Existe uma tendência de olhar com desconfiança para todo político que apresenta crescimento patrimonial durante o exercício de um mandato.
Penso que essa análise precisa ser feita com mais racionalidade.
Os cargos políticos, especialmente os de maior relevância no Executivo e no Legislativo, não oferecem apenas a remuneração mensal. Dependendo do cargo e das regras aplicáveis, existe toda uma estrutura pública destinada ao exercício da função: transporte, veículos oficiais, combustível, alimentação em determinadas situações, assistência a saúde, segurança e, para alguns cargos, residência oficial ou funcional, além de outras despesas institucionais.
Isso significa que determinadas despesas que normalmente pesariam sobre o orçamento de qualquer cidadão podem ser parcialmente reduzidas durante o exercício do mandato.
Portanto, o simples fato de um político aumentar seu patrimônio não deveria ser encarado automaticamente como algo suspeito.
Vamos imaginar, apenas para simplificar o raciocínio, uma remuneração de R$ 40 mil mensais durante quatro anos.
São R$ 1,92 milhão de remuneração bruta ao longo de 48 meses.
Evidentemente, esse valor não pode ser confundido com capacidade integral de poupança. Existem impostos, contribuições, despesas familiares e pessoais. Também podem existir rendimentos de investimentos, atividades privadas permitidas, patrimônio anterior, heranças, participação em empresas, valorização de imóveis e inúmeras outras variáveis.
Mas justamente por isso deveríamos abandonar a análise simplista de que “o patrimônio aumentou, portanto há alguma coisa errada”.
O que deve chamar atenção é a incompatibilidade.
Se alguém recebeu determinada renda durante quatro, oito ou doze anos e apresenta crescimento patrimonial coerente com sua capacidade econômica, seus investimentos e sua situação anterior, não há razão lógica para transformar essa evolução, por si só, em acusação.
Da mesma maneira, uma declaração patrimonial praticamente imóvel — ou mesmo uma redução significativa — também merece ser compreendida quando parece incompatível com a realidade econômica daquela pessoa.
Isso não significa presumir irregularidade.
O político pode ter despesas familiares elevadas, dívidas, doações, prejuízos empresariais ou investimentos que perderam valor. Pode simplesmente ter escolhido consumir sua renda em vez de formar patrimônio. Pode ainda ser alguém efetivamente desapegado da acumulação material.
Tudo isso é perfeitamente possível.
Mas a sociedade deveria analisar coerência patrimonial, e não simplesmente crescimento patrimonial.
Sempre considerei uma qualidade saber administrar aquilo que se conquistou legitimamente.
Um administrador público que consegue organizar sua própria vida econômica, poupar, investir e construir patrimônio dentro dos limites de sua renda não deveria ser penalizado politicamente por isso.
Ao contrário: crescimento patrimonial lícito, declarado e compatível com a renda pode ser absolutamente normal.
A pergunta correta, portanto, não deveria ser:
“Quanto esse político aumentou seu patrimônio?”
Deveria ser:
“A evolução do patrimônio é compatível com tudo aquilo que ele legitimamente ganhou, gastou, investiu e possuía?”
E essa pergunta vale nos dois sentidos.
Um patrimônio que cresce muito além da capacidade econômica precisa de explicação.
Mas uma situação patrimonial aparentemente incompatível com anos de rendimentos elevados também pode justificar uma análise mais cuidadosa — sem prejulgamento e sem acusações sem prova.
Não devemos procurar políticos pobres nem políticos ricos.
Devemos procurar políticos transparentes.
Porque patrimônio declarado e coerente é muito mais saudável para a democracia do que patrimônio inexplicável — esteja ele aparecendo ou desaparecendo das declarações.









