Moema Giuberti
Moema Giuberti
Moema Giuberti. Promotora de Justiça há 17 anos. Mestra em Direto pela PUC/SP. Poetisa nas horas vagas.
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Panetones de dezembro

Já estava cansado fazia tempo, havia passado o dia inteiro no shopping. Comprei várias coisas. Afinal, era natal. Quem me acompanhava ainda tinha pernas, então, eles que às usassem, pois precisava sair dali após a orgia de consumo. Ficaram eles lá por mais algumas horas e eu me fui, sozinho.

Eu saía como sempre saio, rápida e apressadamente, por mais que calmo, pelas vitrines de um shopping em Higienópolis. Eram muitas sacolas, por isso o cansaço. Dentre as sacolas estavam meus consumos, de sandálias e camisas a panetones, nem todos eram meus, carregava o consumo dos outros. E eu andava pensando sobre minha festa. Pensava sobre minha pressa de chegar à casa mas, claro, ainda tinha tempo para olhar gente bonita. E olhava, como olhava. As pessoas dessa cidade tem seu charme, afinal.

Ah sim!

Era natal! A cidade se preparava, assim como eu, para a data festiva; indo às compras, claro, afinal, natal é sobre presentear! Natal ao qual me refiro não é Natal, mas sim ao Natal amplo, o Natal estação, o (n)atal da promoção, do panetone e do presente. E lembrei que era Natal. Lembrei que nascia, como nasce todo ano, o espírito de consumo. E suspirei: como é bom comprar. Lembrei do (n)atal pois olhei para o panetone que minha mãe havia ganhado. “Mil reais em compras e ganhe um panetone de ‘nome da chocolateria’”, dizia o anúncio. Ganhamos um, ganhamos dois, ganhamos três. No (n)atal ganhamos três panetones da ‘nome da chocolateria’. Pegamos somente um, só um que carregava, mas pesava, pouco, mas pesava. Mamãe elogiou o panetone. Mamãe ficou louca com o panetone. As compras valeram a pena, afinal, pois, além dos presentes, havíamos ganhado o panetone da ’nome da chocolateria’; uma cortesia do shopping.

Nisso lembrei que nas lojas haviam me desejado boas festas! E eu havia dito, automaticamente: feliz natal! Ou, reciprocamente: boas festas! Ou ainda: para nós! Não me lembro, forma muitas. Como pude esquecer-me do Natal? Haviam vários anúncios de promoções e uma linda árvore no centro do shopping! E o papai Noel! Sim, o papai Noel (o velinho que sempre vem!) e os papais comprando presentes para seus filhos! E todos felizes! Todos ufanos comprando para seus queridos e preparando suas festas. E as crianças se divertindo com a magia de tão especial estação. E os adolescentes gozando das férias. E eu ali, eu ali feliz por eles. Ah, que alegria era também passar e ver passar o cartão! Afinal, por mais que não tenha feito amizade com os adolescentes, estávamos unidos! Estávamos todos passando o cartão.

Fui à uma loja de sandálias, sandálias ecológicas. Muito bom uma marca se preocupar com os problemas do mundo! Essas sandálias são moda, todo mundo quer uma. Eu não sou diferente, quero ter estilo, quero ser como os charmosos. São caras, bem caras. Na loja não pensei sobre isso. Escolhi a minha sandália ecológica e enquanto esperava que trouxessem-na, olhei para quem estava comigo. Ou melhor, quem estava na loja. Estava cheio, muito cheio, tão cheio que ninguém mais podia entrar na loja. E a demanda era tão alta que as sandálias modelo Arizona se esgotavam em um piscar de olhos. Então olhei, vi os gays, os pais de família, os adolescentes, os casais, os cornos e os solteiros. Por mais diferentes que fossem tinham algo em comum. O cartão bipava da mesma forma. Saí de lá com meu bipe do cartão, e minha sandália ecológica, claro.

