Quando eu era mais novo tinha um conhecido que pedia, num trailer de sanduiches que ficava onde hoje se localiza o McDonalds, na Praia do Canto (bairro de Vitória-ES), um cheesebacon “sem bacon”. Aos que não o conheciam e estranhavam aquela pedida, ele explicava: gostava do sabor que o tal “acessório suíno” emprestava ao conjunto, mas não apreciava mastigá-lo.
O chapeiro atendia, feliz, ao pedido do cliente costumeiro e tudo terminava bem. Anos depois, por pura coincidência, encontrei-o na fila daquele famoso fast-food e ele foi logo se adiantando em dizer que estava ali pelos filhos, já que se recusava a pedir qualquer coisa lá em vista da “má vontade” dos funcionários em não atenderem à sua tradicional demanda.
Não me vi estimulado a argumentar com o mesmo que um estabelecimento que produz e vende centenas de milhões de sanduíches por dia ao redor do mundo, não poderia destacar alguém de seus quadros para atender pedidos tão personalizados assim, optando por oferecer, no cardápio, diversas alternativas que supostamente contemplariam a maioria dos gostos “possíveis”.
Se ele quisesse insistir no tal “chessebacon sem bacon” ou tivesse desenvolvido novo costume, como, por exemplo, um milkshake sem leite (quem sabe desenvolvera intolerância à lactose?), que fosse procurar quem os fizesse, ou cuidasse disso em casa mesmo. Modelos existem exatamente para padronizar comportamentos, ações, processos, roupas, comidas etc., possibilitando seu acesso mais amplo – e normalmente menos custoso – a um número multitudinário de pessoas.
O famoso industrial americano Henry Ford, por exemplo, fez sucesso e cunhou seu nome na história quando “inventou e padronizou” um sistema de produção em escala de automóveis, lançando no mercado (e explodindo de ganhar dinheiro) seu “Modelo T”, um calhambeque simpático hoje restrito a museus e colecionadores endinheirados. Não daria tão certo, ouso pensar, caso nosso Henry tivesse deixado à escolha do público o estilo de estofamento, a posição dos vidros, a potência do motor ou mesmo a inclusão de determinados adereços hoje tão comuns, como periquitos balouçando no espelho retrovisor ou cachorrinhos mexendo a cabeça no banco traseiro, que alguns motoristas de extremo bom-gosto agregam aos seus carangos.
Tudo na vida é assim e quem gosta de exclusividade deve pagar o preço por ela, ou ajustar-se ao que tem à sua disposição. O que não dá – ou acaba causando profundo sofrimento próprio ou em terceiros – é tentar impor aos outros um modelo, comportamento ou padrão que somente ao seu “dono” aproveitam. É a velha história do “Joãozinho da Banda”, que teimava ser o único que tocava certo; os outros noventa e nove é que desafinavam, e no mesmíssimo ritmo… Até se vê, e ainda assim por um determinado tempo, quem tente impor (ou aos mesmos se submeta) um padrão, rotina, estilo ou forma viver diversos do usual, tolerável ou desejável, mas, como dito acima, o preço a se pagar por isso normalmente vem salgado no fim das contas.
Cada um de nós, seres humanos, por mais generosos e tolerantes com o outro que possamos ser, temos limites, vontades e pretensões que devem ser sempre consideradas, já que mesmo as panelas de pressão mais seguras do planeta resistem a determinados excessos até que seu ponto de ruptura ou extravasão máximos sejam ultrapassados. E quando essa barreira é violada, não adianta reza-braba nem promessas e penitências: a coisa sai do controle e seja lá o que Deus quiser.
Copiar alguém que está dando ou deu certo pode funcionar por um certo tempo, mas nada garante que um minúsculo detalhe íntimo, um tropecilho ou desajuste, em algum instante, ponham tudo a perder. E ainda pior: como modelávamos alguém distinto de nós mesmos, não desenvolvemos as armas e os antídotos desse “copiado” para remediar ou enfrentar essas situações extremas. Uma espécie de “fita métrica”, muito precisa quando buscamos estabelecer nossos próprios modelos de vida, são as chamadas prioridades.
