Moema Giuberti
Moema Giuberti
Moema Giuberti. Promotora de Justiça há 17 anos. Mestra em Direto pela PUC/SP. Poetisa nas horas vagas.
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

O lugar onde os ossos aprendem a respirar

Vivemos sob a tirania da pressa.

Há sempre um relógio exigindo mais um passo, mais uma conquista, mais um sorriso, mais uma resposta. Aprendemos a correr antes mesmo de descobrir para onde estávamos indo. E, quando enfim percebemos, já não era o tempo que caminhava sobre nós. Éramos nós que nos arrastávamos sob o peso dele.

Até que chega o fundo.

Não o fundo dos mares, onde ainda existe movimento. O fundo do poço. Aquele lugar silencioso onde o eco devolve apenas a nossa própria voz e onde nenhuma máscara consegue sobreviver. Ali terminam as justificativas, as aparências e a ilusão de controle. Restamos apenas nós — pequenos, frágeis, assustados diante daquilo que sempre fizemos questão de esconder: nossas limitações, nossos medos, nossas inseguranças.

É curioso como a vida nos leva exatamente ao lugar de onde sempre tentamos fugir.

Porque há lições que jamais florescem nos jardins da abundância. Elas nascem na terra endurecida da escassez.

O mundo chama isso de fracasso.

O céu, talvez, apenas de oficina.

É ali, quando tudo parece perdido, que uma providência silenciosa começa a agir. Ela não chega fazendo alarde. Não rompe portas nem anuncia sua presença. Surge de lugares secretos. Do íntimo da alma, onde ainda resiste uma centelha de esperança. E, sobretudo, Daquele que vê o que nossos olhos já não conseguem enxergar.

Não sabemos explicar.

Mas sentimos.

Sentimos quando a respiração deixa de ser apenas sobrevivência e volta a ser vida. Quando os ossos cansados reencontram vigor. Quando os olhos, antes fixos na poeira da queda, tornam a procurar o horizonte. Quando o coração, que insistia em bater apenas por obrigação, recorda novamente por que nasceu.

Há um mistério no reerguimento.

Antes de nos devolver ao caminho, a vida nos conduz a um lugar escondido. Um lugar recôndito, silencioso, quase invisível aos olhos do mundo. Mas, curiosamente, próximo aos ribeiros. Porque ninguém é restaurado longe das águas.

Ali somos despidos daquilo que nos fazia acreditar que éramos fortes.

Ali somos moldados.

Não sem dor.

O ferro não escolhe ser forjado. A argila não decide o formato do vaso. A árvore não pede para enfrentar o inverno. Mas todos carregam, depois da provação, uma beleza que antes não possuíam.

Recrudescemos.

E recrudescemos justamente para sermos refeitos.

Há batalhas que não existem para nos destruir. Existem para revelar quem permanecerá de pé quando a tempestade passar.

Talvez seja esse o maior paradoxo da existência: aquilo que julgávamos ser o fim era apenas o lugar onde Deus começava a escrever um novo capítulo.

Então compreendemos que nunca fomos chamados a permanecer no poço.

Fomos conduzidos até ele para aprender que nenhuma força verdadeiramente humana seria suficiente para nos tirar dali.

Era preciso olhar para cima.

Era preciso confiar.

Era preciso descobrir que existem mãos invisíveis sustentando aqueles que já não conseguem sustentar a si mesmos.

E quando finalmente voltamos a caminhar, já não carregamos apenas nossas cicatrizes.

Carregamos uma missão.

Porque quem atravessa a noite aprende a reconhecer a luz de longe. E quem experimenta a misericórdia torna-se incapaz de negar esperança aos que ainda caminham na escuridão.

Os que retornam do vale nunca voltam iguais.

Voltam para anunciar, sem palavras grandiosas, apenas com a própria vida, que há renascimentos que só acontecem depois da última lágrima.

E que algumas das mais belas boas-novas da humanidade não nasceram nos palácios, mas nos lugares escondidos, onde Deus ensina ossos cansados a respirar outra vez.

Moema Giuberti
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Moema Giuberti. Promotora de Justiça há 17 anos. Mestra em Direto pela PUC/SP. Poetisa nas horas vagas.

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