José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.
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“Eu é o outro” – duas gerações e uma autorreflexão sobre a imagem

Há algum tempo que não me impressiono com uma exposição. Poucas tem me retirado da rotina para ver uma obra e não apenas cuidar da parte social de uma abertura, ou vernissage. Mas dois motivos me levaram à Galeria Matias Brotas: dois artistas capixabas, Rosana Paste e Orlando Faria, de gerações distintas, mas com uma força expressiva ímpar.

A escultura que se torna desenho e a pintura que vira objeto. A mostra é uma viagem na minha cabeça. Tempos sobrepostos, não apenas pela geração de artistas.

As obras da mostra me remetem imediatamente a dois grandes filmes que tenho em particular paixão: Metrópolis (1927), de Fritz Lang; e Nosferatu (1922), de Murnau; obras primas do expressionismo alemão.

Na cidade distópica, onde o poder oligarca subjuga os direitos daqueles que produzem as riquezas; onde poucos escolhidos, sob o bastião do poder ilimitado e da justiça, tentam tomar o único ponto de fuga dos povos do subterrâneo. A professora e líder espiritual dos desvalidos do sistema, é a ameaça ao poder instaurado, mas ao mesmo tempo um possível instrumento de aniquilação de qualquer resistência. O sistema opressor a toma de assalto e, nesse ponto do filme, Fritz Lang parece prenunciar o século XIX: um robô surge em meio a efeitos especiais e nos surpreende ao ser mais que um manipulável pelo poder dos “bons homens da superfície”. A Maria cibernética assume uma personalidade e tenta se instaurar como um novo poder manipulador das elites e do povo. É uma narrativa brilhante.

Mas, podem estar se perguntando, o que isto tem a ver com a mostra “Eu é o Outro”?

Bem, a estética dos efeitos especiais, no momento de transcriação da personagem em um ser eletrônico, a ciência envolve o corpo da donzela com anéis de energia. Halos de metal que abraçam e desenham o contorno do corpo daquela mulher.  Tal corpo, agora inerte, será transferido e repicado em uma máquina.

“Eu é o outro” – duas gerações e uma autorreflexão sobre a imagem

Nada mais contemporâneo.

A máquina do tempo de Lang me trouxe de volta na obra de Rosana Paste. Seu próprio corpo duplamente representado como anéis. Anéis sobre os quais a luz reconstrói um corpo. Um eu que se torna um outro; ao mesmo tempo que sou eu.

“Eu é o outro” – duas gerações e uma autorreflexão sobre a imagem

Muitos “eus” de Rosana se espalham pela mostra. Como uma espécie de artista tomada por Andy Warhol, Rosana Paste replica a si mesma. Irreverente. Domada e transformada pela fundição cujo calor que derrete o metal, o molda em uma forma irreverente. A forma, parece ter congelado uma Rosana de tempos remotos: a jovem que com seus cabelos longos e postura desafiadora, revisitava a arte capixaba a tornando atual. Mas, a irreverência pop a multiplica. Chamo aqui um pedaço da fala do curador da mostra, Rodrigo Hipólito: “Derreter metais, moldar barro, acompanhar a trajetória da luz que vem a ser cor, sombra e linha, são empenhos alquímicos de dar corpo ao mundo”.

Pelas mãos que moldam o barro, pelo forno que derrete, pela areia que abriga e, qual útero, da forma ao corpo, Rosana se multiplica.

“Eu é o outro” – duas gerações e uma autorreflexão sobre a imagem

Mas, meu espanto com a mostra, e minha referências fílmicas não encerraram nessa primazia do corpo e da autorreflexão.

Os dois tomam um eu no meio de muito outros, em especial um ao outro. Quando entrei na Mostra, compreendi os bronzes de Rosana; as pinturas e fotografias/pinturas e as cabeças de Orlando Farias, nosso Lando, que acompanhei, pelo Instagram, sua feitura em terras lusitanas, pelo menos as primeiras. Fui recebido de imediato pela sequencia pop de Rosana e por retratos de Orlando.

