Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV
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O Brasil sempre espera um salvador – e fica furioso quando ele chega

ou: breves anotações sobre um povo que confunde esperança com procuração em branco

Existe no brasileiro uma fé antiga, resistente a vacinas, a decepções e a qualquer evidência contrária, a fé de que em algum momento, em alguma convocação, em alguma eleição, em alguma reunião de condomínio, surgirá finalmente o Escolhido, aquele que virá resolver o que nós próprios produzimos com uma competência que nos envergonharia se tivéssemos o costume de nos envergonhar, e a partir daí tudo se arrumará sozinho, como por milagre, o que de resto não é coincidência, já que a teologia está na raiz do problema.

Dom Sebastião, que era português e morreu no deserto africano sem deixar herdeiros nem endereço de retorno, assombra o Brasil com uma lealdade que o Brasil nunca mereceu, porque o que os portugueses trouxeram nas caravelas junto com a língua e a sífilis foi também essa vocação para aguardar o impossível com a seriedade de quem está cumprindo uma obrigação contratual, e nós, que somos um povo criativo, não nos limitamos a aguardar — nós fabricamos o Escolhido antes que ele apareça, nós lhe costuramos o manto, nós lhe depositamos sobre os ombros o peso de todos os nossos fracassos anteriores e de todos os nossos descuidos futuros, e depois aguardamos, com os braços cruzados e o coração levemente fechado, para ver se ele aguenta.

O jovem Endrick, que tem dezenove anos e a ingenuidade de quem ainda não percebeu completamente onde foi parar, carrega agora sobre as chuteiras o peso de um país que já sabe de antemão como vai usar seu nome, não importa o que aconteça, e a prova disso chegou no dia 13 de junho, quando o Brasil empatou com o Marrocos em Nova York por um a um e Endrick assistiu a tudo do banco de reservas, e antes mesmo do apito final as redes sociais já tinham decretado que Ancelotti o estava boicotando, que era um crime de lesa-pátria mantê-lo fora de campo, que o resultado morno tinha explicação simples e pessoal, e que a salvação do hexacampeonato estava apodrecendo no banco, ignorada por um técnico italiano que evidentemente não entendia o Brasil, como se entender o Brasil fosse um requisito técnico para ganhar jogos de futebol, e não exatamente o contrário.

O mecanismo é perfeito na sua circularidade: se o técnico não o escalar e o Brasil perder, a culpa é de quem deixou o iluminado à míngua; se o técnico o escalar e o Brasil perder, a culpa é de quem atirou um menino às feras; e se o Brasil ganhar sem que Endrick faça nada decisivo, o assunto mudará de endereço rapidamente, porque o brasileiro tem uma relação muito prática com a gratidão, que é a de exercê-la o mais brevemente possível para não criar vícios.

Mas seria injusto limitar esta observação ao futebol, que é apenas o teatro onde o fenômeno se apresenta com figurino mais colorido, porque o mesmo mecanismo governa a política, onde a cada eleição emerge um nome ao redor do qual se projeta a salvação definitiva da república, do meio ambiente, da educação, da segurança pública e eventualmente do trânsito de Vitória, e o eleito chega ao cargo carregando expectativas que nem Deus, com toda a sua onipotência, conseguiria satisfazer dentro de um mandato de quatro anos sujeito ao Congresso Nacional, e então o processo se inverte com a mesma velocidade com que um torcedor muda de camisa, e o Escolhido de ontem se torna o traidor de hoje, sem que ninguém mencione que foi a própria escolha que estava errada desde o começo, porque o problema nunca foi o Salvador, o problema foi a necessidade do Salvador.

O mesmo ocorre nas empresas, onde se contrata o novo gerente como se ele fosse reorganizar em noventa dias o que levou dez anos para se deteriorar, e nas igrejas, onde o novo pastor promete prosperidade com uma convicção que dispensa balanço patrimonial, e nas escolas, onde o professor do ano receberá eventualmente a culpa pelo desempenho de uma geração que não lê, não estuda e não dorme na hora certa porque o celular foi inventado por pessoas que também precisavam de alguém em quem acreditar.

A questão, que merece ser posta com a frieza que o assunto exige, é a seguinte: um povo que terceiriza sua esperança nunca precisará terceirizar sua culpa, porque as duas já vêm no mesmo pacote, e o pacote chega sempre com frete grátis e prazo de entrega que não compromete ninguém.

O Endrick, se tiver juízo, aprenderá isso antes do segundo jogo.

Nós, infelizmente, já passamos da idade de aprender.

Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV

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