José Carlos Chamon
José Carlos Chamon
José Carlos Chamon é empresário do setor de infraestrutura, sócio da RDJ Engenharia, membro do Conselho de Infraestrutura da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) e Brasinfra – Entidade Nacional da Infraestrutura
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

CIDE: investir na manutenção hoje para salvar vidas amanhã

O Brasil vive uma contradição preocupante. Ao mesmo tempo em que o país amplia sua produção agrícola, mineral e industrial, continua reduzindo sua capacidade de investir de forma permanente na conservação da infraestrutura responsável pelo escoamento dessa riqueza.

Mais de 60% de toda a carga nacional depende do transporte rodoviário. Mesmo assim, grande parte das rodovias federais e estaduais enfrenta um processo contínuo de deterioração causado pela insuficiência de recursos destinados à manutenção preventiva.

O resultado aparece diariamente nas estradas brasileiras: aumento do custo do frete, desperdício de combustível, desgaste prematuro dos veículos, crescimento dos acidentes e perda de competitividade da economia nacional.

É justamente neste cenário que a Brasinfra vem provocando nacionalmente o debate sobre a necessidade urgente de fortalecimento da CIDE-Combustíveis como instrumento permanente de financiamento da infraestrutura brasileira.

Criada em 2001, a CIDE nasceu com um conceito técnico correto: vincular parte da arrecadação dos combustíveis ao financiamento da infraestrutura de transportes, projetos ambientais e logística nacional.

Segundo estimativas apresentadas pela Brasinfra, a CIDE poderia gerar aproximadamente R$ 18 bilhões anuais para investimentos em infraestrutura caso houvesse a recomposição efetiva de sua arrecadação e destinação.

O debate, entretanto, vai muito além da engenharia e da logística. Trata-se também de uma questão de saúde pública e preservação de vidas.

O Brasil registra anualmente cerca de 30 mil a 35 mil mortes no trânsito, além de centenas de milhares de feridos. Em muitos períodos recentes, o número de mortes em acidentes rodoviários chegou a se aproximar — e, em alguns estados, até superar — os índices anuais de homicídios.

Grande parte dessas ocorrências está associada não apenas ao comportamento dos condutores, mas também às condições da infraestrutura: pavimentos deteriorados, ausência de acostamentos, sinalização deficiente, drenagem precária e baixa capacidade de manutenção da malha viária.

Além da tragédia humana, existe um enorme impacto financeiro sobre o sistema público de saúde. Os acidentes de trânsito geram bilhões de reais em custos hospitalares, reabilitação, afastamentos previdenciários e perda de produtividade econômica.

Leitos hospitalares, UTIs e estruturas públicas passam diariamente a absorver consequências diretas da falta de investimento contínuo em segurança viária e manutenção rodoviária.

No Espírito Santo, por exemplo, estimativas técnicas indicam que seriam necessários aproximadamente R$ 240 milhões por ano apenas para garantir uma manutenção mínima adequada da malha rodoviária estadual.

Esse valor representa um desafio relevante para o orçamento público. Com uma CIDE efetivamente fortalecida e vinculada à infraestrutura, parte significativa desses recursos poderia ser suprida por uma fonte permanente nacional, permitindo que o Estado direcionasse mais investimentos para saúde, educação, segurança pública e novos projetos estruturantes.

A engenharia rodoviária já demonstrou há décadas que manutenção preventiva custa muito menos do que reconstrução emergencial. Um pavimento não colapsa de forma instantânea — ele apresenta sinais progressivos de fadiga. Quando o poder público perde capacidade financeira de agir preventivamente, entra-se em um ciclo extremamente caro de recuperação.

Em muitos casos, o custo de reconstrução pode ser várias vezes superior ao custo necessário para manter adequadamente a rodovia ao longo do tempo.

Defender a retomada da CIDE não é apenas discutir arrecadação ou tributação. É discutir competitividade econômica, planejamento de longo prazo, redução de acidentes, preservação de vidas e eficiência do gasto público.

O Brasil precisa voltar a tratar infraestrutura como política permanente de Estado. Sem fontes estáveis de financiamento, continuaremos convivendo com o crescimento silencioso do déficit de manutenção das rodovias — um problema que impacta diretamente a economia, a saúde pública e a segurança da população.

José Carlos Chamon
José Carlos Chamon
José Carlos Chamon é empresário do setor de infraestrutura, sócio da RDJ Engenharia, membro do Conselho de Infraestrutura da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) e Brasinfra – Entidade Nacional da Infraestrutura

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas

[the_ad_group id="63695"]