Albert Einstein, todos sabem, foi o maior cérebro do século vinte — o homem que dobrou o espaço, encurvou o tempo, espantou a física de Newton do trono em que ela dormia havia duzentos anos, e ainda achou tempo para se tornar, com aquele cabelo em desalinho permanente e a língua de fora na fotografia célebre, o retrato universal do próprio conceito de gênio. A ele, portanto, atribui-se tudo o que soa inteligente, e entre as muitas pérolas que carrega no colar há uma que o leitor decerto conhece de cor, porque mora nas canecas, nos pôsteres de escritório e nas palestras motivacionais que cobram caro para repetir o que a caneca diz de graça: loucura é fazer sempre a mesma coisa — e repetir, e repetir, e repetir — esperando alcançar resultado diferente.
Pois detalhe que a história registra, mas que a indústria da frase de efeito prefere omitir: Einstein nunca disse isso.
Quem procurou nos escritos dele não encontrou rastro. A origem verdadeira é de uma modéstia comovente — um panfleto dos Narcóticos Anônimos, de 1981 —, e de lá a sentença foi rodando o mundo até que alguém a pendurou no cabide mais ilustre que encontrou, posto que frase órfã sempre acaba adotada pelo pai mais famoso.
E aqui mora uma ironia de rara qualidade: há mais de quarenta anos a humanidade repete a mesma atribuição errada esperando que, de tanto repetida, ela se torne verdadeira. A frase sobre a insensatez de repetir tornou-se, ela própria, a mais bem-acabada demonstração do que denuncia.
O vício, convenhamos, é nosso, e antigo. Toda academia de ginástica conhece o fenômeno das marés: em janeiro as esteiras lotam, as matrículas explodem, os armários disputam-se a cotovelo, e chegado março o salão devolve-se ao seu vazio habitual, restando as mensalidades em débito automático como lápides discretas de promessas que ninguém veio visitar. O sujeito que desertou em março é rigorosamente o mesmo que se rematrícula no janeiro seguinte, com o mesmo entusiasmo, o tênis novo e a convicção de que dessa vez vai — dessa vez vai mesmo —, sem que nada tenha mudado entre uma tentativa e a seguinte, salvo a cor do tênis.
E o que dizer do fumante que promete parar a cada réveillon, e a cada réveillon acende o cigarro da promessa; do casal que briga pela mesma razão há vinte anos e se espanta, a cada rodada, com a persistência do desfecho; do devedor que refinancia a dívida com a mesma alegria com que contraiu a original. Todos praticamos, no miúdo da vida, essa esperança curiosa de que a realidade um dia se distraia e entregue resultado novo a esforço velho.
Não é loucura: é preguiça com fantasia de fé.
Agora transportemos o raciocínio para a vida pública, onde aquilo que no particular é fraqueza de cada um ganha foros de projeto coletivo. De quatro em quatro anos comparece o eleitor à urna com a solenidade de quem inaugura uma era, e nela deposita — com variações de nome e de número, meramente cenográficas — a mesma espécie de promessa, o mesmo gênero de promessente e a mesma expectativa de que dessa vez vai. Depois passa os quatro anos seguintes exercendo a indignação, que é o nosso esporte nacional de maior tradição e menor gasto calórico, até que o calendário o convoque novamente para o rito, ao qual comparecerá — num curioso automatismo quase bovino — renovado, esperançoso e rigorosamente igual.
Outubro, aliás, já se avizinha, e com ele a temporada de rematrículas.
Compreende-se, claro, a nobreza que habita o gesto: a esperança é virtude, e não se prega aqui o cinismo de quem desistiu. Mas há uma diferença colossal entre esperar e esperar sentado — entre a esperança que muda a própria conduta, cobra, fiscaliza, compara promessa com entrega e memória com marketing, e a esperança que apenas terceiriza o resultado, delegando ao acaso o trabalho que a atenção se recusou a fazer. A primeira é virtude; a segunda é a mensalidade da academia debitando em silêncio.
Einstein, que não disse a frase, disse outras — e trabalhou nelas.
Talvez seja esse, no fim das contas, o único aproveitamento honesto da sentença apócrifa: não como diagnóstico de loucura alheia, que é o uso que todos lhe damos, apontando-a generosamente para o vizinho, mas como espelho de bolso. Porque o resultado diferente não tem nada de misterioso: comparece, dócil e obediente, sempre que alguém se dispõe a fazer diferente a mesma coisa. Enquanto não nos dispomos, seguimos rezando a oração ao contrário — a loucura nossa de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas repetições assim como repetimos os que nos governam, e não nos deixeis cair na tentação de mudar.
Amém, e até outubro. Dessa vez vai.









