Junho é marcado pela campanha Junho Violeta, um movimento de conscientização sobre a violência contra a pessoa idosa. A iniciativa chama a atenção para diferentes formas de agressão que afetam milhões de idosos em todo o mundo, desde a violência física e financeira até o abandono e a negligência.
Mas existe uma forma de violência silenciosa, frequentemente praticada dentro de casa e até mesmo por familiares bem-intencionados, que raramente é reconhecida como tal: a perda da autonomia provocada pela infantilização da pessoa idosa.
Quem nunca ouviu ou disse frases como “deixa que eu resolvo”, “você não precisa se preocupar com isso” ou “é melhor eu decidir por você”? Embora muitas vezes sejam motivadas pelo carinho e pelo desejo de proteger, essas atitudes podem transmitir uma mensagem perigosa: a de que aquela pessoa já não é capaz de conduzir a própria vida.
O envelhecimento não transforma ninguém em criança. Uma pessoa pode precisar de apoio em determinadas atividades e, ainda assim, manter sua capacidade de opinar, escolher, decidir e participar ativamente das questões que dizem respeito à sua própria existência. Quando familiares passam a tomar todas as decisões, sem ouvir ou consultar o idoso, acabam retirando algo fundamental para a saúde mental: o senso de autonomia.
A autonomia é um dos pilares do envelhecimento saudável. Sentir-se útil, respeitado e capaz de influenciar os rumos da própria vida contribui para a autoestima, fortalece a identidade e ajuda a preservar o bem-estar emocional. Em contrapartida, quando o idoso é constantemente excluído das decisões, pode surgir um sentimento de inutilidade, dependência e perda de propósito.
Na prática clínica, é comum observar idosos que sofrem não por falta de cuidados, mas por falta de escuta. Pessoas que têm suas opiniões ignoradas, suas preferências desconsideradas e seus desejos substituídos pelas escolhas de terceiros. Aos poucos, esse processo pode favorecer o isolamento social, aumentar sintomas de ansiedade e depressão e comprometer até mesmo a disposição para manter uma vida ativa.
É claro que existem situações em que doenças neurológicas ou transtornos cognitivos exigem maior supervisão e apoio familiar. Ainda assim, sempre que possível, a participação do idoso nas decisões deve ser preservada. O respeito à sua história, aos seus valores e às suas escolhas continua sendo essencial.
Neste Junho Violeta, vale refletir sobre a forma como nos relacionamos com aqueles que envelheceram. Proteger é importante. Cuidar é indispensável. Mas cuidar não significa substituir. Muitas vezes, o maior gesto de respeito é permitir que a pessoa continue exercendo seu direito de decidir sobre a própria vida.
Antes de dizer “deixa que eu resolvo”, talvez seja mais gentil perguntar: “Como você gostaria de fazer?”.
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