No Atacama, conheci uma moça que servia a vida em pequenos pratos.
Estávamos eu e meu filho em um restaurante bonito e humilde, desses que não precisam anunciar a própria beleza. Havíamos escolhido o menu degustação. Queríamos conhecer os sabores locais, experimentar um pouco daquela terra que, havia alguns dias, vínhamos tentando compreender.
Então veio a moça.
Ela trazia cada prato com um entusiasmo que me comoveu.
Não era a solenidade ensaiada dos grandes restaurantes, nem aquela descrição quase científica dos ingredientes que às vezes antecede os pratos sofisticados. Havia nela outra coisa. Uma alegria genuína, quase inocente, de quem parecia estar nos apresentando o mundo pela primeira vez.
Ela colocava o prato sobre a mesa e começava a contar.
De onde vinha aquele ingrediente. Como era preparado. O que crescia naquela terra. O que as pessoas dali comiam. O que deveríamos perceber primeiro. Havia um enredo por traz de cada prato.
E eu olhava para ela.
Depois, para o prato.
E provava.
Um sabor.
Uma textura.
Um estranhamento.
Uma descoberta.
Às vezes eu gostava muito. Outras vezes, nem tanto.
Mas comecei a perceber que talvez um menu degustação não tenha sido feito para que gostemos de tudo.
Talvez tenha sido feito para que experimentemos tudo. Sim, experimentemos!
Pensei na vida.
Talvez essa nossa vida também seja uma espécie de menu degustação que alguém coloca diante de nós sem nos entregar previamente a lista completa dos pratos.
Alguns chegam doces.
Outros, amargos.
Há os que gostaríamos de repetir muitas vezes e aqueles que, depois da primeira colherada, jamais pediríamos novamente.
Há sabores que reconhecemos imediatamente. Outros nos causam estranhamento. Alguns só compreendemos muito tempo depois.
E, ainda assim, todos fizeram parte da experiência.
Passamos boa parte da existência tentando escolher apenas os pratos de que gostamos. Queremos o amor sem a despedida, o encontro sem a perda, a juventude sem o envelhecimento, a coragem sem o medo, a conquista sem a espera.
Queremos devolver à cozinha tudo aquilo que não pedimos ou gostamos.
Mas a vida não trabalha à la carte.
Ela serve.
E nós vamos degustando.
Talvez a sabedoria esteja justamente em permanecer à mesa.
Em não abandonar o jantar porque um dos pratos não nos agradou.
Em compreender que também o amargo desperta sentidos. Que o ácido provoca. Que certos sabores precisam de tempo para revelar aquilo que carregam.
Porque viver talvez seja isso: permitir que a experiência nos atravesse sem exigir que ela tenha sempre o gosto que imaginávamos.
Naquela noite, decidi experimentar tudo.
Estava ali com meu filho, diante de mim, e uma moça desconhecida nos apresentando os sabores de sua terra como se nos entregasse pequenos tesouros. E assim eram!
De repente, aquilo me pareceu suficiente.
Não pensei no que faria depois.
Não pensei no dia seguinte.
Não procurei outro lugar onde deveria estar.
Eu estava ali.
Inteira.
Presente em cada prato.
Os sentidos atentos, o coração disponível, como alguém que acabara de chegar ao mundo e ainda não tinha aprendido a se distrair dele.
Ao final, a moça se aproximou novamente.
Nos despedimos.
Talvez para ela era apenas mais uma noite de trabalho. Mais uma mesa. Mais dois viajantes entre tantos que atravessam o Atacama e depois desaparecem pelas estradas do deserto.
Para mim, não.
Levantei-me daquela mesa profundamente agradecida.
Agradecida pela comida.
Pelo meu filho diante de mim.
Pelo deserto lá fora.
E, sobretudo, por aquela moça que, sem saber, havia me lembrado de uma coisa muito simples: a vida precisa ser degustada enquanto está sendo servida.
Não sei se algum dia voltarei àquele restaurante.
Não sei se reencontrarei aquela moça.
Aliás, há muito pouco nesta vida sobre o qual possamos verdadeiramente dizer: voltarei.
Talvez seja exatamente por isso que precisamos estar inteiros quando estamos.
Naquela noite, eu estive.
Provei.
Estranhei.
Gostei.
Não gostei.
Olhei.
Senti.
Agradeci.
E fui embora.
Como um dia iremos embora de tudo.
Mas, ao atravessar a porta e voltar para a noite fria do Atacama, tive uma certeza serena:
Não sei se retornarei.
Mas sei que vivi. E, com gratidão, me despedi.








