Na manhã desta terça-feira acordamos todos com as imagens de uma unidade da empresa Cacau Show, localizada em Linhares (ES), sendo consumida pelo fogo. Qualquer incêndio, natural ou provocado, consome e destrói, às vezes completamente, coisas, ambientes e até vidas. Por mais prosaico e substituível que seja o bem incendiado, é natural que o ser humano – à exceção dos psicopatas – enxergue na ocorrência alguma detalhe que seja bom, louvável e até digno.
A ação heroica de bombeiros ou cidadãos em sua mitigação ou na salvação de objetos, animais e pessoas afetadas nos traz alívio, satisfação e a sensação de que sempre existe uma esperança, de que pelo menos alguma coisa restou à memória, à reconstrução, à redenção dos seus maiores prejudicados. Todavia nossas reações imediatas diante das adversidades talvez sejam o melhor espelho de nossos caráteres.
Não apenas nos incêndios, mas também nas doenças, nas guerras, nos relacionamentos, no cotidiano de nossas vidas. Muitos de nós, diante das imagens ou dos relatos sobre esse incêndio em particular, cogitamos os prejuízos econômicos, a hipotética existência de um seguro capaz de cobrir os prejuízos materiais, na capacidade ou na incapacidade das equipes linharenses no combate às chamas, e até mesmo na perspectiva de ter sido aquele evento provocado para cobrir eventual crime fiscal.
Coisas nossas, humanas.
Como diz antigo ditado popular, a gente julga as pessoas e os fatos conforme nossa própria régua de valores. Um ex-presidente, amado por uns e odiado por outros, publicou a foto do aniversário de sua filha numa rede social e os julgamentos postados, no tribunal popular das redes sociais, alternaram frases criticando a exposição da menina ou sua aparente contrariedade, de um lado, e os aplausos, ufanistas, de quem sequer sabia da existência da adolescente, reconhecendo nela valores e perspectivas que sequer ela própria conhecia.
As fotos da esposa do atual presidente, igualmente publicadas nessas mesmas redes sociais, provocaram comentários ácidos e cáusticos, incluindo as supostas preferências e rotinas sexuais dela, como também manifestações ensandecidas de amor e júbilo de outras pessoas que até alguns meses atrás sequer sabiam-na um ser vivente sobre a face Terra.
Ampliando mais o quadro, até poucas semanas o debate se concentrava na longínqua Ucrânia, com especialistas pop-up, desses que formam suas convicções e professam seus valores conforme a “temperatura” ideológica da prima do tio do vizinho, famosa professora de “tudismo” em sua página de “influencer”, ou o comentário de alguém rotulado de liberal ou comunista no último podcast da moda, deitando falações das mais bizarras e ignorantes sobre absolutamente tudo naquele cenário.
Agora o foco está no chamado Oriente Médio, onde pessoas, independente de sua nacionalidade, são metralhadas, explodidas, sequestradas, mutiladas e estupradas simplesmente porque estavam ali, ou porque acham que o seu deus é o verdadeiro, ou porque há dois mil anos seus tataravós fizeram isso ou aquilo, disseram isso ou aquilo, acreditaram nisso ou naquilo.
Estratégias, razões, propósitos, versões, razões e as mais recentes máquinas de matar são festejadas, debatidas e explicadas como se seu domínio garantisse as debatedores soluções para suas dúvidas existenciais, seus conflitos domésticos ou o pagamento da fatura do cartão de crédito.
Faz parte da cultura da morte a banalização da vida. Mais sucesso têm seus seguidores quanto maiores forem os números da tragédia; mais satisfação demonstram quando conhecem os requintes de um míssil que distingue quem torce para tal lado de quem defende o outro. Mais gozo demostram ao perceberem que seu “time” avança na tabela desse campeonato homicida por conta da capacidade de convencimento, independentemente do preço em vidas e miséria cobrado, de seus líderes.
Daí a relevância, a importância e a generosidade da frase-título desse artigo, proferida, enquanto ainda ardia sua empresa, pelo empresário Alê Costa, de quem até hoje eu nunca havia ouvido o nome, quando entrevistado sobre o fato. “Ninguém ficou ferido” é, nesse especial e particular contexto, uma frase que exprime caráter, dignidade, sororidade, solidariedade e, mais que tudo, valores que todos nós temos a capacidade de ostentarmos, muito embora centenas de milhares de pessoas os mantenhamos arquivados para a hipótese, indesejada claro, de sermos nós ou os nossos os alvos da tragédia, da carnificina, do ódio alheio.
Não à toa a empresa do Alê, que em poucos dias estará de pé e renovada, surgiu e cresceu dando exemplo de excelência no que faz e no como o faz. O segredo disso, permitam-me, não está na matéria-prima de qualidade que usa, na capacitação de seu pessoal nem mesmo no marketing especializado que ajudou a lançar luzes sobre seu produto e na sua marca.
Está na essência humana de seu capitão: que bom que ninguém saiu machucado dessa tragédia!









