ou: notas sobre aquele que foi colecionando sonhos em forma de objetos
e descobriu, tarde demais, que os objetos nunca souberam disso
Há uma espécie de pessoa — mais comum do que a estatística oficializa, porque a estatística não tem prateleiras — que descobriu, em algum momento da vida cujo endereço ninguém consegue precisar, que a felicidade tem prazo de entrega. Que ela vem embalada. Que o problema de não ser feliz agora é, fundamentalmente, um problema logístico.
Essa pessoa não é desordenada por vocação nem acumuladora por malícia. Ela é, antes de tudo, alguém que aprendeu a adiar com método, e que transformou o adiamento em sistema, e que fez do sistema uma decoração, e que agora não sabe muito bem onde termina ela e onde começam as coisas.
O mecanismo é simples e é humano até a medula: o sonho, que é coisa leve e sem forma e às vezes inconveniente de carregar, precisa de um substituto tangível. Então o sonho de paz vira um jogo de chá comprado numa feira que a pessoa visitou uma vez e nunca mais voltou. O sonho de culinária elaborada vira uma panela de ferro fundido, pesada, vistosa, importada, que ainda está na caixa. O sonho de leitura vira uma estante de livros organizados por cor — que é uma forma de relacionamento com a literatura que a literatura preferiria não ter.
E o esquema funciona, no começo. Funciona porque a antecipação é quase tão satisfatória quanto a realização — às vezes mais, porque a antecipação não decepciona. O objeto chega, há um lampejo de alegria que dura o tempo exato da desembalagem, e então ele vai para a prateleira, onde espera como os sonhos esperavam antes dele, só que agora a espera tem endereço e código de barras.
A coleção cresce. As prateleiras se multiplicam. A gaveta dos objetos especiais para as ocasiões especiais está tão cheia que a ocasião especial, quando aparecer, não vai caber.
O problema nunca foi a panela. A panela não tem culpa das expectativas que lhe foram atribuídas sem o seu consentimento. O problema é que ela foi comprada no lugar de uma decisão — no lugar de um curso, de uma tarde livre, de uma tentativa que poderia ter dado errado, mas pelo menos teria sido uma tentativa. Comprar é mais fácil do que fazer. Ter é mais seguro do que tentar. E o objeto testemunha melhor do que a experiência, que não cabe no enquadramento.
O que essa pessoa acumula, portanto, não são objetos. São procurações. Representantes dos sonhos que não compareceram à reunião. Porta-vozes de uma vida prometida para depois — depois de quando eu tiver tal coisa, depois de quando eu completar tal coleção, depois de quando eu encontrar a xícara que faltava no jogo dos sonhos que ainda não foram tomados.
E chega o dia — não sempre, não para todos, mas para os que têm a coragem ou o azar de olhar — em que a pessoa se vê no meio das coisas e percebe que o quarto ficou pequeno, e a vida também, e que as prateleiras estão ocupadas, mas o espaço onde a vida deveria ter acontecido está, curiosamente, vazio. Não vazio de objetos. Vazio de acontecimentos.
O antídoto não é jogar tudo fora — embora uma faxina às vezes clarifique o pensamento com uma eficiência que a meditação não garante. O antídoto é reconhecer que o objeto nunca foi o sonho. Que o sonho era o sonho. E que ele continua esperando, um pouco empoeirado, atrás da panela que ainda está na caixa.
Ele pode esperar. Os sonhos são pacientes.
O problema é que nós não somos.









