ambos têm lugar legítimo no calendário de uma galeria universitária. A edição de 2026 carrega ainda um peso afetivo particular: a seleção dos trabalhos foi uma das últimas atividades de Marcos Martins, artista e professor que deixou marcas indiscutíveis no desenvolvimento do Centro de Artes da UFES.

Entre os elementos que organizam “Tramas do Ser” como conjunto coeso, destaca-se a recorrência a materiais que guardam relação direta com a experiência vivida. Nos casos mais interessantes, foge-se do uso meramente ilustrativo como signo de pertencimento e aponta-se para uma investigação sobre o que o material faz ao pensamento quando se recusa a ser apenas suporte. Essa preocupação atravessa diferentes trabalhos e sugere que a orientação pedagógica que os sustenta tem clareza sobre a diferença entre usar um material e pensar com ele.

A solução formal para ideias de alta complexidade está entre os maiores desafios dos anos de formação na arte. Saber o que se quer dizer não é suficiente: é preciso encontrar a forma que comunica enquanto produz sentido por suas próprias qualidades físicas, por suas resistências, por suas omissões. Muitos dos trabalhos desta mostra dão indícios de que esse processo tem avançado sob uma orientação atenta, capaz de sugerir e de questionar sem travar processos sensíveis e inseguros.

A instalação de Aline Amaral, “Enraizada sou nas verdades que ergo” (2025), encontra-se entre os trabalhos mais bem resolvidos da mostra. A obra articula, com uma economia de meios que raramente se vê em produções de formação, três eixos que resistem à síntese: a ancestralidade como território simbólico para mulheres negras, a materialidade da terra como suporte de memória, e a necessidade do registro como forma de manutenção histórica. A relação entre linguagem, natureza e memória se estabelece com clareza sem recorrer à explicação. O trabalho não precisa ser lido para ser sentido, mas sustenta a leitura quando ela acontece. Essa dupla capacidade, de funcionar no plano sensorial e no plano conceitual sem que um anule o outro, está entre os maiores interesses e mais difíceis resultados do aprendizado em processos poéticos. No caso de Aline Amaral, ela surge de uma estrutura formal que confia no espectador: não entrega tudo de imediato e tampouco esconde sem motivo. A instalação testemunha e exige testemunho.

Tramas do Ser: quando a formação encontra a urgência

“Trilhas do Corpo-Palavra” (2025), de Gabriel Bruno e Rhuan Cruz, inscreve-se em uma linhagem reconhecível: a da poesia visual construída sobre o legado concretista brasileiro, com seus desdobramentos em direção à corporalidade e à acumulação de experiências sensoriais. O trabalho tem mérito na clareza com que assume essa filiação e na disposição de adicionar a ela um repertório de urgências contemporâneas relativas ao corpo como campo de inscrição. A dificuldade que o trabalho levanta, mais como desafio interno do que como limite, é a dos modos de apresentação. A história da poesia visual é uma história de experimentação radical sobre o suporte, a escala, o contexto de exibição. Há caminhos já percorridos e outras a serem experimentados que poderiam ampliar o alcance do que Gabriel Bruno e Rhuan Cruz têm a dizer. O trabalho existe; a pesquisa sobre como apresentá-lo ainda tem campo a explorar, e isso é um dado produtivo mais do que uma simples lacuna.

Larissa Gobbi apresenta dois trabalhos que se desenvolvem dentro de uma tradição com genealogia longa nas artes visuais: a da coleta, da coleção e do arquivo de objetos do cotidiano. Em “Coleção de pregos e parafusos perdidos [achados]” (2024-2026) e “Ofendículos” (2025), a artista se distancia da variante dessa tradição que elege objetos pela carga de memória pessoal prévia e se aproxima da variante que organiza a coleta a partir de uma deliberação conceitual. Essa escolha tem implicações sobre o que o trabalho pode fazer. O achado sem história afetiva anterior ligada à proponente ou às pessoas que acompanharam seu desenvolvimento pessoal por longo tempo transfere ao gesto da coleta e ao modo de organização o peso que, na outra tradição, seria suportado pelo próprio objeto. Larissa Gobbi parece consciente dessa transferência. A disposição dos pregos remete à lógica do inventário, com sua frieza de catalogação, enquanto a caixa com itens manuseáveis convida o público a uma proximidade física que rompe a distância do arquivo. Essa tensão, entre o distante e o manuseável, entre o sistemático e o aberto ao contato, é o ponto mais vivo dos dois trabalhos e sugere uma pesquisa que pode avançar muito na direção de uma investigação sobre o que separa o objeto-coisa do objeto-signo.

Já em “Sementes que Correm em Consagro” (2024), Yago Miller lida com um vocabulário formal que remete diretamente ao território do manguezal como metáfora de pertencimento e deslocamento. O tanino, como substância que emerge do processo de curtimento e que carrega em si a marca de uma transformação química, não deixa de ser ornamental, embora integre a lógica do trabalho. O manguezal como sistema, com sua capacidade de enraizar em condições de instabilidade, de lançar propágulos à deriva e de transformar o sal em condição de vida, fornece à obra tema, matéria e estrutura. A rede de pesca como elemento de aplicação sobre a tela aparece como rastro de mobilidade, de algo que transitou antes de se fixar ali. O trabalho de Yago Miller carrega uma ambição formal que poderia ir além do que a dimensão da tela permite: há uma cosmologia comprimida naquele espaço, um mapeamento de deslocamentos que não se fecha sobre si. A imagem produzida beira o risco da ilustração, embora queira se afirmar como um território.

Por fim, o conjunto reunido na edição de 2026 da DAVisuais não tem a uniformidade de uma exposição concebida a partir de um projeto curatorial centralizador. É, como toda boa mostra de formação, um rastreio de diferenças: de estágios de desenvolvimento, de naturezas de pesquisa, de relações distintas entre artistas e seus trabalhos de momento. Essa heterogeneidade é o registro honesto de um processo em curso, com sua bagagem de histórias anteriores à universidade e com os caminhos que ainda se abrem. O olhar que a curadoria, sob o nome da Prof.a Cláudia França, precisou ter para reunir esse conjunto com coerência é aquele que reconhece, na diferença e na falta, uma forma de conversa. “Tramas do Ser” permite o diálogo e a observação de trajetos que podem ser impulsionados ou alterados. Às vezes a conversa surge em voz alta, outras vezes em murmúrio. Vale a escuta em qualquer das formas.

Revisão: Alana de Oliveira
Fotografias: Divulgação GAP/Clésio Júnior

Rodrigo Hipólito
Rodrigo Hipólito
Mestre e doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Artes da Universidade Federal do Espírito Santo. Escritor, historiador da arte, crítico e podcaster. Professor do Departamento de Teoria da Arte e Música (DTAM-UFES, 2015-2020), do Departamento de Comunicação (DEPCOM-UFES, 2023-2025) e dos cursos de Pedagogia e Psicologia da Faculdade Europeia de Vitória (FAEV, 2015-2023). Editor da Revista do Colóquio e redator do site Nota Manuscrita.

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