José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.
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Cais do Hidroavião: um monumento à travessia do Atlântico Sul?

Cais do Hidroavião: um monumento à travessia do Atlântico Sul?

Nessas minhas três décadas de múltiplas vivências na capital capixaba, muitas caminhadas e grandes amigos, fui levado a conhecer e trabalhar com o Bairro de Santo Antônio, inclusive em uma pesquisa sobre arte cemiterial – da qual eu talvez fale em outro momento dessa coluna. Por agora, nesse mês em que tenho dedicado nossa leitura a uma reflexão sobre o “esquecimento” a que alguns dos nossos monumentos têm sido impelidos, fui alvejado pelo Cais do Hidroavião, um marco da nossa história que vem sendo tratado com um descaso que não condiz com a importância do local.

Lembrei disto recordando de partes de minhas experiências como pesquisador em solo português.

Eu estava morando em Lisboa em 2016 e tentando fazer conexões com os estudos sobre monumentos ao longo do nosso litoral e as obras da chamada Costa dos Descobrimentos, que vai de Lisboa até Sagres, de onde as caravelas deixavam de vez o continente europeu. Numa dessas caminhadas exploratórias pelo litoral da capital portuguesa, próximo aos Jerônimos e à Torre de Belém, chamou-me a atenção um monumento que era uma réplica de um avião – que de certo modo me lembrou o 14 Bis, de Santos Dumont. Me aproximei e, para meu espanto, se tratava de uma homenagem à primeira Travessia Atlântico Sul de aeronave; uma empreitada de Gago Coutinho e Sacadura Cabral.

Tirado o fato de que tal travessia ocorreu a partir de 30 de março de 1922, outro fato me intrigou: na rota, eternizada em bronze junto com o monumento, entre as paradas do monomotor FAIREY F III, lá estava Vitória: a nossa capital capixaba foi um ponto de parada na rota dos navegadores portugueses.

Essa primeira travessia do Atlântico Sul foi realizada no contexto das atividades em homenagem ao Primeiro Centenário da Independência do Brasil, tendo a viagem se iniciado em Lisboa em 30 de março de 1922 e se encerrado em 17 de junho, no Rio de Janeiro.

Cais do Hidroavião: um monumento à travessia do Atlântico Sul?

O piloto (Sacadura Cabral) e o navegador (Gago Coutinho) provaram que era possível realizar voos de grande distância com precisão, em especial por causa de equipamentos criados por eles para tal empreitada. Em 17 de junho de 2024, essa travessia completou 100 anos. A comemoração por parte da Força Aérea Portuguesa criou uma analogia entre as naus de 1500 e o pequeno hidravião de Gago Coutinho e Sacadura Cabral.

Cais do Hidroavião: um monumento à travessia do Atlântico Sul?
Representação da carta de navegação para a aventura de Sacadura Cabral e registro dos tempos de viagem em cada etapa. Fonte: https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?tag=sacadura-cabral

Nossa capital, Vitória, foi a última parada dos aventureiros antes de seu destino final no Rio de Janeiro. Estiveram aqui por dois dias, entre 15 e 17 de junho de 2022. Daí, considerando o nosso litoral, fica a pergunta: onde eles desceram aqui? Que local foi exatamente esse cenário histórico?

De imediato, no meio da minha pesquisa em solo português não tive dúvidas em idealizar que a parada aqui tivesse sido no Cais do Hidroavião, no bairro de Santo Antônio. Já conhecia aquele local abandonado praticamente na costa noroeste da capital capixaba. Mas, a ideia de que Sacadura Cabral pudesse ter tomado esse local como um marco histórico dessa travessia, me encantou. Que outro local poderia ter sido?

Busquei evidências que me permitissem ter certeza, mas ao estudar a inauguração do prédio, vi que o projeto do aeroporto era dos anos de 1930 – um pouco posterior à empreitada portuguesa. O local era propício para esse tipo de uso: um grande lago regular, com águas calmas; um rio quase mar. Segundo Álvaro José Silva,

As empresas aéreas do início do século XX usavam hidroaviões que
decolavam e pousavam em mares, rios, lagos, lagoas, etc., e em
Vitória, no bairro de Santo Antônio, era onde funcionava, antes e em seguida paralelamente ao Aeroporto de Vitória, o “hidro posto”
chamado de “Cais do Avião”. Ou aeroporto marítimo. Nele, eram
operadas aeronaves comerciais, inclusive de empresas aéreas
internacionais já não mais existentes. Essa era a época em que
aeroportos terrestres como conhecemos hoje eram raros.

