O Brasil vive uma contradição preocupante. Ao mesmo tempo em que o país amplia sua produção agrícola, mineral e industrial, continua reduzindo sua capacidade de investir de forma permanente na conservação da infraestrutura responsável pelo escoamento dessa riqueza.
Mais de 60% de toda a carga nacional depende do transporte rodoviário. Mesmo assim, grande parte das rodovias federais e estaduais enfrenta um processo contínuo de deterioração causado pela insuficiência de recursos destinados à manutenção preventiva.
O resultado aparece diariamente nas estradas brasileiras: aumento do custo do frete, desperdício de combustível, desgaste prematuro dos veículos, crescimento dos acidentes e perda de competitividade da economia nacional.
É justamente neste cenário que a Brasinfra vem provocando nacionalmente o debate sobre a necessidade urgente de fortalecimento da CIDE-Combustíveis como instrumento permanente de financiamento da infraestrutura brasileira.
Criada em 2001, a CIDE nasceu com um conceito técnico correto: vincular parte da arrecadação dos combustíveis ao financiamento da infraestrutura de transportes, projetos ambientais e logística nacional.
Segundo estimativas apresentadas pela Brasinfra, a CIDE poderia gerar aproximadamente R$ 18 bilhões anuais para investimentos em infraestrutura caso houvesse a recomposição efetiva de sua arrecadação e destinação.
O debate, entretanto, vai muito além da engenharia e da logística. Trata-se também de uma questão de saúde pública e preservação de vidas.
O Brasil registra anualmente cerca de 30 mil a 35 mil mortes no trânsito, além de centenas de milhares de feridos. Em muitos períodos recentes, o número de mortes em acidentes rodoviários chegou a se aproximar — e, em alguns estados, até superar — os índices anuais de homicídios.
Grande parte dessas ocorrências está associada não apenas ao comportamento dos condutores, mas também às condições da infraestrutura: pavimentos deteriorados, ausência de acostamentos, sinalização deficiente, drenagem precária e baixa capacidade de manutenção da malha viária.
Além da tragédia humana, existe um enorme impacto financeiro sobre o sistema público de saúde. Os acidentes de trânsito geram bilhões de reais em custos hospitalares, reabilitação, afastamentos previdenciários e perda de produtividade econômica.
Leitos hospitalares, UTIs e estruturas públicas passam diariamente a absorver consequências diretas da falta de investimento contínuo em segurança viária e manutenção rodoviária.
No Espírito Santo, por exemplo, estimativas técnicas indicam que seriam necessários aproximadamente R$ 240 milhões por ano apenas para garantir uma manutenção mínima adequada da malha rodoviária estadual.
Esse valor representa um desafio relevante para o orçamento público. Com uma CIDE efetivamente fortalecida e vinculada à infraestrutura, parte significativa desses recursos poderia ser suprida por uma fonte permanente nacional, permitindo que o Estado direcionasse mais investimentos para saúde, educação, segurança pública e novos projetos estruturantes.
A engenharia rodoviária já demonstrou há décadas que manutenção preventiva custa muito menos do que reconstrução emergencial. Um pavimento não colapsa de forma instantânea — ele apresenta sinais progressivos de fadiga. Quando o poder público perde capacidade financeira de agir preventivamente, entra-se em um ciclo extremamente caro de recuperação.
Em muitos casos, o custo de reconstrução pode ser várias vezes superior ao custo necessário para manter adequadamente a rodovia ao longo do tempo.
Defender a retomada da CIDE não é apenas discutir arrecadação ou tributação. É discutir competitividade econômica, planejamento de longo prazo, redução de acidentes, preservação de vidas e eficiência do gasto público.
O Brasil precisa voltar a tratar infraestrutura como política permanente de Estado. Sem fontes estáveis de financiamento, continuaremos convivendo com o crescimento silencioso do déficit de manutenção das rodovias — um problema que impacta diretamente a economia, a saúde pública e a segurança da população.