“Eu é o outro” – duas gerações e uma autorreflexão sobre a imagem

“Eu é o outro” – duas gerações e uma autorreflexão sobre a imagem

Mas, na medida que fui adentrando a obra de Orlando, o segundo filme do início desse texto me tomou. A um tempo, acompanhando o projeto poético dessas obras apresentadas por Lando, eu tentava compreender algo e toma-las naquilo que eu conhecia de sua obra e de seu fascínio pelo autorretrato. Não no sentido literal dessa linguagem histórica. Lando fala de si de outro modo, na ausência de si mesmo, na maior parte do tempo. Eu acompanhava aquele fazer e me perguntava sobre a estranheza das formas.

“Eu é o outro” – duas gerações e uma autorreflexão sobre a imagem

Mas, no espaço da galeria, com as peças finalizadas e organizadas para que a gente pudesse interagir afetivamente com elas, foi tomado de assalto. O segundo filme me veio à mente. Aquela iconografia dos rostos era uma nova tomada referenciada pelo expressionismo alemão, não por menos, Lando é também videomaker. Os “eu” de Lando parecem atormentados pelos conflitos interiores (não pela irreverência quase irônica de Rosana Paste). Cada persona parece atormentada por angustias e incertezas. Um conflito entre a vontade e a natureza de seu ser.

Qual Nosferatu, de Murnau.

“Eu é o outro” – duas gerações e uma autorreflexão sobre a imagem

“Eu é o outro” – duas gerações e uma autorreflexão sobre a imagem

Parece que cada uma das imagens de Lando são um retrato psicológico de um certo tormento existencial que move um artista tão sensível quanto Orlando da Rosa Faria. Seus rostos são deformados, mais pelos conflitos do interior do que pelas mãos que os moldaram. Refletem uma angústia interna expressa em cada rosto distorcidos e esticados, em ângulos capturados pelo olhar fotográfico do artista.

“Eu é o outro” – duas gerações e uma autorreflexão sobre a imagem

Cada rosto parece ser uma denúncia dos conflitos da contemporaneidade. Do nonsense das políticas, do abandono do Estado do Bem Estar Social; dos modos de sobreviver que não podem ser representados em cores naturais. Cada rosto é como a pintura – alias, Lando é, sobretudo pintor, mesmo quando fotografa ou modela. Mas, há uma angústia nessas obras que nunca vi em outras anteriores.  Na leveza do enquadramento, a quase presença da mão do artista que pintava e fotografava, parece ter cedido lugar à uma pulsão de energia contida que expõe nossas fraquezas e medos.

“Eu é o outro” – duas gerações e uma autorreflexão sobre a imagem

O verde dos meus medos e angústias; os contornos de um interior em conflito com a natureza; o grito contido nos olhos encolhidos, todo parece em desacordo com a estado das coisas… tudo parece ser expresso num rugido silencioso que me acorda em pesadelos e devaneios.

Segui pela mostra. Olhando e tentando entender alguns dos meus “eus”…

Mas, onde os dois artistas se encontram?

Mas, assim que vi em uma parede um desses retratos emoldurando em bronze, logo pensei que está era a obra que nomeava a mostra; EU É O OUTRO. As molduras cemiteriais de Rosana, emoldurando os rostos de Orlando eram como dois falando apenas de um. Como um tomando para si o outro para ser em si e no outro a plenitude de sua própria existência. As duas gerações de artistas capixabas se encontrado como em uma só linguagem.

“Eu é o outro” – duas gerações e uma autorreflexão sobre a imagem

Talvez, na irreverência de uma artista que vê beleza na morte e que ironiza os padrões para reconstruir verdades temporárias se encontre alguma paz para os conflitos internos de uma geração que aprendeu a temer o desconhecido; que viveu a opressão explícita e carrega um medo gerador, em cujo ventre se desenrola um projeto poético de um vigor que se reinventa.

Juntos, um é o outro. Se completam

José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.

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