O país já está no corredor estreito das últimas horas de campanha. No Espírito Santo, Lorenzo Pazolini e Ricardo Ferraço disputam o governo; na eleição presidencial, Lula e Flávio Bolsonaro travam o confronto final. Domingo, 25 de outubro, os eleitores voltarão às urnas. Até lá, cada debate, cada imagem e cada palavra poderá pesar sobre uma escolha que não é abstrata: em poucas horas, começa a ser decidido o futuro que milhões de pessoas terão de viver pelos próximos anos. Não é pouca coisa.
É nesse instante que a pergunta do título ganha sua medida mais incômoda. Uma campanha que aposta na ofensa não necessariamente perde o eleitor. É triste, mas é real nestes tempos. Em certos grupos, ofender pode até conquistar o voto. A agressividade, quando encontra uma sociedade polarizada, deixa de ser um desvio de tom e se converte em sinal de pertencimento: agride-se o adversário para provar que se está ao lado certo da fronteira.
O primeiro debate entre Lula e Flávio Bolsonaro, na Band, mostrou a lógica em funcionamento. Houve acusações, provocações, familiares convocados para o confronto e perguntas sem resposta. O debate esclareceu pouco sobre os projetos em disputa, mas produziu abundante matéria-prima para a circulação digital: a frase que humilha, a reação que irrita, o instante que cada torcida pode recortar como prova de vitória. O eleitor não precisa sair dali convencido de uma proposta; basta sair convencido de que o outro lado merece ser derrotado.
A psicologia política ajuda a compreender essa mudança. Um estudo sobre o Brasil, baseado em dados das pesquisas eleitorais de 2014 e 2018 e em uma pesquisa própria com 1.732 pessoas, encontrou um mecanismo particular da nossa polarização: muitas vezes, o vínculo político se organiza menos em torno de quem o eleitor ama do que de quem ele rejeita. O pesquisador João Areal analisa essas identidades negativas — antipetismo, antibolsonarismo — pelas quais alguém define a própria posição política sobretudo pela aversão ao outro lado. Há quem não saiba exatamente o que espera de seu campo; sabe, com clareza, quem não quer ver no poder.
Nesse terreno, o ataque pode ser eficaz. A ofensa passa a soar como coragem; a crueldade, como sinceridade; a falta de compostura, como prova de autenticidade. O candidato não perde apoio apenas porque agride. Às vezes, agrada justamente porque agride.
As redes fazem o restante. Uma auditoria experimental do algoritmo do X constatou que a ordenação baseada em engajamento amplificava conteúdo emocionalmente carregado e hostil ao grupo político adversário — inclusive conteúdo que os próprios usuários diziam fazê-los sentir pior em relação a esse grupo. A plataforma não precisa saber se a indignação melhora o debate; basta que ela mantenha as pessoas olhando. A campanha aprende depressa: aquilo que circula parece funcionar, e o que parece funcionar vira estratégia.
O eleitor de hoje não é uma nova espécie humana, fabricada pelas redes. É o mesmo animal político, mas exposto a um ambiente que converte identidade em torcida e indignação em moeda de atenção. Ele não apenas recebe a briga: comenta, compartilha, amplifica, escolhe o lado e, às vezes, confunde o desempenho da agressão com a qualidade da candidatura. O político oferece o confronto; a plateia devolve alcance. A campanha deixa de perguntar somente “o que convence?” e passa a perguntar “o que mobiliza os meus contra os deles?”.
A história brasileira nunca foi inocente. Em 1989, a disputa entre Fernando Collor acusou Lula de tramar um confisco de poupanças, quando, na verdade, a prática foi seu primeiro ato de governo. Na reta final daquela campanha, Collor levou ao horário eleitoral o depoimento de Miriam Cordeiro, ex-companheira de Lula, com acusações pessoais que abalaram a candidatura. Às vésperas da votação, o PT ainda foi falsamente associado aos sequestradores de Abílio Diniz. A política sempre soube acender o medo. As redes sociais de hoje não inventaram o expediente: deram-lhe velocidade, repetição e uma plateia que pode levá-lo de tela em tela.
Em 2014, João Santana construiu uma peça de televisão que merece ser lembrada pela inteligência visual — e pelo uso que fez dela. Banqueiros apareciam satisfeitos; uma família sentava-se à mesa; enquanto a locução atacava a proposta de autonomia do Banco Central defendida por Marina Silva, a comida desaparecia dos pratos. Em trinta segundos, uma discussão econômica complexa era convertida numa ameaça doméstica: se Marina vencesse, a mesa da família poderia esvaziar. Bela na forma, precisa na síntese, devastadora no apelo. Uma aula de comunicação política; também um retrato de como o medo, quando bem dirigido, dispensa explicações longas.
Quatro anos depois, o medo foi à mesa das famílias por outro caminho. A falsa história da “mamadeira de piroca” e a ressurreição do chamado “kit gay” apresentaram Fernando Haddad como ameaça às crianças. Em 2022, circularam boatos sobre fechamento de igrejas e banheiros unissex nas escolas. Em 2026, pesquisas inventadas, falsos apoios e imagens manipuladas por inteligência artificial mostram que a fabricação de ameaças ganhou novas ferramentas. Muda o suporte; permanece o velho mecanismo: o adversário não apenas faria escolhas ruins — estaria prestes a arrancar do eleitor aquilo que ele mais teme perder.
O caso de Carlos Manato, no Espírito Santo, devolve essa discussão ao peso concreto de uma acusação. A Polícia Federal concluiu, na última semana, o inquérito sobre conteúdos da campanha de 2022 que associavam o então candidato a grupos de extermínio e ao crime organizado. O relatório final indiciou Renato Casagrande – então candidato e vitorioso naquela eleição – e Felipe Rigoni por suspeita de divulgação de fatos sabidamente inverídicos na propaganda eleitoral e nas redes. Os autos foram remetidos ao Ministério Público Eleitoral, que decidirá se oferece denúncia, pede o arquivamento ou requer novas diligências. Manato afirma que aquela campanha difamatória lhe custou a eleição.
Talvez seja disso que sentimos falta quando dizemos ter saudades das brigas de antigamente. Não da inocência — 1989 foi uma eleição brutal. Mas de uma disputa em que o conflito ainda tinha objeto: economia, Estado, propostas, prioridades. Hoje, muitas vezes, a briga já não serve para esclarecer o que cada candidato fará; serve para deixar claro quem o eleitor deve odiar.
E estamos nos capítulos finais. Até domingo, haverá poucas horas para a campanha transformar medo em voto, indignação em mobilização, insulto em sinal de lealdade. Quando a urna se abre, não se decide apenas quem governará. Decide-se também que espécie de política encontrou recompensa — e que preço o país aceitará pagar por ela.









