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13 de junho de 2024
quinta-feira, 13 de junho de 2024
Guilherme Lacerda
Guilherme Lacerda
Economista, com longa experiência na academia e com diversificada atuação nos setores público e privado, Guilherme Narciso de Lacerda foi Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo, secretário adjunto de Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de Belo Horizonte, Diretor de Operações do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (BANDES), Secretário de Planejamento do Estado do Espírito Santo, Secretário de Finanças da Prefeitura de Vila Velha, Presidente da Fundação dos Economiários Federais (FUNCEF) e Diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). As colunas de Guilherme Lacerda serão publicadas em ESHOJE quinzenalmente, sempre às segundas-feiras. Seu histórico profissional dará base para opiniões que refletem, somente, a opinião do colunista. Como economista tem participado da estruturação de projetos de concessão/PPPs e elabora diagnósticos e estudos econômicos corporativos e sobre a conjuntura nacional.

Desafio para o futuro do Brasil

As editorias de economia dos grandes meios de comunicação ressaltam, quase sempre, os temas do dia a dia: indicadores de inflação, dados de crescimento econômico, desempenhos setoriais e resultados da balança comercial, dentre outras estatísticas apuradas pelos institutos de pesquisa. Poucas vezes temos matérias de análise projetando os grandes desafios da economia no médio e no longo prazo. E quando nos deparamos com alguma análise de maior fôlego, raramente elas se aprofundam numa discussão mais estratégica de projeto de país; sempre é mais do mesmo: necessidade de reformas e de cortar despesas para encolher o estado e o país funcionar melhor.

Falta ao Brasil um planejamento econômico de médio e longo prazos.

Num país como o nosso, com imensas carências sociais e com desigualdades de renda e de propriedade tão vergonhosas cabe perguntar como construir um projeto de longa duração, que contemple uma mudança qualitativa do padrão da economia e que nos torne de fato uma grande nação.

A economia brasileira se expande com um apoio muito grande do agronegócio exportador. O Brasil possui uma pauta de exportações concentrada em itens de baixo valor agregado; esta é uma marca histórica, mas ela se agudizou nos últimos anos, com uma dependência enorme de commodities do agronegócio e de minérios. Ao mesmo tempo as concentrações de renda e riqueza persistem, sendo apenas tocada de forma tangencial pelas políticas públicas.

Esse é o caminho mais apropriado para o nosso futuro?  Qual o país que queremos ser daqui a duas ou três décadas? Para onde caminhamos? Avançamos na direção de uma sociedade com uma qualidade de vida decente para o seu povo, com liberdade para empreender e com a preservação de uma ambiência social e ambiental colaborativa e solidária?

Neste desafio maior, há aspectos delicados e urgentes que precisam ser enfrentados. A nação brasileira só se consolidará de verdade se houver um enfrentamento corajoso da questão da segurança pública e da organização sócio urbana em todos os quadrantes de nosso território. O esgarçamento do sistema político nacional e os vazios entre Instituições e a sociedade dificultam debater a fundo os vetores que levam ao estado de coisas de hoje, em que os choques de horror vão se normalizando dia a dia.

Para se tirar da prancheta a construção de um projeto econômico moderno e com melhor distribuição de renda será necessário constituir um fundo nacional com parcelas das riquezas que o nosso país tem gerado ano a ano, com confortáveis saldos na sua balança de pagamentos, bem como nos impressionantes resultados financeiros das grandes corporações empresariais, em especial as financeiras. Tais êxitos tem coexistido com o agressivo modelo de concentração de riquezas que todos criticam, mas pouco é feito efetivamente para enfrentar.

É preciso ousar e colocar o dedo nas questões que são relevantes. Um projeto de país com novas estruturas precisa ter mudanças para valer. Já passa da hora de se abrir um debate sobre a constituição de um fundo público utilizando-se de parcelas bem dosadas dos resultados líquidos das receitas com commodities agrícolas e minerais e da lucratividade excedente a um dado percentual sobre o patrimônio líquido das grandes empresas e das grandes riquezas patrimoniais, com destaque para aquelas que orbitam nas esferas financeiras.

Tais recursos precisam ser diretamente direcionados para dois eixos: um, é o da ciência e tecnologia, focada diretamente na inovação e na transição energética. O outro eixo é o de atuar na raiz dos fatores que levam à imoral desigualdade de renda e riqueza das famílias brasileiras. É necessário turbinar programas com eficácia comprovada que favoreçam os mais necessitados, mirando principalmente em investimentos para cuidar da primeira infância.

O fundo financeiro proposto deve ser um fundo público de direito privado gerido por uma coordenação participativa de toda a sociedade, com metas construídas para uma trajetória de trinta anos. Obviamente, é necessário ter empenho total na transparência da gestão dos recursos e também ter uma revisão periódica de metas.

Uma proposta como essa pode soar ingênua e exageradamente pretensiosa. Ela se coloca acima dos embates eleitorais de curto prazo e precisa independer das mudanças de correlação de forças na política partidária.

O grande problema está na polarização atual e no rescaldo dos atos golpistas recentes. Eles podem truncar as interlocuções necessárias para se caminhar juntos em um projeto de país de longo prazo.

É preciso que a sociedade perceba o risco que corremos. O caminho atual vai nos levar, mais cedo ou mais tarde, a um ponto de não retorno, com impactos imprevisíveis para a organização institucional e social de nosso país.  A única rota de superação que temos passa pela construção de uma trajetória que liberte o Brasil da dependência primária na balança comercial e que haja uma repactuação efetiva nas relações políticas de nosso país, sem abrir mão de uma verdadeira inclusão social.

Guilherme Lacerda
Guilherme Lacerda
Economista, com longa experiência na academia e com diversificada atuação nos setores público e privado, Guilherme Narciso de Lacerda foi Professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo, secretário adjunto de Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de Belo Horizonte, Diretor de Operações do Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (BANDES), Secretário de Planejamento do Estado do Espírito Santo, Secretário de Finanças da Prefeitura de Vila Velha, Presidente da Fundação dos Economiários Federais (FUNCEF) e Diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). As colunas de Guilherme Lacerda serão publicadas em ESHOJE quinzenalmente, sempre às segundas-feiras. Seu histórico profissional dará base para opiniões que refletem, somente, a opinião do colunista. Como economista tem participado da estruturação de projetos de concessão/PPPs e elabora diagnósticos e estudos econômicos corporativos e sobre a conjuntura nacional.

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