E pensei, já fora daquela loja, mas cercado pelo (n)atal, sobre as crianças, pensei sobre a criança natalina que fui. Pensei sobre Papai Noel (O velinho que sempre vem). Era tão lindo ver em seus olhos o brilho de ver a árvore e as luzes de natal. E quando escolhiam o presente? Ah! Que sabor gostoso ver, escolher e abrir debaixo da árvore na manhã do dia 25 o presente tão aguardado. E para as crianças gulosas, como eu fui, e ainda sou, sempre serei, seria um deleite ver a mesa farta de Natal. O peru, o arroz com passas, a maçã com maionese, opa, maionese com maçã, e a oração e comer a ceia e o panetone, quiçá o mesmo da minha promoção. Dois, três, quatro, cinco… não importa, é Natal! E o papai Noel (o velinho que sempre vem) lá e a árvore lá e as comidas lá e a família lá e os presentes lá.

E isso era o (n)atal!

No meio disso saí do shopping. No meio disso saí do ar-condicionado. No meio disso saí das pessoas charmosas. No meio disso saí do consumo para carregar o consumido. No meio disso saí do (n)atal, que já nem lembrava que lá estava. Carregava as sacolas saindo do shopping assim como carregava quando ainda estava lá. Era normal. Respirava, o ar era puro como se pode ser em São Paulo. Atravessei a rua. Nossa, quantos taxistas estavam lá. Não era uma rua, era um local de desembarque de uma calçada para outra. Onde os motoristas ficavam. Assim que cheguei próximo da faixa de pedestres o manobrista fez com que os táxis parassem para mim, só para mim, somente eu estava lá.  Me inseri no campo florido em que seu suéter me levava e esqueci do peso das compras e:

– Tio, quer comprar um pano?

Olhei, ainda altivo, para um lado, para o outro, não vi. Olhei para baixo, era uma criança, descalça:

– Hoje não, obrigado!

Segui como pude. Com estômago? Sim. Não somente, indiferente. Deplorável. E

– Moço!

Não escutei, ou ignorei. Como se não fosse comigo. Insistente continuou:

– Moço, Moço! (Estrondo) Me da algo pra mim comer! To com fome!

Olhei, ainda altivo, para um lado para o outro. Olhei para baixo, era uma idosa, descalça, franzi a testa em algo próximo à pena:

– Desculpa!

– Tá bem…

Desculpa. Disse desculpa. Me arrependi previamente. Segui como pude, diferente. Poucos metros, menos que um:

– Moço! Pode comprar algo pra gente comer?

Não olhei para um lado nem para o outro. Nem para baixo. Mas era uma mulher, não sei como era, pois olhei reto, mas era uma mulher. Segui até que de trás, com a mulher:

(Veio como uma explosão)

– Tio! Dá o panetone pra gente!

Segui, não pude parar. Não disse nada. Era uma menina. Era pequena. Era uma criança.

O panetone da ’nome da marca’ não era meu, era de mamãe. Mamãe tanto o queria tanto e tanto que segui. Segui e não sei a cara da menina que me pediu o panetone. Segui com aquela voz.  Segui por metros indiferente. Nesses metros pensei vagamente sobre o natal da menina, da rua, sem luz, sem família, sem árvore, sem papai Noel (o velinho que sempre vem?), sem panetone, sem… comida?

Segui mais, segui mais e cheguei ao meu prédio. Cheguei e olhei para minha mão e pensei na escada e pensei no peso e pensei no panetone e pensei na menina e caí.

E subi caindo com o panetone. E subi caindo com peso, e subi caindo cansado, e subi caindo. O panetone estava lá, no décimo segundo andar. Eu estava ainda na saída daquele shopping. Eu estava ainda com a menininha, com a criança dos panos, com a idosa e com a mãe, os quais eu ignorei.

Não uma fome, mas quatro fomes. A fome ali. Ao lado do natal. A fome de olhar, a fome de família, a fome de árvore, água, luz e… comida? Como todos ali, todos os charmosos, todos e eu, éramos cúmplices?

Olhei para a sacola da sandália, tinha uma caixa de papelão dentro. Renovável. Sim, tudo ali era renovável.  Era tudo renovável, até a caixa da sandália era renovável; seria a cama de pés descalços.

Via os brilhos e as luzes e as árvores e o apito do cartão e os adolescentes e os pais comprando presentes e os panetones e o Papai Noel. E isso era Natal ou natal?

Mais tarde fui o primeiro em casa a comer o panetone. Seu gosto era de fome.

Moema Giuberti
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Moema Giuberti. Promotora de Justiça há 17 anos. Mestra em Direto pela PUC/SP. Poetisa nas horas vagas.

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