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16 de abril de 2024
terça-feira, 16 de abril de 2024
José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.

A Moça com Brinco de Pérola, poderia ser, ou a retomada do retrato na arte contemporânea

A Moça com Brinco de Pérola, poderia ser, ou a retomada do retrato na arte contemporânea

Lembrei da “Moça com Brinco de Pérola” nesse novo mês que se inicia. Nessa sétima coluna, vou me arriscar um pouco pelo campo da crítica de arte. De fato, motivado pela visita à mostra “A Ambivalência dos Limites”, em cartaz na Galeria Matias Brotas, em Vitória. A exposição reúne objetos de Sandro Novaes e pinturas de Thiago Lessa.

Uma mostra bem cuidada, aliás como de hábito naquela galeria. Mas, o que me tomou os olhos e me causou um admirável espanto foram as pinturas, em alguns momentos emolduradas pela obra de Novaes.

A “Moça com Brinco de Pérola” (cerca de 1665), em poucas palavras, é uma pintura do holandês Johannes Vermeer que pode ser considerada uma das mais importantes pinturas da humanidade. Não pela particularidade do tema, nem mesmo pelo alto valor da tinta azul utilizada, ou pela habilidade do artista.

A “Moça com Brinco de Pérola” tem aquele privilégio de se constituir como uma imagem mental forte e faz com que o observador seja seduzido e encantado pelo seu olhar ou mesmo os seus lábios entreabertos, flagrados num instante infinitesimal da captura do olhar. Vermeer captura o instantâneo quase fotográfico num tempo de construção muito maior que o clique de um obturador.

Assim como a Monalisa de Da Vinci, a Moça com Brinco de Pérola cria para si uma atmosfera intimista e, ao mesmo tempo instiga nosso sentido voyeurista. Pensamos, para quem ela olha? Nos colocamos como objeto desse seu ligeiro espanto. Nos colocamos na tela. O retrato – modalidade da pintura tradicional-, deixa de apenas capturar o sujeito da representação; ele passa a criar uma atmosfera que torna a pintura mais que as camadas de tinta que se sucedem até a obra ser terminada.

Quem é a modelo?

Sobre isto pairam séculos de especulações sem que se tenha nenhuma certeza; mas pouco importa quem: o anonimato apenas contribui para a atmosfera de dúvidas e incertezas que criam a força estética e simbólica da obra. Mas, podem estar se perguntando, o por que eu estou gastando tanto tempo com essa tela, uma obra dos tempos áureos desse gênero na pintura? O que isto tem a ver com a arte e a cultura capixaba?

Entra aí o meu espanto ao adentrar a Galeria Matias Brotas no dia 25 de março. Tomado por um corredor alinhavado pela obra de Sandro Novaes, meu olhar foi seduzido e meu corpo conduzido, como que embalado por um canto de sereia.

A Moça com Brinco de Pérola, poderia ser, ou a retomada do retrato na arte contemporânea
Sem título,2024. Thiago Lessa – da Série “Universos oníricos”. Acrílica sobre tela. 100x120cm*

A obra de Thiago Lessa é daquelas que nos espantam. Sua técnica aprimorada; seu pincel quase anônimo nos apresenta um retrato que transita para a pintura realista, mas seu realismo é ficcional. Não lhe interessam os poros da pele (como Thiago mesmo me afirmou), mas a atmosfera. Essa atmosfera, que se repete nos demais retratos da mostra, cria um isolamento da imagem do entorno que a abriga.

De novo, um instante capturado. Um anônimo tomado. Por meio de uma pintura extremamente bem cuidada, com contornos demarcados por uma pincelada que sabe construir o jogo entre luz e sombra, Thiago nos apresenta uma série de mulheres criadas pelo anonimato das redes sociais.

Aliás, da conversa com o artista, descobri que ele não tem modelos em seu ateliê; não tem horas e horas de uma pose que não se move; de um corpo domado a serviço do artista.

Thiago é contemporâneo. Filho da era das redes sociais e do abarrotamento de informações a que somos submetidos diariamente. Volto a citar Marc Augè e seu conceito de sobremodernidade: estamos mergulhados em excessos de informações, de temporalidades justapostas e subjetividades ilhantes. Thiago toma suas mulheres desse oceano sem fim pelo qual navegamos no ciberespaço. Imagens de pessoas reais, virtualizadas e anonimizadas pela própria rede que a faz serem vistas. Capturadas, essas mulheres são exaustivamente trabalhadas, saturadas, expostas a um jogo de luz e sombra que revigora a pintura.

E que mostra que a pintura de retrato ainda tem fôlego.

A pintura vive.

A Moça com Brinco de Pérola, poderia ser, ou a retomada do retrato na arte contemporânea
Thiago Lessa e José Cirillo, observados pela moça logo atrás

Serviço:

*Esta pintura é parte da exposição “Ambivalência dos limites”, de Sandro Novaes e Thiago Lessa, em cartaz na Galeria Matias Brotas, desde 26/03/2024. Confira as informações detalhadas em @matiasbrotasarte

“Moça com Brinco de Pérola”, cerca de 1665, obra do holandês Johannes Vermeer.

José Cirillo
José Cirillo
José Cirillo é doutor em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES,) onde é professor titular e coordenador do Programa de Pós-graduação em Artes. Pós-doutor em Artes pela Universidade de Lisboa. Foi Pró-reitor de Extensão da UFES (2008-2014); Diretor do Centro de Artes (2005-2008). Atua como coordenador do Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes (LEENA), desenvolvendo pesquisas sobre a arte e a cultura capixaba.

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