Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa
Desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo desde 1994. Programador de computadores, autor de diversos “softwares” dedicados à área jurídica, cedidos gratuitamente a diversos Tribunais do Brasil. Articulista de diversos jornais com artigos publicados também em outros países, como Suíça, Rússia e Angola.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

O menino Jesus

Há alguns dias li que duas poderosas empresas transnacionais estariam comercializando café produzido por escravos, digo, crianças – elas trabalhariam umas oito horas por dia, seis dias por semana, a troco de uma remuneração irrisória.

Esta matéria remeteu-me a uma outra segundo a qual milhares de crianças africanas estariam perdendo a infância garimpando minerais que compõem muitos dos produtos eletrônicos que consumimos.

Por falar na África, recentemente noticiou-se que importantes corporações do ramo alimentício estariam adquirindo – conscientemente – cacau produzido por crianças reduzidas à escravidão mais bárbara.

Não nos esqueçamos do mundo das confecções. Denunciou-se que em um único país civilizado há entre 250.000 e 400.000 crianças trabalhando sob condições desumanas produzindo roupas para diversas empresas. Segundo consta, seriam refugiadas – além da queda, coice.

Não muito longe dali idêntico martírio estaria sendo imposto pela indústria de pescados. De cana de açúcar. Do tabaco. Do desmonte de navios velhos. De brinquedos – sim, até disso. E por aí seguimos.

Deixei por último a que mais me chocou: 40.000 crianças com no máximo oito anos de idade estariam sacrificando a infância assistindo, a troco de quase nada, doentes de todo tipo – isso em um país dos mais circunspectos do planeta.

Em síntese, denunciou-se que pelo mundo afora 73 milhões de escravos, digo, de crianças entre 5 e 11 anos estariam trabalhando duro a troco de uma merreca qualquer.

A imprensa, insistentemente, noticia que vários dos produtos produzidos desta forma são comercializados pelo planeta afora sem maiores incômodos – inclusive ali na esquina de nossas ruas.

Não fique com pena dessas crianças – afinal, nas palavras de Josh Billings, “ter dó não custa nem vale nada”. O de que elas precisam é de ações – apuração séria de cada denúncia e rigorosa responsabilização civil e criminal dos eventuais culpados. Não deve ser tão difícil fazer isso, pois a esmagadora maioria das reportagens que li trazia dados bastante concretos.

Nossa civilizada e cristã sociedade, porém, muitas vezes opta por omitir-se diante de algumas empresas “grandes demais para quebrar”. Prefere aguardar a chegada do Natal para ir a alguma igreja fazer o sinal da cruz diante da manjedoura exposta lá no altar.

Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa
Desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo desde 1994. Programador de computadores, autor de diversos “softwares” dedicados à área jurídica, cedidos gratuitamente a diversos Tribunais do Brasil. Articulista de diversos jornais com artigos publicados também em outros países, como Suíça, Rússia e Angola.

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas

[the_ad_group id="63695"]