Na segunda-feira o despertador tocou na mesma hora. O pão da padaria da esquina custava o mesmo que custava na sexta, o boleto do condomínio venceu no dia em que sempre vence, o chefe continuou sendo o mesmo chefe, o joelho continuou doendo do mesmo lado, e a mulher do padeiro — que, segundo consta no bairro, votou no outro — embrulhou o pão com o mesmo cuidado de sempre, posto que pão não tem partido e fome não espera apuração.
Domingo houve eleição. O candidato de uns ganhou, o de outros perdeu, e isso, considerada a moldura legal e social do país com a lucidez desapaixonada que o assunto raramente recebe, é imutável. E daí?
Passados o júbilo e o luto, os gritos animados de um lado e os histéricos do outro — a distribuição varia conforme o resultado —, o que resta? Restam compromissos, rotinas, boletos, projetos, sonhos e circunstâncias que ficaram encapsulados nesse hiato de contemplação, de expectativas, de ruídos e de dedos em riste, recíprocos. Restam também as acusações, quase sempre exacerbadas, de uns contra outros e de outros contra uns, imputando a cada um, individualmente, efeitos e resultados que são coletivos, multitudinários, e que um só, ou outro, não poderia ter feito diferentes, melhores ou piores, exatamente porque a cada um só cabia a sua escolha.
E essa escolha, certa ou errada, não foi — embora muitos jurem que sim — fruto dos segundos passados diante do botão, como se estivéssemos na frente de um micro-ondas e as opções fossem ligar ou desligar. Foram anos, às vezes décadas, de experiências, dores, amores, êxtases e decepções acumuladas, resolvidas, entendidas ou, na maior parte das vezes, não entendidas, antes, durante e principalmente depois. O que faz fulano votar em beltrano e rejeitar sicrano, ou o contrário? O que faz alguém decretar santo ou pecador por fatos que não conhece, por impressões de terceiros, por situações que jamais domina? E, santo ou pecador o eleito, santo ou pecador o defenestrado, o que isso muda na estreita moldura da vida de cada um?
Pão não tem partido. Joelho tampouco.
É sensato que duas pessoas se matem porque, do outro lado do muro, outras duas brigam por assuntos que são só delas — ou que são de todos, mas os tais todos só são chamados a opinar de quatro em quatro anos? É sensato que gente que convive há décadas, fruto da mesma árvore ou de árvores vizinhas do mesmo quintal, se contamine porque em quintais longínquos outros frutos, desconhecidos, resolveram digladiar-se por questões que pouco tocam o pequeno quinhão de terra que cada fruto recebe ao cair do galho?
Talvez precisássemos de outro sistema de escolha, algo entre o distópico e o utópico. Funcionaria assim: no primeiro turno, cada um votaria no candidato que detesta, que repele, que lhe causaria vômito se chegasse ao segundo turno. Apurado o ódio, sairiam do páreo os mais rejeitados, e só então os sobreviventes — já abençoados, ou ao menos esquecidos, por oitenta ou noventa por cento dos eleitores — disputariam o cargo apresentando as próprias qualidades e os próprios programas, sem gastar um centavo público (ou particular, pelas entrelinhas) para xingar o adversário, visto que os defeitos de todos já teriam sido inventariados na rodada anterior. Pouparia tempo e dinheiro, porque convencer pelo ódio custa sempre mais caro do que convencer pela estima — às vezes custa até convencer a si mesmo de que o amor até ali cultivado foi um erro. E as discussões do dia seguinte se dariam na base do “meu candidato é ainda melhor que o seu, que era ótimo”.
Compreende-se a objeção: um sistema desses premiaria o inofensivo, o sujeito de quem ninguém se lembra, nem para o bem nem para o mal. Pode ser. Mas convém perguntar se um presidente de quem ninguém se lembra com ódio é pior do que um presidente de quem metade do país não consegue se esquecer. Toda brincadeira tem um fundo de verdade; por que esta não mereceria ao menos um instante de alentosa reflexão?
Vivemos num mundo que recebemos de graça — bênção divina para muitos, feliz coincidência da natureza para outros tantos — e esquecemos a nossa miserável, temporária, boçal condição humana: a finitude, a curta existência, a colossal ignorância em relação a, pelo menos, 99,99999% dos elementos, fatos e coisas que nos cercam (e o percentual sobe quando se trata das coisas que cercam o outro, ainda que esse outro durma a centímetros de nós há anos). Exigimos foguetes e luzes, aplausos e medalhas por qualquer prosaico pum próprio, e acionamos como sujo, errado, despropositado, insensato tudo o que sai ou vem do próximo, exclusivamente porque pensado, urdido ou produzido por outro alguém que não nós. E caímos na armadilha retórica mais fantástica que o homem já produziu para isentar-se das desgraças que ele mesmo cria e alimenta: o demônio, caricatura ao mesmo tempo maravilhosa e ridícula, feita sob medida para terceirizarmos nossas mazelas. Há um velho provérbio que ensina: quer ver Deus rir até dobrar-se sobre Si mesmo? Conte-Lhe os seus planos.
Dois, três, quatro dias ou semanas depois da apuração, o que aquilo ali causou, ou pode causar, a cada um de nós, na exata medida das nossas mediocridades? Um emprego mantido ou conseguido — por quanto tempo? Um emprego perdido ou abreviado — por quanto tempo? Um favorecimento aqui ou ali, tão durável quanto a nova paixão que inevitavelmente aparece? A satisfação de ter “ganho”, por interposta pessoa, uma disputa que deveria ser coletiva e termina sempre individual, em gozos e lágrimas, proveitos e lamúrias?
Já o ódio fermentado pelo vizinho que escolheu o outro, respondido pelo nosso ódio por ele ter escolhido o outro, esse avança rápido, contagioso e, sobretudo, inútil — porque não altera o que houve nem influencia o que haverá. Minutos depois dos fatos, já não somos quem éramos quando eles aconteceram; mudaram os cenários, os ventos, as coisas do mundo e as coisas de nós mesmos, e nos descobrimos (já é uma bênção descobrir) outra vez perdidos entre conjecturas de que não conhecemos a superfície, hipóteses que não dominamos e julgamentos que não sabemos fazer nem sobre nós mesmos — e olhe que nos conhecemos bem, quando nos avaliamos com honestidade intelectual. E gastamos tempo valioso, jogado no lixo, esputando sobre tudo e sobre todos, ou tentando eternizar uma graça efêmera que durou alguns instantes e, gostemos ou não, mudará de mãos, rapidamente, fora do nosso controle.
A urna fechou em segundos. A vida não tem botão.
Por isso o convite deste título não vai para o eleito nem para o derrotado, que já têm quem os convide. Vai para uma única pessoa: a que está lendo esta linha. Há uma eleição em que o leitor é, ao mesmo tempo, o único eleitor e o único candidato — a que decide quem ele será amanhã diante do padeiro que votou no outro, do cunhado que postou a bobagem, do amigo de trinta anos que emudeceu no grupo da família. Nessa não há segundo turno nem recontagem, e a apuração é diária. Este convite tem um só destinatário, e a festa começa amanhã cedo, na padaria. Vote com bom senso. É a única eleição em que o resultado muda, de fato, a sua vida.