Há quem ache (e viva assim) que a coisa mais importante do universo é cuidar dos filhos, outros preferem aprender violão, e outros mais fotografar baleias. Não existe essa de “o certo ou o errado”, já que para o amante dos cetáceos, os filhos que se virem e violão, ah, o vizinho que toque. Claro que todos temos compromissos, obrigações e tarefas que quase nunca podemos delegar a outra pessoa, e cumpri-las é fator essencial ao nosso equilíbrio, projetos e valores. Porém, quem passa a vida escarafunchando e colando o “quintal do vizinho”, quase sempre termina com o seu amontoado de entulho.
Também incorremos, os que sobrevivemos espelhando o alheio, no risco de nos flagrarmos vazios, ocos e descoloridos quando compreendemos que felicidade ou infelicidade são absolutamente individuais: não há como terceirizá-las, ainda que muitos tentem e até consigam contaminar gente igualmente “copista” durante curto período. De modo mais ou menos intenso ou cotidiano, cada um de nós, em algum momento de nossas vidas, aderimos, adotamos ou usamos como referência modelos alheios. Ora de pessoas mais próximas e íntimas, ora daquelas que julgamos terem alcançado o tal patamar de excelência que desejamos para nós mesmos.
É normal e compreensível, já que ninguém vem de “fábrica” pronto para qualquer desafio. E, sabidamente, muita coisa boa já se fez, testou-se à exaustão, e está à disposição ao menos para ser usada ou comparada com nossas percepções e perspectivas do que seria o ideal. Impõe-se avaliar, no entanto, que muitos desses sucessos alheios, muitos desses almejados e invejados resultados, foram colhidos após incontáveis fracassos ou tantos quantos ajustes ao longo do caminho, a maior parte deles sentidos ou realizados exclusivamente no plano íntimo desses nossos paradigmas.
Nada nos garante que os mecanismos e ações por eles adotados surtirão o mesmo efeito em nossas circunscritas realidades. O segredo é compreendermos que poucas coisas caem do céu de graça, sem algum custo, ainda que somente derivadas de nossos esforços e percepções pessoais. Sempre bom ressaltar que não há nenhum problema em usarmos essas experiências alheias (é até inteligente fazer isso, já que poupamos muita energia evitando os percalços já vividos por essas pessoas!) porém quando simplesmente justapomos – quase sempre por preguiça ou falta de coragem de fazermos os nossos – desenhos de outros como se pudessem ser milimetricamente ajustados a nós, terminamos querendo tributar culpa a eles pelo eventual fracasso sofrido, quando, sublinho, essa culpa é tão somente nossa. Vale lembrar, sempre, que a maioria de nossas decepções com outras pessoas decorrem não dos atos ou omissões delas, que não nos prometeram absolutamente nada, mas à errada percepção (ou esperança) de que elas agiriam assim ou “assado”, porque de tal maneira o faríamos em seu lugar: não nos prometeram nada, mas nós criamos uma expectativa que, ao cabo, foi frustrada.
Tudo que nos cerca traz consigo uma espécie de “boleto” cunhado em moeda, em dores, suor, somas ou diminuições de amores, tolerâncias, adaptações ou sublimações e eles (os tais boletos) inexoravelmente vencem. Nesse passo, uma boa colheita ou, pelo menos, a experiência que nos ajuda a não repetirmos insucessos havidos ou percebidos, demandam folga do écran do celular, pausa na correria louca que a vida moderna nos exige, respiração compassada e a formulação de uma espécie de listinha mental, de um lado, nela, “escrevendo” aquilo que nos agrada e faz sorrir, do outro o que nos lembra cheiro de velório; e a coragem de escolher e agir em favor do que – já que quase nenhum de nós é masoquista – mais garanta o visto de “ingresso no paraíso”, obtenível de diversas formas, mas nunca ouvi falar que por analogia.









