A partida precoce do artista e professor Nortton Dantas de Medeiros em 2014,deixou uma lacuna silenciosa na história recente das artes visuais capixabas. Em um estado onde muitas vezes a memória cultural se constrói de forma fragmentada e institucionalmente frágil, sua trajetória permanece como símbolo de uma geração que ajudou a consolidar a arte contemporânea no Espírito Santo não apenas por meio da produção artística, mas sobretudo pela formação humana e intelectual de novos artistas.
Graduado em Artes Plásticas pela Universidade Federal do Espírito Santo em 1990, Nortton atuou nas áreas de artes visuais, cinema, restauração e educação, além de lecionar no curso de Artes Visuais da universidade como professor temporário e tutor de ensino a distância.

Crédito Fabíola Fraga
Mas reduzir Nortton Dantas a um currículo seria insuficiente. Sua importância ultrapassa os limites acadêmicos. Ele pertence a uma linhagem de artistas-professores que compreenderam a arte como experiência coletiva, território de escuta e instrumento de transformação sensível. Em muitos contextos, sobretudo fora dos grandes centros brasileiros, são esses agentes culturais que sustentam silenciosamente a continuidade da produção artística local.
No Espírito Santo, onde o circuito das artes historicamente enfrentou precariedades estruturais, poucos recursos e limitada preservação de memória, professores como Nortton desempenharam papel decisivo. Funcionaram como mediadores entre universidade, cidade e produção artística independente. Mais do que ensinar técnicas, ajudaram a formar repertórios, estimular pensamento crítico e legitimar trajetórias de jovens artistas capixabas.
Sua atuação também revela uma característica importante da cena artística capixaba nas décadas de 1990 e 2000: a transversalidade. Nortton transitava entre pintura, audiovisual, restauração e ensino em um período no qual muitos artistas precisavam construir suas próprias possibilidades de permanência cultural. Essa multiplicidade não era apenas estética, mas também uma estratégia de sobrevivência intelectual e artística.
Mesmo após sua morte, em 2014, sua presença continuou reverberando no imaginário de artistas urbanos e coletivos visuais capixabas. Uma reportagem da TV Gazeta registrou, inclusive, uma homenagem feita por grafiteiros em Vitória, demonstrando como sua memória ultrapassou o espaço universitário e alcançou também a arte urbana contemporânea.
A trajetória de Nortton evidencia ainda um problema recorrente no Espírito Santo: a dificuldade em institucionalizar sua própria história da arte. Faltam publicações, acervos organizados, exposições retrospectivas e políticas permanentes de preservação da memória artística local. Muitos nomes fundamentais para a formação cultural capixaba acabam desaparecendo da memória pública poucos anos após sua morte.

Técnica: acrílica s/ tela
Crédito da imagem: Fabíola Fraga
Falar de Nortton Dantas, portanto, não é apenas recordar um professor querido ou um artista respeitado. É discutir também como o Espírito Santo trata aqueles que ajudaram a construir sua paisagem cultural contemporânea. Em estados onde a memória artística é constantemente ameaçada pelo esquecimento, recordar certos nomes torna-se também um gesto político.
Nortton pertence a uma geração que ajudou a manter viva a produção artística capixaba em períodos de pouca visibilidade nacional. Sua trajetória evidencia que a arte não se sustenta apenas por meio de grandes exposições ou reconhecimento de mercado, mas principalmente através de professores, artistas e pesquisadores que constroem redes afetivas, intelectuais e pedagógicas capazes de atravessar décadas.
Talvez a maior homenagem que ainda possa ser feita a Nortton Dantas seja justamente impedir que sua trajetória permaneça dispersa na memória oral de alunos, artistas e amigos. Revisitar sua produção, organizar seus registros, promover debates, exposições e pesquisas sobre sua contribuição pode representar não apenas um reconhecimento individual, mas também um passo importante para fortalecer a preservação da história das artes visuais no Espírito Santo.
Colaboração e fotos: Fabíola Fraga Nunes*