Cais do Hidroavião: um monumento à travessia do Atlântico Sul?
Cais do Hidroavião em funcionamento. Fonte A Gazeta

Por que não, Sacadura Cabral ter descido no local? Ora, tenho insistido na hipótese de que talvez tenha sido este o local, ainda em 1922, que os portugueses desceram, evidenciando que havia condições perfeitas para aterrizarem, sem a necessidade de maiores requisitos que a infraestrutura mínima para pequenos voos – precisamos de estudos mais precisos sobre isto, pois tudo o que encontrei se refere mais especificamente ¡a festa feita no Rio de janeiro por ocasião da chegada dos dois, mas nada ainda encontrei sobre essa chegada deles aqui, ou por que motivo não evidenciamos tal feito. Talvez tenha nascido dessa experiência de 1922, as bases para o primeiro aeroporto de fato da nossa capital. Ainda segundo Silva,

Em 1936, o Governo Federal iniciou a construção naquele local de uma
pequena estação de embarque e desembarque com flutuadores.
Operavam em Vitória naquele ano a Panair do Brasil, o Syndicato
Condor (nacionais) e a Pan American. Esta última, inclusive, na linha
intercontinental Nova York–Buenos Aires com escala técnica (de
reabastecimento) em Vitória. Para os padrões de então, uma linha
épica de um voo que durava quase três dias.

Os estudos não revelam ainda motivo da escolha daquele local para instalar o aeroporto, mas me atrevo a induzir que a experiência portuguesa anos antes foi fundamental para se perceber a viabilidade do local. Talvez esse fato explique do que tenha levado o Cais do Hidroavião ter sido nosso primeiro aeroporto naval. Afinal, as águas da Baia de Santo Antônio são estáveis e propícias para os hidraviões aterrissarem ou decolarem com grande segurança.

Sacadura Cabral e Gago Coutinho parecem ter se aproveitado dessas condições em sua breve passagem por Vitória em sua rota final do trecho Lisboa – Rio de Janeiro. Isto não me invalida a hipótese de que o local pode ter mesmo sido aquele do pouso dos aviadores da Travessia Atlântico Sul, pois, a turbulência do mar capixaba, ou o fluxo de embarcações do canal do porto são elementos suficientes para que aeronautas preferissem a calmaria da baia de Santo Antônio. Na verdade, nem mesmo há dados exatos do porquê do fluxo de aviões em Vitória ter se iniciado com o hidroavião, como Silva apontou, a região foi a escolhida para o primeiro aeroporto de Vitória.

Cais do Hidroavião: um monumento à travessia do Atlântico Sul?
Cais do Avião. Fonte: Álvaro José Silva

Abandonado, segue o local. Não apenas por não ter mais voos no local, mas por não conseguir ser visto como um local de valor memorial na nossa cidade.

Mas como está o Cais do Hidroavião hoje?

Inaugurado em 1939, o Cais do Hidroavião funcionou até o final dos anos de 1940, quando foi desativado.

Depois que o Aeroporto Naval foi desativado, por volta de 1948, ficou
abandonado. Durante o governo de Jones dos
Santos Neves, o flutuante havia se tornado “residência” de prostitutas e desocupados, inclusive com o uso de drogas. O governador pediu então a um dos
construtores da antiga Mauá […] que providenciasse o fim do flutuante.

Inúmeras reportagens na mídia local têm evidenciado, ao longo desses anos, o abandono desse equipamento urbano que faz parte da nossa história. O aeroporto naval foi o principal ponto de apoio para as viagens ao Rio de Janeiro, encurtando distâncias e dando suporte a voos nacionais e internacionais. Diversas autoridades, artistas nacionais e internacionais, políticos e pessoas importantes decolaram ou aterrizaram utilizando essas estruturas.

Muitos estudos de viabilidade social, econômica e turística foram feitos buscando reativar o local como um ponto turístico da capital, mas para isto é necessário mais que uma placa indicando ser um ponto de interesse cultural, ou mesmo chamamentos públicos na forma de editais. Precisamos de uma efetiva política cultural e de educação patrimonial.

Cais do Hidroavião: um monumento à travessia do Atlântico Sul?
No Google, o local aparece como “permanentemente fechado”. Seu uso, relegado.

Nesse espaço já funcionou um restaurante, depois de ser pensado como sede de rádio, de serviços hospitalares e muitos outros. Enfim, o prédio segue abandonado. E o que ele representa em termos históricos e memoriais, segue sendo coberto pelo manto do esquecimento.

Promessas do poder público não encontraram eco nos editais publicados. Nossa memória padece; o corpo do edifício vai sendo corroído pela infiltração, pela humidade. O lixo vai se acumulando aos seus pés. Não basta ter uma sinalização em placas de que se trata de um ponto de referência, é preciso criar estratégias de visibilidade.

Talvez esteja eu aqui, hoje, falando de uma ligação transatlântica. O local mágico dessa união transatlântica. Uma estratégia, um chamamento do olhar para esse equipamento urbano. Talvez falte aqui o mesmo prestígio dado em Portugal e no Rio de Janeiro para esta empreitada que celebrou nossos cem anos de independência de Portugal. Nos duzentos anos, em 2022, o Cais do hidroavião seguiu emudecido.

Talvez, o piloto Sacadura Cabral seja, junto com seu navegador, a personificação daqueles que irão nos guiar em um futuro no qual nossa história não fique relegada a poucos interessados nos fatos que nos constituem. Nós mesmo temos jogado pás de cal sobre nosso patrimônio.

Não apeguemos nossa história!!!

Serviço:

  • SILVA, Álvaro José. O Cais do Avião. Disponível em aqui
  • Sobre a viagem, ver material disponível neste link
José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.

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