Cada época histórica tem um formato de comunicação, tem um veículo que encarna os humores de seu tempo. Quando a República se instalou no Brasil, ela foi produto de uma trajetória de socialização das suas ideias centrais, o chamado republicanismo. Nada se instala em uma determinada sociedade se não tiver a adesão de importantes contingentes de sua população, sobretudo de seus formadores de opinião. Foram os jornais os grandes veículos de propagação da nossa república.
Aqui, no Espírito Santo, o maior líder da fase inicial da República foi, sem dúvida, Muniz Freire, o nosso primeiro presidente eleito, em 1892. Ele foi um jornalista brilhante, um homem de grandes ideias e um propulsor do progresso a partir das nossas bases econômicas cafeeiras. Seus artigos em A Província do Espírito Santo e, depois, em O Estado do Espírito Santo incendiavam seus leitores. Sem a imprensa escrita, sem as inúmeras tipografias e jornais no território capixaba, não teríamos uma República popular e capaz de implantar mais progresso entre nós.
Assim, os jornais foram os veículos fundamentais na propaganda republicana e na construção do consenso necessário à ação política dos nossos primeiros líderes dessa fase. Claro que havia reuniões, encontros, discussões partidárias, mas eram os jornais que circulavam nos vários municípios que davam a densidade política necessária ao novo regime.
A passagem da política mais elitista para uma base de massas se deu nas décadas seguintes através do rádio, sobretudo nos anos 1930. O primeiro grande líder mundial que se construiu no rádio foi Hitler. O nazismo usou e abusou das grandes manifestações feitas através de alto-falantes, do rádio e do cinema. Assim, uma nova base tecnológica permitiu a massificação dos grandes encontros eleitorais e da ratificação de uma ideologia que envolvia milhões de pessoas.
No Brasil, Getúlio Vargas usou com maestria os novos instrumentos de divulgação de seus ideais trabalhistas e o apoio popular aos seus governos. Criou a Rádio Nacional, o programa A Voz do Brasil, de transmissão obrigatória, e transformou o samba no ritmo nacional. Podemos dizer, com alguma dose de exagero, que Vargas reinventou o Brasil do século XX. O rádio, o cinema, os grandes encontros naquele que era o maior estádio brasileiro da época, São Januário, todos os instrumentos para fazer do trabalhismo uma marca política foram usados. No Espírito Santo, uma das maiores marcas dessa época foi o Estádio Governador Bley, em Jucutuquara, do Rio Branco, que era o terceiro maior do Brasil, palco, igualmente, de grandes manifestações trabalhistas.
Um enorme avanço na capacidade de comunicação de massa. O rádio teve vida longa no âmbito da política. No Espírito Santo, um grande comunicador nesse campo foi Solon Borges Marques com a sua oração da Ave Maria, dita às 18h, hora do Ângelus, e o Acorda Trabalhador, programa matinal das 06h. Em ambos, exercitou uma popularidade que o fez prefeito de Vitória e, depois, de Vila Velha, nos anos 1960 e 1970.
Entretanto, a mais vitoriosa voz do rádio capixaba foi Gerson Camata: vereador em Vitória em 1966, a partir da enorme popularidade de seu programa policial, chamado Ronda Policial, que eletrizava as massas. Foi depois deputado estadual, federal, governador do Estado e senador da república. Camata nada seria sem a popularidade que lhe deu sua participação radiofônica. Tivemos outros grandes fenômenos políticos saindo da onda do rádio como Antário Filho.
A ditatura militar imobilizou o progresso dos meios de comunicação durante muitos anos. A famigerada Lei Falcão impôs uma rígida censura ao marketing eleitoral, e a televisão só entrou no processo com força em 1989, com a eleição de Collor. Foi a primeira vez que ela protagonizou uma eleição nacional. No nosso Estado, a genialidade de Bete Rodrigues produziu a campanha de Albuíno Azeredo, eleito governador em 1990.
Faço aqui um tributo à generosa criatividade de Bete Rodrigues, maior dos nossos personagens da comunicação política, das campanhas eleitorais. Ela personificou como poucos um momento do marketing político brasileiro em nosso estado. Reinou durante décadas, até a sua morte precoce, há alguns anos. Conseguiu fatos memoráveis em campanhas eletrizantes, elegeu vários governadores e fechou um ciclo, encerrado pela presença das redes sociais nas campanhas eleitorais.









