Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV
A opinião dos colunistas é de inteira responsabilidade de cada um deles e não reflete a posição de ES Hoje

Jogo de guerra

Lembro do filme de título homônimo, produção americana de 1983, estrelada pelo ator Mathew Broderick, que representava um estudante aficionado por informática, que usava seu computador (naqueles tempos um caixote com memória que hoje qualquer forno de micro-ondas supera com facilidade) para invadir sistemas e fazer “traquinagens”, e outras em tanto, como alterar as notas das provas de sua turma, na escola onde estudava. O ápice desse filme se dá quando o garoto, acidentalmente, invade um complexo sistema de defesa do país, aciona uma espécie de protocolo de simulação de lançamento de misseis e o “programa” entende como desafio, deflagrando um processo que poderá desencadear uma guerra nuclear entre os EUA e a União Soviética.

Eram tempos “estertores” da chamada “Guerra-Fria”, com americanos e soviéticos disputando o protagonismo global, e a mensagem que segue ao final-feliz da trama é “que uma guerra nuclear não pode ser vencida por ninguém, já que conduziria a humanidade à extinção”. Daqueles tempos para o dia de hoje, muitas coisas aconteceram, algumas horrendas, outras fantásticas, mas persiste no homem a natural propensão para o conflito, a violência, a disputa fratricida, com trilhões de dólares sendo gastos anualmente para aperfeiçoar, “ad infinutum”, a capacidade destrutiva de armas, a tecnologia que as transforma em invisíveis, e a velocidade com que chegam causando dor e morte.

Sem pretender fazer qualquer abordagem sobre a “guerra de ocasião” (refiro-me ao conflito entre os EUA e Israel, de um lado, e o Irã, de outro) – até porque incontáveis são os podcasts, programas e especialistas dedicados a isso -, resolvi refletir sobre esses componentes inatos da alma humana, os jogos, não aqueles que envolvem esforços preponderantemente físicos, como futebol e outros, mas os chamados “intelectuais”, que exercitam memória, raciocínio e, para o texto em tela, estratégia. Eles existem aos milhares, há milhares de anos, têm milhões de praticantes espalhados por todo o planeta, e, por diversas razões (culturais, étnicas, ambientais, sociais etc) alguns são adorados e cotidianos em alguns países e outros não, muitas vezes sendo estimulados (ou tolerados) em escolas infantis, ambientes sociais e familiares, empresas e academias militares porque ajudam a formar determinado tipo de comportamento visto como fundamental ao desenvolvimento de habilidades em diversos setores e segmentos de nossas vidas.

Destaco, ainda, que a complexidade maior ou menor desses jogos não são fatores relevantes para sua adoção, nem tampouco par medirmos o grau de influência deles sobre a sociedade, como tal podendo ser lembrado o “nosso” Jogo do Bicho, que foi inventado no Rio de Janeiro, em 1892, pelo fundador do Zoológico, no propósito de aumentar a arrecadação e superar dificuldades financeiras que ameaçavam fechar aquele local. Da pueril simplicidade inicial, esse jogo ganhou-rua, caiu no gosto popular e, hoje, alterna os que veem nele um patrimônio cultural brasileiro, com os que o considerem vetor e motor da criminalidade.

Posto isso – e preservando a ideia central dessa abordagem, qual seja o aspecto estratégico que povoa esses jogos – listo três que, adiante veremos, representam muito mais do que simples atividade lúdica e que servem para entendermos algumas características, hábitos e mentalidade das três sociedades onde eles são mais praticados. Falo do “Poker”, do “Xadrez” e do “Go” (considerado o mais antigo dentre os tais “jogos de tabuleiro”).

O primeiro, é, para quem pouco ouviu falar, um jogo de cartas muito comum, apelidado de “jogo de azar”, praticado por seus entusiastas apenas por divertimento, ou em cassinos e casas de jogos como negócio extremamente lucrativo. Dentre as populações mundiais, aquela mais apaixonada e dedicada é a dos Estados Unidos. O “Xadrez”, famoso pelo rótulo de genialidade que seus jogadores desfrutam, tem muitos praticantes na Rússia, terra de enxadristas como Karpov e Kasparov, é atividade curricular em escolas primárias daquele país. O último, o “GO”, é paixão longeva dos chineses, e igualmente estimulado naquele país como instrumento de capacitação e educação infantil.

Coincidências à parte, os EUA, a Rússia e a China são, no momento, as maiores potências militares do globo e muito da estratégia usada pelos seus governantes à cata de sua prevalência no domínio do mundo, vem (ou se assemelha) desses três jogos mencionados. Donald Trump, Vladimir Putin e Xi Jinping, dirigentes máximos atuais daqueles países e que tem sob seus dedos os botões atômicos, não sei se são entusiastas jogadores, mas foram crianças criada nesses ambientes. O “poker”, agora particularizando, envolve habilidades matemáticas, memória e gestão de riscos, mas a principal habilidade de seu praticante é o “blefe”, e blefar inclui, com a maior frieza possível, mostrar-se maior, mais poderoso do que se é, incutindo nos adversários o temor de perderem tudo, na maioria das vezes desistindo mesmo tendo em mãos cartas de alto valor e, o vencedor, medíocres.

No “xadrez”, o expert busca antever todas as possibilidades futuras de seu oponente, muitas vezes adiantando, mentalmente, vinte ou trinta movimentos futuros possíveis, quase sempre tendo que decidir entre as suas peças, da “rainha” aos “peões”, qual será entregue “à morte” para preservar o “rei”. Já no “GO”, o objetivo é conquistar a maior área (território) do tabuleiro, cercando interseções vazias com suas pedras, em vez de focar apenas na captura. Esse jogo mescla “expansão territorial” com construção de alianças que propiciem aumento gradativo da influência e do poder do jogador, exigindo visão de longo prazo, criação de grupos “vivos” e contenção do adversário.

Um vencedor no “poker” não se ocupa em imaginar quais as jogadas possíveis aos seus oponentes nas rodadas futuras, porque a ele interessa apenas ganhar aquela em curso, de preferência deixando os demais jogadores depenados e cada vez mais temerosos. O enxadrista experiente não se dá ao desfrute de blefar, porque seu oponente está diante dele aguardando exatamente um movimento errado para, imediatamente, agir no erro do outro, melhorando ainda mais a suas perspectivas para as próximas 20 ou trinta etapas do duelo. O praticante vitorioso do “GO” não se perde cogitando o que seus oponentes farão daqui muito tempo, tampouco se arrisca à truculência do praticante de “poker”, já que alianças longevas não são construídas na base do porrete, do tudo ou nada, e muitas vezes vencer o adversário demanda que não o interrompamos quando está fazendo alguma coisa errada.

Transpondo isso para a nossa realidade e nossos dias, não é interessante acompanharmos os movimentos desses players no tabuleiro do mundo?

Gustavo Varella Cabral
Gustavo Varella Cabral
Advogado, jornalista, professor Mestre em direitos e garantias fundamentais pela FGV

Você por dentro

Receba nossas últimas notícias em primeira mão.

Escolha onde deseja receber nossas notícias em primeira mão e fique por dentro de tudo que está acontecendo!

Comentários

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais Lidas

Notícias Relacionadas

[the_ad_group id="63695"]